                 SOCIOLOGIA DA PRTICA SOCIAL
ERICK WRIGHT         

                     Classe, Estado e Ideologia em dilogo
         
                            com Erick Wright
         
         
         
         
         
         
         
                     N
                   4'
                ~~~1
         
         
         
         
         
                                Dados Internacionais de Catalogao na PubIica~o (CIP)
                                      (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
         
         
           Guareschi, Pedrinho A., 1940-
             Sociologia da prtica social / Pedrinho Guareschi.
          -- Petrpolis, RJ: Vozes, 1992.
         
         
             TSBN 85-326--0840-X
                                               Pedrinho A. Guareschi
         
         
         
         


         





             SOCIOLOGIA DA
             PRTICA SOCIAL
         
           Classe, Estado e Ideologia em dilogo
                   com Erik Wright
         2! Edio
         .1.
         1/4
         
         
         
         
          1
         '/.:
         
                        1.   Classses sociais - Condies econmicas
                      2.     O Estado 3. Ideologia 1. Ttulo.
         
         
         
         
         
         
                           ndices para catlogo sistemtico:
                      1.     Prtica social: Sociologia 301
         92-2073
         CDD-301
         <1k
         5'-
         4
         Petrpolis
           1995
         
         
         
         
         
         (c) 1992, Editora Vozes Ltda.
            Rua Frei Lus, 100
        25689-900 Petrpolis, RI
                Brasil
         
         
              Cop ides que:
            Otaviano M. Cunha
         Diagrama o:
        Daniel Sant'Anna
             e
        Rosane Guedes
         A Erik Wright,


         





         com quem aprendi a entrever melhor os
         mecanismos da dominao.
         
           Editora o:
        Otaviano M. Cunha
         A Maria,
         gente simples, gentil, querida e eficiente.
                                                ISBN: 85.326.0840-X
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
     Este tivro foi composto e impresso nas oficinas grficas
                 da Editora Vozes Ltda.


         







         





         
         
         
         
         
         
         
         7
         
                       Sumrio
         
         
         
         
         Apresenta, 9
         Introduo, 11
         
         1 - Notas terico-metodolgicas, 17
         
         PRIMEIRA PARTE: CLASSES
         II - Classe: definifio e tipologias , 31
         III - Elementos de classe, 41
        IV - Aplicaes da varivel classe, 53
        V - Construindo a solidariedade, 71
        VI - As contradies da caminhada, 93
         
         
         SEGUNDA PARTE: ESTADO
         VII - Conceitos bsicos relacionados ao estado, 123
         VIII - Estado: modelo centrado na classe, 132
         IX - Modelo centrado no estado, 143
         X - Possibilidades histricas de mudana, 152
         
         TERCEIRA PARTE: IDEOLOGIA
         XI - Ideologia: conceito e relaes, 170
         XII - Ideologia e mistificao, 186
         XIII - Ideologia como legitimio, 197
         XIV - Ideologia como hegemonia, 208
         
         
         
         
         
         
         QUARTA PARTE: ALGUMAS EXPLICAES
         XV - O mundo secreto de uma fbrica, 220
         XVI - Patriarcalismo, 233
         XVII- Racismo, 243                                                  Apresentao
         
         Concluso, 257


         





         Bibliografia, 259
         Notas, 271
         
         
                                                                  No outono de 1990, Pedrinho Guareschi chegou ao Depar-
                                                               tamento de Sociologia da Universidade de Wisconsin em Madi-
                                                               son, depois de mais de dez anos do trmino de seu doutorado,
                                                               para um ps-doutorado. Seu desejo era colocar-se a par das novas
                                                               idias e perspectivas que haviam surgido entre os pesquisadores
                                                               mais crticos nos Estados Unidos e Europa, estudiosos que se
                                                               interessavam com os srios problemas do sofrimento humano,
                                                               mudanas sociais e possibilidades de libertao das pessoas.
                                                                  No incio de 91, aps ter participado de seminrios e discus-
                                                               ses, perguntou-me se eu estaria interessado em ser co-autor,
                                                               num livro que estava escrevendo. Disse-me que sua inspirao e
                                                               referenciais eram os que discutia em meus cursos. Tivemos
                                                               intensas discusses sobre as idias e temas do livro, mas ao final,
                                                               devido ao meu desconhecimento do portugus (o livro tinha sido
                                                               escrito nessa lngua), e devido a meus muitos afazeres e obriga-
                                                               es, pareceu-me melhor que ele fosse o nico autor. De qual-
                                                               quer modo, embora o ponto de partida do escrito tenham sido
                                                               discusses feitas em meus seminrios, Pedrinho acrescentou
                                                               muitas idias novas e diferentes formulaes, transformando
                                                               essas discusses num livro bastante adequado.
                                                                  Vivemos hoje na era do triunfalismo capitalista. As expe-
                                                               rincias com economias dirigidas pelo es!ado esto em runas e
                                                               a ideologia do livre mercado e da livre empresa  hegemnica na
                                                               maioria dos pases. Por mais de um sculo a anlise de classe e
                                                               a crtica socialista do capitalismo estiveram no centro vital do
                                                               pensamento social progressista. Hoje, mesmo pensadores radi-
                                                               cais, que denunciam a explorao e a dominao, ficam muitas
         
         
                                                         9
         
         
         
         
         
         
         vezes inseguros sobre a viabilidade de alternativas ao capitalis-
         mo. A anlise de classe est sendo substituda por uma viso
         fragmentada, uma complexidade desorganizada, em que a con-
         dio humana  conformada por uma mirade de fatores concre-
         tos - raa, gnero, nacionalidade, etnia, idade, cultura, tradies,
         linguagem - em vez depor algumas tendncias centrais. Se tudo
          assim to complexo e indeterminado, prossegue o argumento
         "ps-modernista", ento no podemos dizer nada de til sobre
         uma mudana social em grande escala e sobre alternativas radi-
         cais s instituies sociais existentes. O socialismo e a anlise de


         





         classe so, ento, declarados mortos (ou irrelevantes), no ape-
         nas pelos defensores da explorao capitalista, mas tambm por
         muitos que defendem valores igualitrios e humanistas.
            Mark Twain, o escritor estadunidense do sc. XIX, escreveu
         um dia, aps ver o anncio de sua morte num jornal: "Os
         noticirios sobre minha morte so bastante exagerados". Esse
         livro  um esforo para mostrar que isso  tambm verdade para
         a anlise de classe e para a crtica do capitalismo no final do
         sculo XX.
         Madison, Wisconsin,
                                                     Introduo
         
         
         
         
            Este trabalho tem a inteno de ser simples, claro, til,
         prtico. Dirige-se a todos os que tm, uma vez ou outra, de entrar
         em contato com o que se chama de social. E querem fazer isso
         de uma maneira razoavelmente compreensvel.
            A academia (a universidade, as escolas, as pesquisas, os
         intelectuais, etc.)  freqentemente acusada de no contribuir, ou
         contribuir com muito pouco, para a sociedade. Quantas vezes,
         em encontros de sindicatos, associaes de bairro, clubes de
         mes, ao saberem que determinada pessoa lecionava ou trabal-
         hava na universidade, muitos lderes sorriram benevolamente,
         com certo ar de compaixo, mas tambm de desaponto e frustra-
         o. Por respeito, nada diziam, mas percebia-se neles uma atitude
         de quem sugeria, nas entrelinhas do seu silncio: Aqui est mais
         um que ns estamos sustentando e que no nos vai servir para
         nada...
           Erik Wright
         julho de 1992.
                                                                  Quero dizer que senti na carne, muitas vezes, essa atitude. E
                                                               muitas vezes, tambm, principalmente da parte dos mais amigos
                                                               (ou dos mais agressivos) recebi avaliaes semelhantes.
                                                                  Este trabalho enfrenta esse desafio, e quer mostrar que 
                                                               possvel colocar o trabalho do intelectual a servio da sociedade,
                                                               principalmente dos trabalhadores. Desejamos, na medida do
                                                               possvel, mostrar que a reflexo, a teorizao, a crtica, a pesqui-
                                                               sa, o tempo dedicado a pensar e discutir, nem sempre  em vo.
                                                               Admitimos at que muitas vezes pode s-lo. Mas queremos
                                                               mostrar que, surpreendentemente, isso no precisa ser assim.
                            lo                                                    11


         







         





         
         
         
         
         
         
            Talvez a melhor caracterizao que se possa dar a esse nosso
         trabalho  a de que ele se constitui numa espcie de "traduo"
         do que se produz nas universidades (ao menos em algumas), do
         que se teorizou, do que se discutiu e pensou. Uma traduo para
         os verdadeiros interessados e para os verdadeiros endereos: a
         grande populao de trabalhadores, homens e mulheres, com
         seus lderes e coordena dores, que dia e noite mantm a sociedade
         em funcionamento. E com o pensamento continuamente fixo
         nessas pessoas que so escritas essas notas, e so passadas a
         limpo essas reflexes e produes tericas.
            Cada pessoa tem seu instrumento de trabalho. Algumas, a
         enxada, outras, o telefone, a p de pedreiro, o computador. E h
         outras que usam um instrumento bem mais complexo: usam
         conceitos, teorias. Elas trabalham com coisas que no se agar-
         ram: so idias, o pensamento. E existe outra coisa mais compli-
         cada ainda: esses conceitos tm nomes absolutamente estranhos,
         que a populao em geral no conhece nem compreende. Que
         fazer?
            Pois  a esse nvel que se coloca nossa empreitada arriscada:
         fazer o papel de "tradutor": de passar a limpo as descobertas,
         invenes, concluses que essas pessoas, 9ue trabalham com o
         pensamento e a teoria, esto produzindo. E preciso algum que
         faa esse trabalho. Quem est perdido no meio da mata, dificil-
         mente encontra o caminho de sada. O que v, a todo momento,
         so rvores e mais rvores. Pode passar uma semana fazendo
         atalhos, tentando sair... Mas s vai consegui-lo por muita sorte.
         Mas algum que est num balo, em cima da mata, por exemplo,
         pode indicar muito bem a sada mais prxima, a direo exata.
            O que se est tentando "traduzir" aqui provm de vrias
         fontes. Alguma coisa  experincia pessoal. A maior parte,
         porm, foi pescada aqui e ali. O que  principalmente nosso  a
         "traduo", a colocao das coisas no varejo, com simplicidade,
         mas com profundidade.
            Voc no vai encontrar, no texto, o nome de muitas pessoas.
         Para no complicar a leitura, colocamos quase tudo em notas.
         Nessas notas indicamos, em geral, os autores que discutiram o
         assunto, e remetemos para a bibliografia usada.
            Queremos alertar, desde o incio, que entendemos o social
         como um campo onde no existem garantias absolutas. Ao se
         tratar do social  preciso abandonar o conforto dos absolutismos
         e dos dogmatismos, sabendo que se ir lidar com probabilidades,
         tendncias, constantes. E o mximo que se pode fazer. Isso
         poder frustrar pessoas que gostam de receitas prontas, leis
         universais, coisas prprias de fundamentalistas e dogmticos;


         





         alis, muito na moda.  importante alertar para o jogo hipcrita
         de muitos que gostam de colocar na boca de outros coisas qu~
         nunca foram ditas, para melhor - dessa maneira - conden-los.
         Isso no quer dizer que as coisas ditas aqui no tm valor. Se
         fosse assim, no nos arriscaramos a tal trabalho. Acreditamos
         na importncia urgente e crucial desse nosso empenho, pois  na
         probabilidade relativa dos fatores sociais e psicossociais que a
         histria  construda e transformada. Falar em processos histri-
         cos  falar em relativismos e probabilidades.
             evidente que qualquer trabalho tem suas limitaes. E a
         primeira limitao  o tamanho. Ningum jamais conseguiu
         escrever tudo sobre uma coisa, ou apenas algo sobre todas as
         coisas. E preciso uma opo. E opoj  uma limitao. E nessa
         opo nos guiamos pelos seguintes critrios:
         a) clareza e simplicidade, sem deixarmos de ir ao fundo das
         questes;
         b) privilegiamento de teorias que, alm de mostrar como as
         coisas so, possam indicar caminhos de mudana;
         c) opo preferencial de classe, no sentido de oferecer um
         instrumental de anlise e mudana aos que so os principais
         responsveis pela construo da riqueza nacional: os trabalhado-
         res da cidade e do campo, lderes populares, coordenadores de
         comunidades, etc.
             costume colocar aqui os agradecimentos a quem colaborou
         para que essa empreitada se concretizasse. So literalmente
         milhares os que, de uma maneira ou outra, influram nesse
         trabalho. Todos os que so citados aqui, direta ou indiretamente,
         prestaram sua colaborao. Merecem nosso reconhecimento.
         Mas h uma pessoa que  mais que um colaborador;  o prprio
         autor de todo esse trabalho. Foi sob a inspirao de suas obras,
         pesquisas, aulas, notas, discusses, sugestes, que esse trabalho
         
         
         
                           12                                                    13
         
         
         
         
         
         foi se fazendo - a Erilc Olin Wright, amigo, colega, inspirador,
         meus sinceros agradecimentos.
            No pas do futebol, nada melhor que tomar, como ponto de
         comparao, um jogo. A metfora do jogo vai nos acompanhar
         por todos os meandros dessa nossa tentativa de compreenso do
         social, e por extenso, da sociedade.
            Como em qualquerjogo, vrias situaes se nos deparam. A
         primeira refere-se a que jogo deve ser jogado. Quem ir decidir
         se ser futebol, voleibol, ou tnis? Que poder sistmico nos
         obriga a aceitar este jogo e no outro?


         





            Os jogos possuem regras e essas regras podem mudar. A
         amplitude das traves pode ser reduzida, a definio dos impedi-
         mentos pode ser mudada. Mas quem coloca as regras do jogo?
         Quem escreveu o manual para o referido jogo? Quem decide se
         jogaremos na defesa ou no ataque? Quem coordena o jogo, quem
          o capito, quem decide se o gol  vlido? Qual  o poder
         institucional que decide sobre as regras do jogo?
            Estamos poisjogando futebol e conhecemos as regras. Exis-
         tem at juzes para garantir a execuo das regras. Mas tudo isso
         no  suficiente para nos garantir exatamente o que vai acontecer
         em determinado jogo. Existem estratgias, lances diferentes.
         Alguns times possuem jogadores fortes e habilidosos, outros
         times possuem jogadores fracos e despreparados. Que poder
         situacionalcon figurar o resultado concreto de um determinado
         jogo, executado de acordo com regras especficas?
            Na segunda parte passamos a discutir o jogo poltico. Onde
         entra o estado nessa problemtica toda?  claro que no vamos
         deixar o econmico de lado, mas o carregamos junto, para ver
         como ele influencia, limita, condiciona o jogo poltico.
            J na terceira parte abordamos a parte mais sutil e complica-
         da dojogo: ojogo ideolgico. So as "maracutaias" do jogo, isto
         , as ideologias: a mistificao, a legitimao e a hegemonia.
         Sem essas "maracutaias" no se daria o jogo. Elas esto at
         dentro de ns, e vo se expandindo, se generalizando. Sem sua
         compreenso, dificilmente poderamos mudar o jogo, se algum
         chegasse a essa concluso, claro.
            Finalmente, na quarta pane, vamos trazer alguns exemplos
         concretos de lugares onde esse jogo se d: dentro de uma fbrica,
         nas relaes de gnero (entre homens e mulheres) e nas relaes
         raciais. Vamos aplicar as consideraes anteriores a essas trs
         situaes concretas.
            E agora entremos no jogo, ou melhor, continuemos ajogar.
         Prestemos ateno aos diversos lances. Tentemos descobrir
         quem so nossos companheiros, nossos adversrios, nossos pos-
         sveis aliados. Quando decidir determinadas jogadas, passo a
         passo. drible a drible.
            Boa sorte!
            Pois bem:  desses poderes, internos ao jogo, que essa
         discusso trata.  uma tentativa de compreender por que joga-
         mos, dentro de quais regras, e que tipo de jogo.
         
            No sei a que concluso voc vai chegar. E se chegar, se vai
         estar interessado em continuar ojogo, em tentar mudar as regras,
         ou em tentar mudar o jogo. Tudo fica em aberto. Vamos tentar,
         aos poucos, compreender esse jogo.
            Na primeira parte vamos discutir o jogo econmico. Vamos
         discutir as condies de sobrevivncia indispensveis para que
         haja jogo.  a discusso da estruturao material da sociedade:
         os aspectos econmicos, que do origem  estruturao eforma-
         o das classes (os times, se voc quiser).


         





         15
         14
         
         
         
         
         
         
         
         
         .1
         
                       1- Notas terico-metodolgicas
         
         4
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
                    Neste captulo introdutrio queremos esclarecer alguns pon-
                 tos bsicos que tero importncia para a melhor compreenso
                 das discusses que se faro no decorrer de todo o trabalho.
                 Aproveitemos para discutir alguns conceitos que sero emprega-
                 dos, apresentar os pressupostos que sempre esto presentes em
                 qualquer atividade desse tipo, e orientar os leitores sobre o
                 caminho que percorremos.
                    Qual  a perspectiva terica adotada?
                    Queiramos ou no, essa  uma questo que no pode ser
                 evitada. Todos querem fazer cincia social, da melhor maneira
                 possvel, usar o melhor instrumental possvel, dentro do maior
                 bom senso possvel, baseados na melhor orientao terica pos-
                 svel. Mas existem vrios caminhos para se conseguir isso, e as
                 pessoas divergem na escolha a seguir.
                    Nossa posio  de que a maioria das teorias so teis.
                 Diferentes teorias, de diferentes maneiras, nos ajudam a com-
                 preender, ou explicar, parte do fenmeno. No existe nenhuma
                 que explique todos os fenmenos, nem os aspectos todos de um
                 nico fenmeno. Nesse sentido todas as teorias so relativas e
                 esto presas a seu espao e tempo.
                    O mais sbio, ento,  saber extrair o melhor de cada teoria.
                 Assim, o positivismo, como a sociologia emprica tradicional 
                 algumas vezes chamada,  excelente para analisar "o que est
                 a", o fenmeno como se apresenta aqui e agora. Ele tira um
                 retrato do que est a e o descreve pormenorizadamente. Mas se


         





                 voc perguntar  teoria "por que isso est a", ou at mais, se voc
         
         
         
                                                         17


         







         





         
         
         
         
         
         
         perguntar "por que certas alternativas no esto a", o positivis-
         mo se perder e no poder lhe dar resposta alguma. O positivis-
         mo pode descrever o que concretamente acontece, mas possui
         enorme dificuldade em explicar o que no acontece, mas poderia
         acontecer.
            Do mesmo modo com o funcionalismo clssico. O pressu-
         posto funcionalista bsico  deque tudo possui uma funo, isto
         , que no h nada sobrando dentro das sociedades mais comple-
         xas possveis. Voc j sabe de antemo que se algo sucede ou se
         existe alguma caracterstica presente no sistema, isso se d
         porque est respondendo a uma funo nece~sria. Em outras
         palavras:  a funo que explica, no a causa?
            Max Weber, talvez o terico mais influente na sociologia,
         tentou um caminho diferente com sua sociolo~gjacompreensiYa. -
         Para Weber, essncia.~.soI4  o que ele chamou de "ao
         significativa", isto , aes que so subjetivamente signi cativas
         para_os atores, O presiii~&i de Weber  de cjiiL Itr 1~dt
         ii~i, pode ser considerado uma "coisa", como fizeram Comte e
         Durkheim. O social possui uma ~ no pode
         ser reduzido ou tratado do mesmiii6d que as coisas materiais.
         Ele pode ser com2re~gdido (verstehen) e interpretado (Deutung)
         at certo ponto, especialmente atrav&ffe comparaes com
         outros fatos. Estudar o social, portanto,  tentar compreender os
         significados que esto subjetivamente presentes nas aes das
         pessoas. Isso exige que decerto modo tentemos desenvolveruma
         profunda empatia pelas vidas, pensamentos, sentimentos, temo-
         res e valores das pessoas que pesquisamos e ver como esses
         valores contribuem para a construo da ao significativa. .
         
            O enfoque weberiano na sociologia fornece um referencial
         flexvel para a compreenso de muitos problemas sociais. Mas
         pelo fato de enfocar to profunda, mas limitadamente, os signi-
         ficados inseridos nas prticas sociais, ele no consegue com-
         preender as condies materiais reais e as foras - ou o que ns
         podemos chamar de mecanismos causais concretos - que os
         atores tm de confrontar independentemente de suas conscin-
         cias. Isso significa que, como o positivismo e o funcionalismo,
         a sociologia weberiana no est adequadamente equipada para
         
         
         
         
                                                         Is
         ex~lorar as alternativas fundamentais do mundo social concre-


         





         to.
            Que caminho adotaremos, ento? Que enfoque terico nos
         orientar?
             difcil dar uma resposta completa. Nosso trabalho quer ser
         em primeiro lugar cincia social, que tenha uma metodologia
         especfica, para conseguir as respostas que se quer. E essa
         metodologia comea pela especificao dos mecanismos que
         geram determinados fenmenos, chegando a possveis explica-
         es causais, junto com o uso sistemtico da evidncia. Ent*o.
         em primeiro lugar, nossa preocupao  fazer cincia social.
            Tendo isso como ponto de partida, podemos dizer que ado-
         tamos, em nossas anlises, o que se poderia chamar de um
         enfoque histrico-crtico e analtico! Estamos evitando aqui
         proposita3i~~ieapal7Fa "marxismo", ou "magxista", pois ela
         traz consigo inmeros e infindveis equvocos. Est claro que
         no se pode fazer cincia social, hoje, sem tomar em considera-
         o o enorme conhecimento acumulado que temos, em grande
         parte devido s perguntas e s questes que a tradio provinda
         de Marx, com diferentes ramificaes, trouxe a essa cincia
         social. H, inclusive, dentre essas ramificaes, uma que passou
         a se chamar de "marxismo analtico": talvez seja a que mais
         consegue responder as crticas feitas ao ~parxismo ortodoxo, de
         um lado, e que traz contribuies extremamente relevantes para
         as cincias sociais hoje, de outro.7 Apesar de no concordarmos
         com todos os itens apresentados, certamente esse  o enfoque do
         qual mais nos aproximamos. As divergncias vo aparecer no
         decorrer de toda a discusso, e seria difcil elenc-las neste
         momento.8
         
         1. Teoria da histria ou sociologia?
         
            Um esclarecimento se faz necessrio a respeito do nvel de
         aprofundamento que queremos dar a nossas discusses: o que
         queremos explicar, e at que ponto. Por exemplo: queremos que
         nossa teoria explique toda a histria? Ou nossa teoria  somente
         uma teoria da sociedade em geral?
         
         
         
         
         
                                                         19


         







         





         
         
         
         
         
         
            Exemplificando: Marx, pelo que se pode concluir com ra-
         zovel certeza, queria uma teoria que explicasse toda a histria.
         Sua teoria era uma teoria da histria, baseada na primazia das
         foras de produo sobre todo o resto. As foras produtivas, na
         construo da histria, eram, para Marx, como uma auto-estrada,
         sem sadas, nem retornos, nem desvios.
         -~ Duas questes se colocam aqui:
         a) As foras de produo podem explicar toda a histria? Acre-
         ditamos que  possvel afirmar que h uma tendncia forte das
         foras (e relaes) de produo na instituio e mudana da
         sociedade. Mas essa tendncia no  absoluta, no h um deter-
         minismo total. Nessa auto-estrada h sadas, desvios; a auto-es-
         trada pode, s vezes, se dissolver, tornar-se bastante estreita.
         b) Ao analisar uma sociedade, deve-se ter o cuidado de ir, o mais
         prximo possvel, aos mecanismos que geram e que estruturam
         tanto os fenmenos globais, sistmicos, como os que estruturam
         os outros fenmenos, a nvel institucional e situacional9. Esses
         fenmenos devem ser analisados como relacionados, no unica-
         mente em si mesmos, isolados.10
                                                         ->
         
         
         2~Nveis de abstrao /
         
            Grande parte das discusses que so travadas nas cincias
         sociais seriam resolvidas facilmente no momento em que se
         esclarecesse a que nvel de abstrao cada contendor se est
         referindo. Fazendo uma analogia com o estudo de um lago, por
         exemplo, pode-se dizer que ele pode ser analisado em diferentes
         nveis:
            Num alto nvel de abstrao, pode-se dizer que um lago 
         algo com gua. Num nvel inferior (mdio), um lago  algo com
         gua e outros componentes, como tamanho, localizao, tipo de
         gua, navegabilidade, etc. Finalmente, num nvel de anlise mais
         concreto,  o estudo especfico de um determinado lago que faz
         com que esse lago seja diferente de todos os outros.
       Dependendo do que se quer, do objetivo terico, a anlise 



                            diferente. Assim, por exemplo: se se quer saber se  possvel





         





                            tomar gua, saber apenas que o lago tem gua pode ser desastro-



                            20
         so. Mas se se quer saber em que temperatura ele congela, basta
         saber que o lago  feito de gua.
            O mesmo, analogamente, se d com o estudo dos fatos
         sociais, das sociedades. H vrios nveis de abstrao em que
         uma sociedade ou um fato social podem ser melhor estudados.
           -  Costuma-se distinguir, no estudo da sociedade, trs nveis de
         abstrao: nvel do modo de produo, da formao social e nvel
         conjuntural.11          -
            A nvel mais geral do modo de produjao, os processos
         sociais so vistos em termos de uma lgica ggal de modos de
         produo puros.  forrn~essociais,j sRo analisadas
         as vrias maneiras como diferentes modos de produo se com-
         binam numa dsterrninada sociedade. Finalmente, a nvel conp4n-
         tural, os processos estudados so relacionados ~ietalh~s
         institucionais concretos, e fatores histricos contingentes, que
         fazem com que uma sociedade especfica se dishiigad~ualquer
         outra sociedade. Gramsci sugere, assim, para uma anlise de b
         conjuntura, o estudo das relaes estruturais, das foras polticas
         e das foras militares, e como elas se relacionam no jiresente
         momento histrico.
            Algumas teorias desenvolveram uma anlise sistemtica e
         profunda da estrutura de classes a nvel do modo de produo
         (Marx, por exemplo). Outras j focalizaram diferentes dimen-
         ses, e construram anlises relativamente consistentes da for-
         mao de classe num nvel de abstrao mais concreto, como 
                    12
         o caso de Wright , e o estudo da formao de classe num nvel
         de abstrao mais alto e geral.13
         
         3. Micro e macro nveis de anlise
         
             comum ler, em diversos estudos, que determinada anlise
          feita num nvel micro ou macro. O que se poderia entender com
         isso?
       Em primeiro lugar, no se deve confundiresta discusso com



                            a anterior (os diversos nveis de abstrao). Pode-se fazer uma



                            anlise bem concreta de fenmenos sociais, com conceitos bas-




         





                            
                            tante concretos, como quando se fazem anlises comparativas do



                            desenvolvimento institucional. E podem-se desenvolver concei-



                            21
         











         tos bastante abstratos que se refiram a micro-anlises, como no
         casados modelos da ao-racional das pessoas.
         
           Em geral, quando se fala em micro ou macro conceito, micro
         ou macro anlise, est-se referindo ao nmero de elementos dos
         fenmenos sociais, por um lado, e  forma como esses elementos
         esto agregados, por outro. Um conceito macro-social, por
         exemplo, descreve propriedades de uma sociedade como um
         todo. Quando se diz que a propriedade privada dos meios de
         produo age como um poderoso fator depresso sobre possveis
         polticas do estado, est-se falando de um conceito macro-estru-
         tural.
           De outra parte, quando se fala de posio de classe como
         posies ocupadas por pessoas, est-se falando de um conceito
         micro-social. Ocupar uma posio de classe significa estar sujei-
         to a um conjunto de mecanismos ligados a certas posies, dentro
         de uma estrutura de classe. Elaborar um conceito de classe num
         micro-nvel de anlise,  falar de conceitos em termos de meca-
         nismos que atingem diretamente as pessoas dentro de posies
         de classe.
           O que est em jogo, nas referncias a um nvel micro ou
         macro, , em geral, o tipo de unidade de anlise. Quando a
         unidade de anlise  a pessoa, ou pessoas, dentro de diversos
         grupos, a referncia, na maioria das vezes,  micro. Se, porm, a
         unidade de anlise  a sociedade como um todo, a referncia ,
         em geral, macro.
           Como se pode perceber, essa discusso  complexa, prema-
         tura e, at certo ponto, irresolvvel.14
         
         'i. Que mudana se quer?
         
           Humpressuposto, em nossas anlises, que queremos deixar
         explcito: pensamos sempre numa perspectiva de mudana. Essa
         perspectiva nos acompanhar do princpio ao fim de nossas
         discusses. Mas quando falamos em transformao, mudana,
         em que tipo de transformao e de mudana estamos pensando?
         Pois h vrios tipos de mudana. O que entendemos por mudan-
         a?
#
         





         
         
         
         
                                                         22
         e
           Em primeiro lugar, queremos dizer que no vemos a socie-
         dade como algo dado, natural, imutvel, como se fosse a nature-
         za. Vemos a sociedade como algo construdo, feito por pessoas
         e grupos concretos, conscientes e organizados. E por isso temos
         como pressuposto de que  possvel transformar essa sociedade
         no momento em que tivermos os elementos para isso. E esses
                                 15
         elementos so acessveis, so possveis.
           Pode-se fazer uma clara diferena entre uma mudana radi-
         cal, como a entendemos aqui, e uma mudana aparente, superfi-
         cial, de muitos crticos "liberais", que poderia ser melhor
         chamada de "reforma". Valemo-nos aqui da comparao do
         jogo. Pode-se dizer que existem ao menos trs maneiras diferen-
         tes de jogar:
         a) Pode existir acordo entre as pessoas a respeito de qual jogo
         jogar e mesmo a respeito das regras do jogo, mas pode existir
         conflito a respeito das aes a serem executadas dentro do jogo.
          nesse ponto que se d a luta entre liberais e conservadores:
         discute-se sobre qual a melhor estratgia para vencer, mas no
         se discute sobre as regras mesmas. No jogo da poltica, tanto os
         liberais como os conservadores querem continuar a jogar capi-
         talismo, e ambos concordam com as regras institucionais em sua
         competio, mas eles discordam das polticas do estado que eles
         aceitam, isto . nas estratgias especficas para vencer.
         b): Os jogadores podem concordar sobre o jogo a jogar, mas
         discordam sobre quais seriam as melhores regras para o jogo. E
         a respeito disso que lutam os reformistas e os reacionrios.
         Ambos querem continuar ajogar capitalismo, mas os reformistas
         querem mudar as regras de tal modo que as foras populares
         tenham mais poder, enquanto os reacionrios querem que as
         regras fortifiquem o poder das elites. Algumas regras que se
         mudem no futebol, por exemplo, podem beneficiar jogadores
         grandes, fortes e lentos; outras podem beneficiar jogadores pe-
         quenos e velozes. Existem, porm, limites quanto  mudana de
         tais regras. No futebol, se voc comear a permitir que os
         jogadores agarrem a bola e a atirem um para o outro, e se voc
         mudar as traves em redes no alto dos postes, e se voc reduzir
         drasticamente o tamanho do campo dejogo, ento voc no est
         mais jogando futebol: voc est jogando bola-ao-cesto.
         
         
         
                                                         23
         
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          c)As lutas a respeito das mudanas no prprio jogo so o ponto
          ttitico nas lutas entre revolucionrios e contra-revolucionrios.
          Os revolucionrios no querem apenas mudar as regras do capi-
          talismo, tornando-o assim mais justo para jogadores marginali-
          zados; eles querem jogar um jogo totalmente diferente. Eles
          querem transformar o futebol em bola~o-cesto. Os contra-revo-
          lucionrios querem proibir os cestos.
         
             Nosso interesse, com esse trabalho,  oferecer um instrumen-
          tal que consiga levar a mudanas estruturais, sistmicas, isto ,
           deciso sobre "que jogo joga?', ou que tipo de sociedade se
          quer. Acreditamos que somente haver democracia quando os
          membros de uma nao conscientemente tiverem poder de
          deciso sobre a escolha da maneira como desejam viver, sobre o
          tipo de sociedade que eles querem.
         
          54 Por onde comear?
         
             Analisarum fenmeno, nas cincias sociais ou psieossociais,
          no  uma atividade linear onde se possa identificar um comeo,
          meio e fim. Antes,  uma atividade cntrica, em espiral, onde se
          tem uma primeira e superficial compreenso do fenmeno, uma
          concepo j total, mas em germe, que se vai ampliando em
          crculos mais amplos, tentando relacionar o fenmeno numa
          abrangncia maior, onde as complexidades vo tomando lugar.
          Nesse sentido, analisar um fato social , at certo ponto, analisar
          toda a sociedade. Pode-se comear por diferentes pontos e ir
          descobrindo suas complexificaes. Nenhum ponto  isolado,
          sem referncia: faz sempre parte de um conjunto maior.
         
         -~ Olhando a sociedade em seu todo, poder-se-ia dizer que h
          trs pontos est tgicos por onde se poderia penetrap_fenme-
          toosocial, que poderiam ser chamados de estruturao da vida
          material~oreanizacao poltica e legitimao ideolgica. Essas
          7F~s dimenses so chamadas2~5r outros, de base econmica,
          superestmtura~o1tica e ideolgica. O nome no importa. Uma
          coisa, conitTdb, ~ ii~ els esto intrinsecamente relacionadas,
          uma no dispensa a outra.
         
             Existem infindveis discusses sobre a possvel determina-
          o de uma dimenso sobre a outra. No se chegou ainda, e
          certamente no se chegar, a uma concluso. Tudo depende dos
         
         
         
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                                                         24
         critrios que se tomam para estabelecer essa prioridade. Se 
         verdade que para viver a gente precisa respirar e comer, tambm
          verdade que, devido a determinados sistemas polticos, h gente
         que come muito bem, e milhes de pessoas morrendo de fome.
         E tambm  verdade que aquilo que dissemos acima acontece
         porque h pessoas, morrendo de fome, que acreditam que se elas
         no tm o que comer,  por culpa delas, porque no trabalharam
         o suficiente, no pouparam, no tiveram sorte, o destino no as
         favoreceu.
           Uma pessoa adulta necessita conseguir o alimento antes de
         comer; e deve cooperar com outras pessoas para conseguir o
         alimento; e deve possuir uma linguagem para poder cooperar.
         Mas isso no d uma prioridade explicativa  linguagem sobre
         as outras coisas todas. Elas so todas condies necessrias. O
         problema  o seguinte: qual dessas condies varia de maneira
         mais significativa. A metfora "comer para vive?'  mais impor-
         tante que "respirar para viver", devido  sua maior variao em
         significncia.
           Pode existir um grande nmero de pontos bsicos para iniciar
         a anlise das prticas sociais, da mudana social, das possibili-
         dades histricas. A questo das condies materiais de vida e a
         maneira como essas condies esto socialmente organizadas, 
         certamente um desses pontos bsicos. Embora haja uma poro
         de coisas verdadeiras no que se refere  realidade, a maneira
         como ns conseguimos os recursos materiais - comida, moradia,
         meios de produo, dinheiro, trabalho- influencia profundamen-
         te nossas vidas. Ainda mais: essas condies se modificam
         grandemente de acordo com o lugar e o tempo. Finalmente,
         qualquer projeto plausvel de libertao humana implica trans-
         formaes profundas das maneiras como essas condies esto
         organizadas.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
                                                         25
         
         
         
         
         
         
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         PRIMEIRA PARTE:
         
             CLASSES
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
                 *
         
           J acenamos para a dificuldade de se decidir por onde
         comear uma discusso do fato social. Tambm dissemos que
         no estamos fazendo aqui uma teoria da histria, como quer o
         materialismo histrico clssico. Tambm no iniciamos com a
         anlise do modo de produo que poderia ser um ponto de
                           11
         partida relativamente prtico. Mas esse conceito  ainda bas-
         tante amplo e geral, colocando-se ainda num alto nvel de abs-
         trao.
           Adotando-se um enfoque histrico-crtico, dentro de uma
         perspectiva analtica, existiria um outro conceito, por onde se
         pudesse penetrar no social e compreender melhor sua problem-
         tica?
           Cremos que o conceito de classe  um ponto de partida muito
         fecundo para penetrar na compreenso do social, por vrios
         motivos:
         a)   Porque ele serve para a anlise das vrias dimenses da
         sociedade: a realidade de classe est ligada e intimamente rela-
         cionada  realidade poltica (estado) e  realidade ideolgica
         (conscincia e ideologia).
         b) A maioria das teorias sociolgicas o adotam e fazem uso dele.
         Na sua especificao, tornam-se claros os pressupostos das di-
         versas teorias.
         c)    um conceito que  passvel tanto de uma aproximao
         macro, como micro-social. Retoma, com vantagem, pois, o con-
#
         





         ceito de modo de produo, que  um conceito macro-social.
         d)   Pode ser analisado em diversos nveis de abstrao.
         
         
         
         
                                                         29
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            Por todos esses motivos, julgamos oportuno iniciar dessa
         realidade das classes.
            Nos cinco captulos que se seguem discutiremos vrios
         aspectos da varivel classe.
            No captulo II analisaremos as vrias definies (teorias) de
         classe e tentaremos, a partir da, formar uma tipologia das clas-
         ses.
            No captulo IILj com uma definio nossa, vamos examinar
         os vrios elementos que compem a varivel classe.
           O captulo IV aprofunda o conceito classe, discutindo as
         relaes que esto implcitas nessa varivel. Aps se tentar fazer
         uma aplicao da varivel classe para diferentes sociedades,
         perguntamo-nos, ao final, quais poderiam ser as possveis classes
         numa sociedade capitalista como a nossa.
            Os dois captulos seguintes discutem a problemtica da
         formao de classe:
            No captulo V se discutem as estratgias possveis na cons-
         truo de uma solidariedade dentro de uma classe.
            Finalmente, o capitulo.VI examina as contradies presentes
         na tarefa de construo da solidariedade dentro das classes.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
                                                         30
                                           II- Classe: deflni~o etlogias
         
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         1. As vrias definies de classe
         
            Embora "classe" (ou algum conceito semelhante) se encon-
         tre em quase todas as perspectivas sociolgicas, isso no signi-
         fica que todos os autores, ou todas as teorias, tenham o mesmo
         entendimento do que signifique esse conceito. Muito pelo con-
         trrio. Talvez seja esse conceito o que mais deixe transparecer
         melhor os muitos pressupostos e diferenas entre as vrias teorias
         sociolgicas.
            Ao introduzirmos esse assunto, gostaramos de chamar a
         ateno sobre um ponto geralmente esquecido nas discusses
         cientficas: o que os vrios estudiosos tm em mente, quando
         comeam a pesquisar um assunto? Qual o objetivo que esses
         pesquisadores tm? Dito de outro modo: diante de uma realidade,
         cada um faz perguntas diferentes, procurando respostas a essa
         pergunta; sua teoria ser sempre, pois, relacionada  pergunta
         que fez, e a explicao terica que se constri ser para responder
         a essa pergunta.
            Um exemplo claro disso acontece na questo das classes.
         Diante das diferenas que existem na sociedade, diante dos
         diversos grupos que ali se descobrem, cada um faz uma pergunta.
         E para cada pergunta existe uma teona.
            Aqui esto, pois, vrias perguntas e correspondentes respos-
         tas, de vrios autores (teorias), com respeito s classes. Ento, se
         "classe"  a resposta, qual  a pergunta?
         
         
         
         
         
                                                         31
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         a) Pergunta: Como as pessoas se classificam no sistema de
         estratificao social?
         A resposta a essa pergunta vai definir classe como uma posio
         subjetiva na sociedade. Classe vai ser uma dentre as muitas
         maneiras de as pessoas poderem identificar subjetivameflte sua
         posio social dentro de sociedades desiguais. Classe . pois,
         essencialmente uma categoria cognitiva, da cabea das pessq~5.,
         Definies de classe, dentro de~isa%gnda, iro tratar de concep-
         es subjetivas de hierarquias de status existentes entre as pes-
         soas normais de uma sociedade.
         -N
         
         b" Pergunta: At que ponto as desigualdades sociais empricas
         constituem grupos sociais distinguveis?
         A resposta a essa pergunta vai definir classe como o possvel
         nmero de grupos empiricamente estratificveis. Classe , ento,
         uma maneira de descreveras propriedades emtricas de um
         sistema de esitratificao quando as vrias dimnsbes desse sis-
         tma coincidem, como renda riqpeza, status, laos de amizade,
         eic. A "classificao" dos sistemas de estratificao , pois, uma
         varivel que depende do grau em que grupos claramente defini-
         dos emergem dessas mltiplas dimenses de estratificao. As
         definies de classe, conseqentemente, iro surgir dos procedi-
         mentos estatsticos das investigaes empricas.
         t) Pergunta: O que determina as chances bsicas de realizao
         tocial das pessoas numa sociedade de mercado?
         A resposta a essa pergunta define classe como uma estrutura de
         oportunidade de mercado. Classe , pois, o determinante dos
         resultados individuais no m&rado d trocas. Ela  vista como a
         jjTtZ~riedade estrutural crtica, na biografia das pessoas, que
         determina seu bem-estar material nas sociedades de mercado. A
         definio de classe, por isso, ir se referir  natureza dos recursos
         que determinamos resultados das pessoas no mercado de trocas.
         d) Pergunta: Quais as linhas fundamentais de diviso social nas
         sociedades contemporneas?
         A resposta a essa pergunta vai definir classe como o fundamento
         do conflito, como uma fonte de interesse. Classe designar abase
         estrutural para a formao de atores coletivos engajados na luta.
         Embora classe possa tambm determinar o bem-estar individual,
         
         
         
                                                         32
         como na pergunta~),seu papel terico mais importante ser a
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         explicao de padres de conflito coletivo de grande porte. Nesse
         contexto, as classes tendero a ser definidas pelos tipos de
         relaes que modelam os interesses materiais antagnicos entre
         os grupos.
         e) Pergunta: Que aspectos das estruturas sociais determinam e
         limitam mais profundamente a trajetria de mudana social?
         A resposta a essa pergunta define lasse como o fundamento da
         trajetria histrica. A estruturade classe  uma possvel base para
         compreenderatrajetriadepossibilidades histricasespecficas,
         possveis.
            A nfase relativa nessas diferentes perguntas varia entre as
         vrias tradies tericas. A tradio sociolgica quantitativa e a
         teoria da estratificao enfatizam a a) e a b) (positivismo, ftn-
         cionalismo, teoria dos sistemas). A tradio weberiana d mais
         importncia  c). A tradio histrico-crtica d grande nfase 
         d) e e). No  de se surpreender, pois, que tantas definies
         diferentes de classe estejam presentes na literatura sociolgica.
         
         2. Uma tipologia de conceitos de classe
         
            Seria possvel colocar alguma ordem nessa lista de conceitos
         criados por essas perguntas?
            Isso se torna possvel atravs da estratgia de tipologias, que
         tomem em considerao as vrias dimenses subjacentes a esses
         conceitos. Poder-se-ia, assim, criar uma tipologia conceitual
         baseada em trs elementos contrastantes na definio de classe:
         se a classe se define por relaes, ou por graus? Se definida por
         relaes, so elas primariamente econmicas ou polticas (de
         dominao)? Se so relaes econmicas, definem-se priorita-
         riamente por relaes de mercado, ou por relaes de produo?
            Examinemos as vrias tipologias, apontando, para cada uma
         d~las, os principais autores.
         a) Conceito relacional versus conceito gradativo
        O   ponto central da teoria que v classe como definida em


                            graus,  a preocupao em coloc-las em termos de "acima" ou


                            "abaixo" de outras classes. Os prprios nomes revelam isso: alta,


                            mdia alta, mdia, mdia baixa, baixa. Stanislaw Ossowski afir-


                            33
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         madas entlutas de classe coletivamente organizadas - isso
         significa, contudo, que a importricia estrutural das classes no
         est baseada nas categorias de subjetividade como tal. Conse-
         qentemente, mesmo que servos e trabalhadores, senhores e
         capitalistas operem sob categorias subjetivas de ao e raciona-
         lidade muito diversas, essas categorias podem ser, todas elas,
         legitimamente consideradas como classes devido aos mecanis-
         mos objetivos de explorao que subjazem s prticas sociais.
         ~Tomando tudo isso em considerao, podemos pois definir
          classe nas palavras de Wright: estruturas de classe devem ser
          definidas relacionalmente; essas relaes esto baseadas em
          Tri&~is~s bbnmicos antag~nicos; e esses interesses antagni-
          cos devem ser entendidos em termos da organizao social da
          prpdu~ao. O conceito que une esses vrios elementos  o conceito
          de explorao;  esse mecanismo de explorao, baseado no
          istma de produo, que faz surgir e configura ~ interesses
          conflitivos entre classes definidas relacionalmente.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
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                  III - Elementos de classe
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            O conceito de classe, como o definimos no captulo anterior,
         apesar de relativamente simples  primeira vista, contm uma
         complexidade bastante profunda. Para compreend-lo melhor,
         vamos penetrar nessa sua complexidade, distinguir os vrios
         elementos que o compem e relacionar esses elementos.
            Pode-se dizer que o conceito de classe, nessa perspectiva
         analtica, faz parte de um feixe de conceitos, todos eles relacio-
         nados:
            1) estrutura de classe;
           2) interesses de classe;
           3) formao de classe;
            4) capacidade de classe;
           5) prticas de classe;
           6) lutas de classe;
            7) conscincia de classe.
         
            Na maioria das discusses sobre classes, essas distines e
         as relaes entre esses vrios elementos no so explicitadas.
         Ainda mais: h divergncias entre esses vrios conceitos, con-
         forme os diferentes autores. Isso causa no pouca confuso nos
         debates e nas anlises feitas. Vamos tentar definir aqui, o mais
         claramente possvel, esses vrios conceitos, de acordo com o
         sentido em que os empregaremos. No decorrer do estudo apare-
         cero vrias discusses, onde as divergncias se faro mais
         palpveis.
         
         
         
         
         
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         1.   Estrutura de classe
         
           Estrutura de classe  uma estrutura de locais (posies)
         sociais relacionados entre si, ocupados por pessoas (ou famlias),
         que deterrni~a os interesses obj~tivos de classe dessas pessoas
         (famiias). Como se v, j passamos a usar aqui novo conceito,
         "interesse", nessa definio, que iremos explicar logo em segui-
         47 unia coisa, pois, implica a outra.
         
            preciso distinguir trs pontos nessa definio bastante
         g~ral:
         
         a)Esse conceito de estrutura de classe designa um conjunto de
         posies (locais sociais) distintas das pessoas humanas que
         ocupam essas posies. Isso no significa, contudo, que as
         posies existam independentemente das pessoas, mas que elas
         existem independentemente das pessoas especficas que ocupam
         essas posies: so sempre pessoas, mas no precisam ser exa-
         tamente estas ou aquelas.
         
         b)Essas posies so relacionadas. Isso  extremamente impor-
         tante. Quer dizer que uma posio no pode ser compreendida
         sem a outra:  isso que significa relao. Se eu falar em classe
         dominante, automaticamente me refiro tambm  classe domi-
         nada, pois no pode existir uma sem a outra.
         c)   O conceito de estrutura de classe est intimamente ligado ao
         conceito de interesses (objetivos) de classe. Assim, uma estrutura
         social pode consistir de muitos tipos diversos de posies dentro
         de relaes de gnero, de relaes de poder, de raa, etc. O
         critrio central para diferenciar entre esses tipos de relaes  o
         tipo de interesses que so determinados pelas relaes. As estru-
         turas de classe so as estruturas que apresentam interesses de
         classe entre pessoas e famlias.
         
           Interesses de classe
         
           Interesses objetivos de classe se definem com respeito a
         mecanismos de explorao material.26 Pode-se falar de explora-
         o (expropriao) quando um grupo de pessoas satisfaz seus
#
         





         interesses s custas dos interesses de outro grupo. "s custas"
         significa que existe uma relao causal especfica entre o bem-
         estar de um grupo e o prejuzo de outro. Eles no so simples-
         
         
         
                                                         42
         mente desiguais, mas o bem-estar de um explica (em pane) as
         privaes do outro. Essa  uma definio bastante geral, e
         abrange um grande numero de exploraes, cada uma baseada
         na concretizao e depravao de diferentes tipos de interesses:
         explorao sexual, cultural, etc. Para nosso caso especfico,
         entendemos explorao como explorao material.
            Explorao material , pois, falando de maneira generaliza-
         da, uma situao em que um grupo de pessoas sistematicamente
         satisfaz seus interesses materiais s custas da satisfao dos
         interesses materiais de outro grupo. Quando tal explorao ma-
         terial est ligada a posies definidas relacionalmente, pode-se
         ento falar de explorao de classe e interesses de classe.
            Ainda um ponto: Explorao material no  necessariamente
         explorao em termos de produo, ao contrrio do que a anlise
         marxista ortodoxa sustenta. Ao menos no  necessrio afirmar.
         de antemo, que explorao material  necessariamente na pro-
         duo: isso deve ser fruto de uma argumentao terica adicio-
         nal, da investigao emprica, que vai determinar, caso a caso, a
         fonte de explorao material. Embora este seja o caso, ns
         cremos que a explorao material esteja profundamente ligada
         ao sistema de produo, isso no faz parte da definio mesma
         de explorao.
         
         3.   Formao de classe
         
           O termo "formao de classe"  empregado tanto para de-
         signar um processo (o processo de formao de uma classe),
         como para designar um produto final: uma formao de classe
         (j completa). Em ambos os casos, o conceito se refere  forma-
         o de classes como foras sociais coletivamente organizadas, e
         no simplesmente como estruturas de posies definidas relacio-
         nalmente. Quando tomamos trabalhadores como pessoas possui-
         doras de um emprego numa fbrica, ns os estamos tomando
         como pessoas ocupando posies numa estrutura de classe.
         Quando examinamos as formas de solidariedade que aparecem
         numa fbrica e a maneira como elas se corporificam em organi-
         zaes tais, como sindicatos, ns estamos falando em formao
         de classe. Se pudssemos definir estruturas de classe como
         
         
         
         
                                                         43
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         relaes sociais entre classes, poderamos definir formaes de

         classe como relaes dentro das classes.
         
         4. Capacidade de classe 1
         
           A criao de relaes sociais dentro das classes (formao
         de classes)  importante porque tais relaes so um dos deter-
         minantes centrais das capacidades de classe, isto , o poder e a
         habilidade das classes de conseguir concretizar seus interesses.
         Individualmente, os trabalhadores geralmente possuem capaci-
         dades de classe muito exguas: eles competem no mercado de
         trabalho, possuem poucos recursos, so extremamente vulner-
         veis  represso por pane dos empregadores e do estado. As
         capacidades de classe dos operrios - e dos camponeses do
         mesmo modo - dependem, pois, grandemente da construo de
         solidariedades coletivas e organizaes que possibilitem aos
         trabalhadores agirem como uma fora social mobilizada. Os
         capitalistas, por outro lado, podem possuir individual e relativa-
         mente grandes capacidades de classe, devido a sua riqueza e
         contatos pessoais, e por isso  necessrio bem menos organizao
         coletiva (formao de classe) para assegurar sua capacidade de
         classe. Sem uma boa teoria de capacidade de classe  impossvel
         compreender e explicar o processo pelo qual interesses objetivos
         de classe so transformados em aes e prticas de luta de classe.
         
         5. Prticas de classe
         
           Prticas de classe so atividades nas quais os membros de
         determinada classe se engajam, usando suas capacidades de
         classe, com a finalidade de concretizar ao menos alguns de seus
         interesses de classe. "Prtica", nesse sentido, implica que o
         objetivo  intencional, isto , tem um objetivo consciente. Prti-
         cas deYclasse", pois, implicam que o objetivo  a concretizao
         de interesses relacionados  classe. Prticas de classe incluem
         coisas corriqueiras, como pessoas se candidatando a vagas nas
         empresas e capitalistas empregando ou demitindo pessoalmente
         empregados, at acontecimentos histricos sumamente relevan-
         tes, como grandes paralisaes e at mesmo revolues.
         
         
         
         
         
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          6.  Lutas de classe
         
           Quando as prticas de classe so dirigidas contra os interes-
         ses de outras classes, essas prticas podem ser chamadas de
         "lutas de classe". Sendo que a natureza dos interesses  contrria
         por definio (pois uma parte s pode ter algo s custas de outra),
          simplesmente natural que essas prticas em geral se transfor-
         mem em luta, isto , a concretizao dos interesses de um grupo
         implica numa confrontao com outro grupo. Isso no significa
         que no so possveis acordos de classe. H ocasies em que uma
         negociao pode ser montada entre trabalhadores e capitalistas,
         em que cada pane se compromete a cumprir, dentro de determi-
         nados termos, o que cada uma v como vantajoso para si, ao
         menos no que se refere s alternativas possveis no momento.
         Acordos entre capital e trabalho so uma parte normal das
         negociaes numa sociedade capitalista. Tais acordos, contudo,
         no devem ser considerados como uma ausncia de luta, mas
         como um resultado particular da luta, uma maneira especfica em
         que os interesses de uma classe se concretizam s custas da outra.
         
           Deve-se chamar a ateno aqui para os processos lgicos que
         subjazem s relaes entre os elementos de classe. A luta de
         classe, nesse contexto,  uma conseqncia natural de sociedades
         baseadas, como de fato o so, em interesses antagnicos objeti-
         vos, gerados pelas estruturas de classe. Isso no tem nada a ver
         com dio, violncia, etc. com que muitos procuram ligar a luta
         de classes, com interesses, muitas vezes, ambguos e espdrios.
         As caractersticas psicolgicas dos atores (amor, dio, etc.) ou
         as caractersticas do tipo de confrontao (violenta, pacfica,
         negociada, dialgica, etc.) no podem simplesmente ser deduzi-
         das da lgica dos mecanismos presentes no processo de estrutu-
         rao de confrontaes de grupos com interesses antagnicos.
         
         7.   Conscincia de classe j
         
           Definida amplamente, conscincia de classe se refere aos
         aspectos da conscincia (isto , aos estados mentais acessveis
         discursivamente, analiticamente) que informam as intenes dos
         atores nas lutas de classe. Isso se refere principalmente  com-
         preenso que as pessoas tm de seus interesses de classe e das
         
         
         
         
                                                         45
         
         
         
         
         
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         prticas para concretiz-las. Quando se afirma que uma cons-
         cincia de classe  verdadeira, falsa, reformista, revolucionria,
         etc., esses julgamentos se referem ao contedo especfico desses
         estados mentais. E possvel, contudo, usar o conceito de cons-
         cincia de classe sem que necessariamente se incluam taisjulga-
         mentos.
         
           Voltaremos a discutir, com mais pormenores, a conscincia
         de classe ao tratarmos da ideologia (Terceira parte). Desde j,
         contudo, queremos deixar claro que a conscincia de classe no
         exaure o contedo da subjetividade. Afirma-se, algumas vezes,
         que os aspectos da subjetividade que no so passveis de serem
         atingidos discursivamente, so to importantes, para formar as
         prticas de classe, como a conscincia.  o caso, por exemplo,
         de Pierre EourdieuP que coloca esses aspectos no conscientes
         da subjetividade, que ele chama de "habitus" de classe, no centro
         de sua anlise de classe. "Habitus" de classe seriam aquelas
         disposies subjetivas que podem ser vistas como construdas a
         partir da posio de classe de uma pessoa, e que determinam
         diretamente os gostos pessoais, as preferncias ou rejeies, as
         sensibilidades, os hbitos, etc.
         
           Haumaligaolgicaentreosvriosconceitos?
           J podemos comear a perceber que, quando se explora o
         conceito de classe dentro de um referencial crtico e analtico,
         ele deixa de ser simples, para se tornar bem mais abrangente e
         relacionado.  preciso tambm lembrar que nenhuma das defi-
         nies de conceitos relacionados a classe, vistas acima, devem
         ser tomadas como fechadas, absolutas ou dogmticas. Dentro da
         prpria tradio histrico-crtica, por exemplo, h autores que
         negam a legitimidade do conceito de "interesses objetivos de
         classe", rejeitando, assim, a tentativa de definir estruturas de
         classe com respeito a interesses.
         
            Outros rejeitam a radicalidade da distino entre estrutura de
         classe e conscincia de classe, argumentando que as classes se
         estruturam apenas  medida que as pessoas vivenciam suas vidas
         em termos de classe. Essa  a posio defendida, por exemplo,
                                                         28
         por E. P. Thompson. Segundo ele, as pessoas definem sua
         classe  medida que. vivem sua prpria histria, e esta  a sua
         nica definio. Para ele, classe existe quando algumas pessoas,
         como resultado de experincias comuns, sentem e articulam a
         identidade de seus interesses como se fossem prprios, de uma
         parte. e contra outras pessoas cujos interesses so diferentes ou
         opostos aos delas, por outra pane. Ele, certamente, no aceitaria
         as distines objetivas entre estrutura, formao e conscincia
         de classe, como definidas acima.
           Apesar dessas divergncias, contudo, a lista de conceitos
         definidos acima pode ser vista como um campo conceitual onde
#
         





         se pode travar uma fecunda discusso com respeito s classes.
         Essa discusso pode ser melhor iluminada quando se traa um
         esquema das interconexes entre esses conceitos, como o faz
         Erik Wright.29
         E
                                                      Quadro 1
       Modelo de determinao ligando estrutura, formao,
                 conscincia e luta de classe
         
         
         
                                  46                                                 47
           Iimita~O
         
         
         
         /
         
         
         
         
         
           1imitaL~
           1
         
         
         
         
         
         o
         
         
         
         
         
         .0
         
         
         
         
         
         t,l
         
         
         
         
         
                                                         o
         
         
#
         





         
         
         
         L
         
         
         
         
         
            Vrios tipos de interconexes so especificados nesse qua-
         cito:
         a) Limitao - em que um elemento impe limites de possvel
         ~vriabilidade sobre o outro.
         bj Seleo - em que um elemento impe limites ainda mais
         bstreitos de variabilidade sobre outro elemento, dentro de um raio
         de limites mais amplos j estabelecidos.
         c)) Transformao - em que a prtica de atores sociais (pessoas
         ~5 organizaes) transforma determinado elemento, dentro de
         determinadas restries impostas pelos limites e selees.
            Esse quadro  riqussimo de informaesedeve serdiscutido
         pormenorizadamente, ponto por ponto.
             novamente oportuno acentuar a relatividade dos determi-
         nantes vistos acima: limite, seleo, transformao. Tratam-se
         aqui de tendncias, no de determinismos absolutos, fechados.
         Mas no so tambm simples afirmaes sem probabilidade
         nenhuma. Apesar de no se afirmar com absoluta certeza, indi-
         ca-se uma direo, uma constante. Cabe  pesquisa e  investi-
         gao emprica mostrarem o quanto de probabilidade e de
         determinao est presente em cada segmento do modelo. Ca-
         minhamos, pois, sempre dentro de uma linha de descoberta de
         tendncias, de probabilidades, nunca assumindo determinismos
         absolutos.
            Que possveis leis sociolgicas poderiam ser deduzidas des-
         se quadro?
            Quando falamos em "leis sociolgicas" entendemos aqui a
         construo de conceitos tericos, e um pouco mais, de relaes
         entre os vrios conceitos. Como acenamos acima, essas formu-
         laes tericas devem evitar dois plos opostos: de um lado o
         dogmatismo, que  o assumir uma teoria como se fosse absoluta
         e total, recusando-se a question-la. De outro lado, o ecletismo,
         que consiste em no se preocupar com uma coerncia terica:
         modificam-se conceitos, adotam-se outros, dentro de diferentes
         referncias tericas, sem se preocupar com uma compatibilidade
         ou integrao terica. O que  necessrio  uma mdia entre um
         compromisso terico que nos d um esquema de referncia, sem
         nos fecharmos, e sem impedirmos a transformao ou reconstru-
         o de uma teoria.
            Voltando  anlise do quadro podemos levantar vrias pro-
         posies sugeridas pelo modelo. Por exemplo:
         a) A estrutura de classe impe limites na formao, na conscin-
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         cia e na luta de classe. Essa afirmao no implica nem que esses
         quatro conceitos, dentro do quadro de referncia das classes,
         possam ser definidos independentemente um do outro, nem que
         eles tenham somente inter-relaes externas ou contingentes. Ela
         unicamente significa que as classes tm uma existncia (realida-
         de) estrutural que no se reduz nem aos tipos de organizaes
         coletivas que se desenvolvem historicamente (formao de clas-
         se), nem s ideologias que as pessoas ou organizaes possuem
         (conscincia de classe), nem s formas de conflito em que os
         membros de uma classe, ou organizaes de classe, se engajam
         (lutas de classe). Mas ela significa tambm que essas estruturas
         de classe impem restries bsicas nesses outros elementos que
         constituem uma classe. A estrutura de classe  vista como um
         determinante (relativo) bsico dos outros trs elementos, ao
         menos no sentido de colocar os limites da possvel variabilidade
         da formao, conscincia e luta de classe.
            Consideremos o problema de tentar explicar diferenas nas
         lutas de classe dentro de comunidades industriais diversas. Ima-
         ginemos uma comunidade consistindo de muitas firmas peque-
         nas, com propriedade distribuda, cada uma delas empregando
         poucos operrios, e outra comunidade composta de grandes
         corporaes, empregando centenas de milhares de operrios.
         Embora ambas as comunidades sejam "capitalistas", o tipo es-
         pecfico de estrutura de classe capitalista em cada uma delas
         importa diferentes limites nas possveis formas de organizao
         coletiva e de conscincia dos trabalhadores.
            Para se entender a razo disso, precisamos recorrer aos
         conceitos de interesse e de capacidade de classe vistos anterior-
         mente. O raciocnio  o seguinte: seja o que for que o conceito
         de interesse signifique, ele certamente incluir, na sua definio,
         o acesso aos recursos necessrios para se conseguir os vrios fins
         ou objetivos. As pessoas certamente possuem um "interesse
         objetivo" de aumentar sua capacidade de agir, por exemplo.
         
         
         
                            48                                                 49
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         Assim, o argumento de que a estrutura de classe impe limites
         bsicos na formao, conscincia e luta de classes,  fundamen-
         talmente o reconhecimento de que ele se constitui no mecanismo
         bsico de possibilidade de acesso aos recursos, dentro de uma
         sociedade; nesse sentido, ele possibilita a capacidade ou incapa-
         cidade de agir.
           Nessa perspectiva, conscincia de classe , acima de tudo, a
         rompreensao consciente desses mecanismos. Isso implica a
         compreenso, de um lado, pelas classes oprimidas, de que 
         necessrio transformar a estrutura de classes, se quisermos mu-
         danas bsicas nas capacidades de agir; e, de outro lado, a
         compreenso, pelas classes dominantes, de que a reproduo de
         seu poder hegemnico depende da reproduo da estrutura de
         classe existente.
         %Formao de classe, por outro lado,  o processo pelo qual as
         capacidades das pessoas (e grupos) so estruturadas de uma
         maneira organizada, com a finalidade de produzir uma capaci-
         dade coletiva de ao, uma capacidade que potencialmente po-
         der ser dirigida contra a prpria estrutura de classe. Sendo que
         a estrutura de classe define, coloca limites de acesso dessas
         pessoas  aquisio dos recursos bsicos e estratgicos que
         poderiam ser mobilizados coletivamente, ela automaticamente
         tambm coloca limites bsicos s possibilidades para a formao
         de tais capacidades organizadas coletivamente.
         
            Algumas ressalvas que devem ser mencionadas:
         a" A afirmao de que a estrutura de classe coloca limites 
         formao, conscincia e luta de classe no quer dizer que ela seja
         a nica realidade que as determina. Outros mecanismos, como
         raa, etnia, gnero, instituies legais, etc. operam dentro dos
         limites estabelecidos pela estrutura de classe. Pode at dar-se o
         caso que, em algumas circunstncias, os determinantes politica-
         mente mais importantes na formao de classe sejam precisa-
         mente esses vrios mecanismos no-de-classe, em lugar da
         estrutura de classe como tal. Mas  importante acentuar que
         mesmo esses mecanismos no-de-classe operam, tambm eles,
         dentro dos limites impostos pela estrutura de classe como tal.
         Assim, raa, etnia, gnero, etc. sofrem uma influncia, maior ou
         menor, da varivel classe.
         b) O modelo visto acima no nos apresenta uma explicao de
         como a estrutura de classe impe esses limites. Assim, por
         exemplo, no caso da conscincia de classe,  necessrio uma
         anlise dos processos psicolgicos, e principalmente psicosso-
         ciais, de como as pessoas chegam a compreender, ou no, a
#
         





         determinao social de suas capacidades e opes. Aqui se abre
         um campo importantssimo para a psicologia social e mesmo
         para a psicologia cognitiva, onde ambas podero fornecer ele-
         mentos preciosos de anlise e compreenso desses mecanismos.
            H um pressuposto que deve ser sempre lembrado: seja qual
         for a maneira como esses mecanismos psicossociais operam, os
         mecanismos sociais reais que agem na realidade externa (mundo
         objetivo), que configuram e constroem as capacidades objetivas
         disponveis s pessoas, iro sempre impor limites bsicos na
         maneira como essas pessoas iro ver essas capacidades. Assim,
         por exemplo, no caso da formao de classe: a compreenso
         plena dos efeitos da estrutura de classe ir necessitar de uma
         anlise da dinmica organizacional, pela qual as capacidades
         individuais para a ao, determinadas pela posio de classe,
         podem ser mobilizadas na direo de formas coletivas de prtica
         de classe. Esse ponto ser analisado com mais detalhes no
         captulo da formao de classe. De qualquer modo, o pressuposto
         bsico  que, seja qual for o processo, ele estar limitado pela
         forma de relao de classe, que distribui o acesso bsico aos
         recursos em questo.
            Voltando ainda ao modelo:  interessante ver que a luta de
         classe  responsvel pelo princpio transformador bsico. Tanto
         a conscincia como a formao e a estrutura de classe so
         passveis de transformao atravs da luta de classes, no processo
         de luta. No se pode falar aqui de um ponto fixo, de onde isso
         sempre acontea. A transformao  fruto de um processo ao qual
          difcil assinalar um comeo, meio ou fim. A prpria conscincia
         sofre um processo interminvel, pois  interminvel a compreen-
         so de um mecanismo social. O que se quer apenas afirmar aqui
          isto: tais transformaes so estruturalmente limitadas. A luta
         de classe  limitada pelas formas de organizao de classe
         (formao de classe), e ambas, por sua vez, so limitadas pela
         estrutura de classe existente.
         
         
         
                            50                                                 51
         
         
         
         
         
         
            A estrutura de classe, pode-se dizer, constitui a linha quali-
         tativa essencial de demarcao social na trajetria histrica de
         mudana social.  o determinante social fundamental dos limites
         de possibilidade para outros aspectos da estrutura social, como
         o estado, relaes de gnero, relaes tnicas, e mesmo das
         possibilidades de organizao e formao social, ou do cresci-
         mento da conscincia social: pessoas assoberbadas pelas preo-
#
         





         cupaes da vida material.
         
            Apesar da estrutura de classe ser um determinante central, /
         no se afirma, contudo, que ela define um nico caminho de /
         desenvolvimento ou mudana social; apenas se constitui na linha
         de demarcao na trajetria de mudana social. Tambm no sei
         pode afirmar que todas as outras relaes sociais so determin~5 \
         das de uma maneira nica e uniforme pelas relaes de classe.
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
                                                         52
                                          IV - Aplicaes da varivel classe
         
         
         
         
            O conceito de classe  extremamente rico. Muitas anlises
         podero ser feitas a partir dessa varivel. Neste captulo vamos
         primeiramente ampliar a compreenso dessa varivel. Analisa-
         remos, em seguida, os conceitos de algumas relaes inerentes 
         definio de classe, principalmente as relaes de explorao,
         opresso e dominao. Utilizaremos, depois, o conceito classe
         para a anlise de outras sociedades. Finalmente, tentaremos
         montar uma tipificao de classes.
#
         





            Classe, como  entendida aqui, apresenta uma certa vanta-
         gem: ela se torna uma varivel crtica, isto , capaz de distinguir
         e diferenciar vrios tipos de sociedade. Com essa varivel podem
         ser estudados o comunismo primitivo, o feudalismo, o capitalis-
         mo, o socialismo (sociedade em que a classe trabalhadora 
         dominante) e o comunismo (uma sociedade radicalmente igua-
         litria, sem classes). Quando o termo estrutura de classe  usado
         nessas explicaes, a abrangncia total dessa varivel est sem-
         pre presente, ao menos implicitamente.
            Voltando  metfora da sociedade como um jogo, apresen-
         tada no incio: a explicao dos efeitos de classe dentro de um
         determinado jogo est intimamente interligada com o problema
         dos efeitos da classe numjogo alternativo. Isso no acontece com
         outras teorias Veremos isso mais detalhadamente na discusso
         sobre o estado.
         
         
         
         
         
         
         
                                                         53
         
         
         
         
         
         1.   Ampliando a compreenso de classe
         
           A estrutura de classes designa mecanismos reais, processos
         cruciais que existem independentemente do terico. Classe no
          algo como uma conveno arbitrria, como acreditam os te-
         ricos. Falar em classe  falar da natureza desses mecanismos. E
         mecanismos so processos que geram determinados efeitos.
         Identificar um mecanismo  mostrar a maneira como ele produz
         determinado tipo de efeitos" E que tipos de efeito esses meca-
         nismos podem produzir? Vrios efeitos particularmente impor-
         tantes na anlise de classe:
         a) Interesses materiais - Classe  tida, algumas vezes, como uma
         resposta  pergunta: "Quem consegue o que e como?" As rela-
         es sociais de produo determinam um conjunto de mecanis-
         mos, atravs dos quais as pessoas tm acesso aos recursos
         materiais e ao produto social que  gerado por esses recursos.
         Veremos adiante que a explorao constitui o mecanismo central
         pelo qual esses mecanismos materiais so gerados, pela apropria-
         o da mais-valia econmica e na alocao dessa mais-valia, para
         diferentes propsitos. E. pois, possvel dizer-se que uma das
         caractersticas cruciais que todos os membros de uma determi-
         nada classe partilham e que justifica chama-los de "membros de
#
         





         uma mesma classe",  a uma relao igual para com os mecanis-
         mos de explorao dentro das relaes de produo.
         b) Experincia de vida - Alguns questionam a propriedade de se
         fundamentar o conceito de classe somente em interesses mate-
         riais. Interesse, argumentam eles, so causalmente eficazes
         quando materializados no entendimento subjetivo dos atores. Os
         tericos podem definir como interesses materiais de uma classe
         o que quiserem, mas as pessoas dessa classe iro agir de acordo
         com esses interesses, apenas  medida que eles se tornem prefe-
         rncias concretas, subjetivas. Os interesses materiais comuns
         tornam-se, pois, parte da causa comum da pertena a uma classe,
         somente se eles produzirem um conjunto de experincias siste-
         mticas que modelem ativamente a compreenso subjetiva.
            Nesses termos, a experincia vivencial social (comunitria)
         toma-se o contedo central, gerado do fato de se pertencer a uma
         mesma classe. Em vez de ver classe como uma resposta 
         pergunta "quem consegue o que e como?", ela  vista como
         resposta  pergunta: "quem faz o que e como?". As relaes
         sociais de produo, nesses termos, impem um conjunto de
         prticas sobre as pessoas, dentro dessas relaes. Essas prticas
         comuns geram, sistematicamente, experincias comuns, que por
         sua vez so a base para um conjunto comum de compreenses
         de mundo. Entre os trabalhadores, por exemplo, h experincias
         vitais crticas que constituem a situao de vida comum de sua
         classe: a experincia de serem dominados, mandados, na produ-
         o; a experincia da impotncia diante das foras sociais que
         determinam seu destino, por no poderem controlar a alocao
         da mais-valia social que produzem. Num paralelo  relao entre
         interesses materiais e explorao, esses aspectos da experincia
         vital estariam fortemente ligados ao conceito de alienao.
         c) Capacidade coletiva - Alm da situao de vida comum,
         construda a partir das experincias e interesses compartilhados,
         h um terceiro efeito de mecanismos de classe que alguns teri-
         cos consideram como central  anlise de classe: o efeito de
         classe exercido sobre a capacidade de luta coletiva. Nesses
         termos, uma das coisas que faz uma classe ser classe  sua
         capacidade potencial para a ao coletiva. Marx disse certa vez
         que os camponeses no eram "realmente" uma classe porque eles
         no tinham capacidade de se tornaruma classe-para-si, eles eram
         como um saco de batatas. Os operrios, em contrapartida, cons-
         tituam uma classe para Marx, em parte porque o capitalismo
         industrial os trouxe para organizaes do tipo de fbricas, que
         facilitou sua capacidade coletiva para a organizao.
            Todos esses trs efeitos de classe - interesses materiais,
         experincia de vida e capacidade para a luta - so certamente
         importantes. Contudo, colocaremos o primeiro desses trs como
         centro de nossa anlise, ao menos em nossa investigao do
         conceito de estrutura de classe. Por que temos de fazer isso?
            Primeiro, porque existe uma razo prtica: nossa compreen-
         so da ligao das relaes sociais de produo com a explorao
#
         





          muito mais desenvolvida do que nossa compreenso da ligao
         delas  experincia vivencial ou  capacidade coletiva.
            Em segundo lugar, porm, existe tambm uma razo terica.
         Os interesses materiais ligados  estrutura de classe so uma
         propriedade inerente das relaes de classe; elas so intrnsecas
         
         
         
                            54                                                   55
         
         
         
         
         
         
          existncia mesma das estruturas de classe. A natureza das
         experincias de vida e das capacidades coletivas ligadas a essas
         estruturas de classe, por outro lado, mostram-se muito mais
         mutveis, muito mais afetadas por uma multido de outros
         processos causais.
         
            Parece melhor, pois, fundamentar a anlise da estrutura de
         classe no problema dos interesses materiais e na explorao, sem,
         com isso, sugerir que ns considerarno~2os outros tipos de efeito
         de classe como de menor importncia.
         
         2.   Conceituando algumas relaes
         
            A discusso dos conceitos das relaes, que faremos a se-
         guir, vai trazer mais luz para a compreenso dos diferentes tipos
         de sociedade, de um lado, e para o aprofundamento das prticas
         e organizao de luta, por outro. Particularmente, tentaremos
         desvendar e desdobrar os conceitos de explorao, opresso e
         dominao. Apesar de, em geral, aparecerem relacionados, e
         serem utilizados como sinnimos por alguns, ns sustentaremos
         que os trs conceitos possuem conotaes e caractersticas dis-
         tintas, e se lhes dermos sentidos realmente distintos, isso nos
         ajudar a aguar nossa anlise.
         
         a) Explorao
            Como vimos em parte nas discusses anteriores, esse  um
         conceito-chave para a compreenso de classe. Como definimos
         no captulo III, explorao  uma situao em que os interesses
         materiais de uma pessoa so satisfeitos s custas dos interesses
         materiais de outra pessoa. Queremos agora refinar essa defini-
         o, adicionando-lhe um ingrediente a mais. Um explorador se
         beneficia no simplesmente s custas do explorado, mas devido
         ao esforo do explorado. Os exploradores usam a energia social
         e a atividade do explorado para reforar seu prprio bem-estar.
         
#
         





            Como no caso da definio anterior, esta definio de explo-
         rao  bastante geral e pode ser aplicada a outras reas da vida
         social alm da classe. Pode-se definir "explorao cultural", por
         exemplo, como uma situao em que um grupo culturalmente
         explorador usa as energias culturais de um grupo subordinado
         para enriquecer sua prpria cultura e roubar a cultura explorada.
         Seria esse o caso, por exemplo, quando padres culturais de
         pessoas autctones so apropriados por um poder colonial de tal
         modo que a soberania e a viabilidade cultural desse povo sejam
         enfraquecidas. Para os propsitos da anlise de classe, o ponto
         central novamente  a explorao material. Para que haja explo-
         rao  necessrio que a pessoa, ou o .grupo de pessoas que
         explora, se aproprie do produto do trabalho de outro individuo
         ou grupos. Esta definio de explorao,  importante notar, no
         depende da "teoria do valor do trabalho", um dos elementos
         tericos importantes no marxismo tradicional. No  possvel
         aqui entrar na discusso da teoria do valor do trabalho de Marx.
         A teoria do valor clssica afirmava que o trabalho era a nica
         maneira pela qual se poderia explicar o valor, os preos e o lucro.
         Poucos ainda sustentam esse ponto de vista, mesmo os marxistas.
         Isso no significa, contudo, que a mais-valia produzida pelo
         trabalho no seja apropriada pelos donos do capital; apenas
         sugere que a teoria do valor do trabalho  uma maneira insatis-
         fatria de representar essa apropriao.33 Cohen34 distingue
         duas teses:
         a)   O trabalho cria todas as mercadorias que possuem valor.
         b)   O valor de cada mercadoria  o trabalho necessrio para
         cri-la.
            Argumenta ele que a primeira dessas teses  correta, e
         fornece o fundamento para o conceito de explorao: h explo-
         rao porque os frutos do trabalho - as mercadorias produzidas
         pelo trabalho dos trabalhadores no capitalismo - so expropria-
         dos de seus produtores. A segunda tese, segundo ele,  falsa.
         Alm disso, no  fundamental para o conceito de explorao. O
         ponto aqui  este: enquanto  verdadeiro que o trabalho dos
         trabalhadores produz mercadorias que possuem valor, no h
         nenhuma razo para supor que a magnitude do valor dessas
         mercadorias  exclusivamente determinada pela magnitude do
         trabalho necessrio para produzi-las. Outros elementos podero
         entrar aqui.
         b)   Opresso
            A diferena bsica entre opresso e explorao  esta: na
         explorao, o explorador depende do esforo do explorado; se
         no fosse pelo trabalho, ou a cooperao do explorado, o expIo-
         
         
         
                            56                                                   57
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         rador no teria vantagens. No caso da simples opresso, a cola-
         borao do oprimido no  necessria.36 Opresso implica ainda
         que existe uma interconexo entre o bem-estar do opressor e o
         prejuzo feito ao oprimido, mas essa interconexo no exige que
         o opressor dependa do oprimido de uma maneira continuada.
            Um bom exemplo disso foi o que se deu no Brasil com
         relao aos ndios e aos negros. Para poder tomar conta do Brasil,
         os portugueses precisaram oprimir os ndios. Mas no os explo-
         raram. Alis, tentaram, mas os ndios no se prestavam muito a
         serem explorados. Trouxeram, pois, os escravos. Esses, sim,
         foram explorados, pois foi o seu trabalho que comeou a enri-
         quecer os colonizadores. O que aconteceu, ento, foi que os
         portugueses comearam a se livrar dos ndios, um verdadeiro
         genocdio. Alis,  ainda o que acontece no Brasil hoje:  preciso
         livrar-se dos ndios, no necessariamente explor-los. Quem 
         explorado  o trabalhador do campo e da cidade; o bia-fria, o
         peo, o assalariado da fbrica. Os ndios so, nesse sentido,
         oprimidos, mas no explorados; os trabalhadores so oprimidos
         e explorados. Existe, pois, uma profunda ironia dentro desses
         tipos de relao:  melhor ser explorado do que meramente
         oprimido, pois o explorador necessita do explorado; um grupo
         explorado, oprimido,  marginalizado, e o genocdio  muitas
         vezes uma estratgia consciente para lidar com os conflitos
         sociais gerados por tal opresso, como a histria da colonizao
         ocidental das Amricas nos mostra muito bem.
         c) Domina o-controte
            Dominao refere-se a um tipo particular de relao de poder
         entre indivduos e grupos.37 "Poder", de fato,  ele mesmo um
         conceito complexo e esteve sujeito a discusses tericas e filo-
         sficas interminveis. A idia subjacente, contudo, no  to
         difcil. Ter "poder"  ter a capacidade de realizar coisas, concre-
         tizar projetos prprios, satisfazer interesses pessoais. Em contex-
         tos sociais, tal "capacidade" implica, geralmente, em fazer com
         que outras pessoas executem tarefas que algum deseja que
         sejam feitas. Nesse sentido, poder passa a ser uma relao. Isto
         , o poder de um grupo, ou pessoa,  sempre definido em relao
         ao poder de outros.
            Com esta compreenso de poder podemos agora entender
         "dominao" como uma situao em que existem assimetrias
         sistemticas no poder entre indivduos e grupos. Se X possui
         mais poder sobre Y do que Y sobre X, ento ns podemos dizer
         que X domina Y. Em termos mais familiares, isto significa que
         X possui capacidade de mandar em Y, de dizer-lhe o que deve
         fazer. Note-se, porm, uma coisa: isso no significa que Y no
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         tempoder algum. Os capitalistas mandam nos trabalhadores, mas
         isso no significa que os trabalhadores no possuam poder. Os
         trabalhadores podem resistir de muitas maneiras diversas: eles
         podem forar os capitalistas a fazer vrias coisas que no fariam
         - como aumentar seus salrios - e exercer outras presses sobre
         eles. Mas ns ainda dizemos que os capitalistas dominam os
         trabalhadores devido  profunda assimetria nas relaes de poder
         entre eles. Dominao est estreitamente relacionada  explora-
         o e  opresso, mas no  idntica a elas. Sem dominao, a
         explorao e a opresso desmoronariam, pois no haveria ma-
         neira pela qual o explorador/opressor pudesse garantir sua posi-
         o de vantagem. Mas pode existir dominao sem explorao.
         ou mesmo sem opresso. Os pais dominam os filhos e os profes-
         sores dominam os alunos, embora eles no necessariamente os
         explorem, oprimam ou molestem de nenhum modo. Falando de
         modo geral, pois, a dominao adquire sua relevncia moral
         devido  sua estreita ligao a outros conceitos eticamente im-
         portantes (como opresso e explorao), e na anlise de classe
         esse conceito passa a ter poder explanatrio devido s maneiras
         como ele nos ajuda a compreender como sistemas sociais est-
         veis podem ser construdos atravs de intensas formas de opres-
         so e explorao.
         
         3.   Classe e tipos de sociedade
         
            Nesse nosso trabalho de familiarizao com novos concei-
         tos, uma espcie quase que de aprendizado de uma nova lingua-
         gem, algumas noes so ainda necessrias para podermos
         compreender melhor os vrios tipos de sociedade e os vrios
         tipos de classe. Nessa seco ns discutiremos o que significa
         diferenciar as sociedades na base de suas estruturas de classe.
         Existem, afinal, muitas maneiras diferentes de podermos dife-
         
         
         
         
                            58                                                   59
         
         
         
         
         
         
         renciaras sociedades: por suas religies, sua lngua, seus valores,
         seu clima e, certamente, por suas estruturas de classe. Mas como
         as estruturas de classe podem se distinguir uma da outra? Se no
         pudermos responder sistematicamente a essa pergunta, dificil-
         mente classe poder servir como uma maneira eficiente de
         distinguir os diferentes tipos de sociedade. Aqui est o pensa-
         mento bsico que ns iremos perseguir: como j discutimos
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         anteriormente, as estruturas de classe se definem de acordo com
         o processo de explorao material de um grupo de pessoas por
         outro. Diferentes tipos de estruturas de classe, pois, esto basea-
         dos em diferentes tipos de explorao material. Mas tudo isso
         apenas coloca o problema um passo atrs: como se distinguem
         os diversos tipos de explorao. Nossa resposta  que diferentes
         tipos de explorao esto baseados na posse e controle, pelos
         exploradores, dos diferentes tipos de recursos produtivos. Pos-
         suir e controlar esses recursos - ou "assets" como os economistas
         gostam de cham-los - d aos exploradores a possibilidade de se
         apropriar da mais-valia dos produtores. Nossa primeira tarefa,
         pois,  desenvolver uma listagem dos diversos tipos importantes
         de recursos que constituem a base para diferentes exploraes e,
         conseqentemente, para diferentes relaes de classe.
         
            Em toda sociedade existem diversos recursos produtivos que
         podem ser base para a explorao. Ns discutiremos quatro
         deles: fora de trabalho, capital, organizao e qualificaes
         (habilitaes). Algumas dessas categorias poderiam, para dife-
         rentes propsitos, ser subdivididas em muitas outras categorias
         adicionais. Por exemplo: "capital" poderia serdividido em coisas
         como terra, mquinas, dinheiro, matria-prima, etc. Poderiam,
         tambm, ser acrescentados outros tipos gerais de recursos a esta
         lista. Por exemplo, algumas pessoas pensam que no mundo
         moderno a "informao" (como algo oposto s simples qualifi-
         caes ou habilitaes)  um recurso produtivo crucial. Nossa
         listagem de quatro recursos produtivos bsicos , pois, de nen-
         hum modo exaustiva. Esses quatro recursos so, contudo, as
         categorias gerais mais importantes para compreendermos as
         variaes histricas nas estruturas de classe, e por isso ns vamos
         nos referir a elas no restante dessa discusso.
         
         
         
         
         
                                                         60
                  a)    Fora de trabalho
                     A fora de trabalho  o recurso produtivo baseado na capa-
                  cidade pessoal que cada um tem de fazer algo. Nas sociedades
                  capitalistas, cada pessoa possui uma unidade desse recurso: ela
                  mesma. No feudalismo, porm, esse recurso  distribudo desi-
                  gualmente, pois os senhores possuem mais de uma unidade: eles
                  possuem a eles mesmos e parte do trabalho (pessoa) dos servos.
                  E isso que significa "lao pessoal", escravido da pessoa: os
                  senhores feudais possuem parte da "pessoa" do servo. Isso fica
                  claro ao se analisar o sistema de corvia, o "cambo": se o
                  trabalhador fugisse do campo e abandonasse a terra, era tido
                  como ladro, pois estava roubando parte do trabalho do patro.
                  O que acontece hoje em algumas partes do Brasil, em que as
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                  pessoas so obrigadas e foradas a residir num determinado local
                  e trabalhar para um patro, com vigilncia da polcia,  um
                  resqucio de feudalismo.
         
                  b)    Os meios de produo
                     Esse recurso  constitudo pelos bens materiais que servem
                  para se conseguir a produo de outros bens, atravs da fora de
                  trabalho: as terras, as fbricas, os instrumentos de trabalho, a
                  tecnologia. E esse o recurso crucial que, no capitalismo,  desi-
                  gualmente distribudo. Se no existisse a possibilidade de alguns
                  se apropriarem pessoalmente desses recursos, seria impossvel a
                  existncia do capitalismo. Pode-se ver aqui como a explorao
                  da fora de trabalho est intimamente ligada ao fato de os meios
                  de produo estarem nas mos de apenas alguns.
         
                     O capitalismo , em si, um passo  frente do feudalismo, pois
                  assegura certa "liberdade" (muitas vezes aparente), de o trabal-
                  hador poder, ou no, vender sua fora de trabalho, ou vend-la
                                                         38
                  para um ou para outro. O capitalismo  pois, nesse sentido,
                  radicalmente igualitrio com respeito a um dos quatro recursos,
                  a fora de trabalho, embora ele permanea profundamente desi-
                  gual com respeito aos outros.
         
                  c)    Organizao (burocracia)
                     A revoluo anticapitalista da Rssia praticamente eliminou
                  a propriedade privada dos meios de produo. Mas outras formas
                  de explorao surgiram a partir da. Roemer39 introduziu, para
                  explicar esse fenmeno, o conceito de "explorao de status".
         
         
         
                                                         61
         
         
         1
         '1
         
         
         
         
         
         
         Ele mostra que na Rssia a explorao estava baseada no status
         que as pessoas possuam na estrutura burocrtica do partido e do
         estado. Status, contudo,  um conceito bastante vago, e de
         qualquer modo no se coaduna com a idia de que a explorao
         est baseada no controle sobre as condies materiais de produ-
         o. Uma alternativa seria considerar a explorao, nas econo-
         mias ps-capitalistas comandadas pelo estado, c8mo baseadas
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         no controle sobre os "recursos organizacionais".4 Tanto Adam
         Smith como Marx mostraram que a diviso tcnica do trabalho
         entre os trabalhadores era uma fonte de produtividade diversa da
         fora de trabalho, dos meios de produo ou das habilitaes-
         qualificaes profissionais do produtor (que veremos em segui-
         da). Organizao se refere, pois, s condies de cooperao
         coordenada entre produtores, numa diviso de trabalho comple-
         xa. No capitalismo atual, por exemplo, essa organizao  con-
         trolada pelos gerentes e capitalistas: os gerentes controlam os
         recursos de organizao dentro das fbricas (indstrias) particu-
         lares, debaixo,  claro, de limites impostos pelos proprietios
         dos meios de produo. Nas sociedades "estatistas", o recurso
                                41
         produtivo  de grande importncia. O controle da diviso
         tcnica do trabalho, isto , a coordenao das atividades produ-
         tivas dentro e atravs dos processos de trabalho, se torna uma
         atividade organizativa fundamental, que se estende para os r-
         gos centrais de planejamento dentro do estado. Quando se fala
         que a dominao, em tais sociedades,  baseada no poder buro-
         crtico, o que se quer dizer  isto: o controle sobre os recursos
         organizacionais define a base material para as relaes de classe.
            Essa noo de recursos organizacionais est bastante ligada
          noo de autoridade e hierarquia. Quando esses recursos so
         distribudos desigualmente, fazendo com que alguns cargos te-
         nham controle efetivo e quase total sobre outros, ento essa
         relao toma a forma de uma autoridade hierrquica. Mas o
         recurso no  a autoridade. E a organizao que se torna o
         recurso, controlado atravs de uma hierarquia de autoridade.
         Uma verdadeira igualdade implicaria em que todos os trabalha-
         dores participassem igualmente do controle sobre os recursos de
         organizao, o que implicaria na democratizao dos aparelhos
         burocrticos. Isso certamente no precisa significar que todas as
         decises de qualquer conseqncia tenham de ser feitas e toma-
         das em assemblias democrticas. Implica, contudo, que se a
         explorao organizacional deve ser eliminada, ento ao menos
         os parmetros bsicos de planejamento e coordenao da produ-
         o sejam feitos atravs de mecanismos democrticos e que a
         posse de um cargo delegado de responsabilidade organizacional
         no d, por si mesma, o direito de se apropriar de um poder social.
         Deveriam existir mecanismos precisos e eficientes que retiras-
         sem rapidamente o poder de quem avanasse alm do puro
         servio  sociedade. O que aconteceu no Leste Europeu e o que
         acontece em muitas sociedades onde o estado se torna todo-po-
         deroso so exemplos claros de explorao e dominao organi-
         zacional. Os4~ue controlam a burocracia passam a controlar toda
         a sociedade.
         d)   Qualificaes-habilitaes
            H situaes em que a dominao pode ter como base as
         qualificaes profissionais e as habilitaes. Isso acontece prin-
         cipalmente quando as pessoas possuem qualidades "especiais",
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         intelectual e habilidades tanto naturais como adquiridas. Os
         "perito?' e os "tcnicos" tornam-se detentores do poder, enquan-
         to os trabalhadores, sem qualifica~yrofissional, servem de
         objeto de explorao e de dominaao.
            A democratizao dos recursos organizacionais, vistos aci-
         ma, no elimina por si s a dominao e a explorao baseadas
         nas qualificaes. Essa  uma caracterstica central do que se
         poderia chamar de "socialismo democrtico" (para distingui-lo
         do estatismo autoritrio), uma sociedade no-capitalista, baseada
         numa tecnocracia no-burocrtica, com controle democrtico
         sobre os meios de produo. Os especialistas controlam suas
         prprias qualificaes e conhecimentos dentro da produo, e
         devido a isso esto numa posio de explorao e dominao ao
         menos limitada. Mas eles no controlam os aparatos gerais de
         produo, e por isso sua dominao sobre a sociedade ser
         fortemente atenuada.
            Este poder de dominao cresceria enormemente se esses
         tcnicos e especialistas controlassem tambm o aparelho buro-
         crtico das organizaes produtivas, como nas sociedades esta-
         tistas. Mas se houvesse uma democratizao dos recursos
         organizacionais, ento esse tipo de dominao burocrtica inten-
         
         
         
                            62                                                 63
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         siva seria grandemente impossibilitada. Numa situao como
         essa, pode-se at mesmo sustentar que no seria mais adequado
         falar de uma "dominao" real, pois as assimetrias de poder
         estariam extremamente atenuadas. Mas a explorao ainda con-
         tinuaria desde que os especialistas fossem capazes de se apro-
         priar, para proveito prprio, de parte da mais-valia social em
         virtude de possurem qualificaes especializadas, e isso criaria
         conflitos concretos de interesse material entre tais especialistas
         e os trabalhadores em geral.
            Essa relao social  uma base de explorao e dominao
         muito mais fraca do que os outros trs tipos de relaes. Onde,
         pois, o fundamento da explorao e da dominao so apenas as
         qualificaes (socialismo), a diviso de classes se torna tnue,
         comparada aos outros casos que examinamos, onde o fundamen-
         to so as desigualdades na propriedade da fora de trabalho
         (feudalismo), nos meios de produo (capitalismo), e na organi-
         zao burocrtica (estatismo).
            Podemos agora traarum quadro que nos ajudar a visualizar
         os vrios tipos de sociedade, os principais recursos desigualmen-
         te distribudos, os mecanismos de dominao/explorao empre-
         gados e os tipos de classe que da derivam.
         
         
                                                      Quadro 2
          Tipo de sociedade, recursos, tipo de explorao e classes44
         
    Tipo de sociedade   Recurso principal Mecanismos de Classes
                   distribudo explorao,
                   desigualmente
         Feudalismo
Fora de trabalho Extrao forada Senhores/servos
                             da mais-vaha
         Capitalismo    Meios de Extrao da     Capitalistas?
               produomais-valiatrabalhadores
         EstatismoOrganizao         Apropriao da  Burocratas
              burocrtica   mais-valia atravs   gerentes e
                            da hierarquia   no-gerentes
         Socialismo         Habilitaes-   Redistribuiao
             qualificaes  negociada da    Peritos e
                            mais-valia trabalhadores
            Essa tipologia de formas de sociedade baseadas em suas
         estruturas de classe procura capturar as possibilidades histricas
         reais. Implcito nessa tipologia, contudo, est algo que vai alm
         dos fatos histricos e aponta para uma aspirao moral, uma
         imagem utpica do que poderia ser uma sociedade ideal. O
#
         





         feudalismo  uma sociedade em que a distribuio desigual da
         fora de trabalho  a base primria de explorao, mas as outras
         trs bases esto tambm presentes, numa medida maior ou me-
         nor. No capitalismo, a explorao feudal praticamente desapare-
         ceu, mas a explorao organizacional e de qualificaes coexiste
         junto com a explorao capitalista. Nas sociedades estatistas, a
         explorao capitalista foi grandemente eliminada, mas a explo-
         rao organizacional se prolonga juntamente com a explorao
         das qualificaes. Nesses termos, o socialismo  uma sociedade
         em que somente esta forma final de explorao permanece como
         caracterstica concreta de desigualdade social.
            O socialismo, visto dessa maneira, incorpora j grandes
         aspiraes morais na direo do igualitarismo. Mas existe ainda
         uma outra possibilidade: uma sociedade totalmente sem classes,
         uma sociedade radicalmente igualitria, em que a explorao
         radicada na posse desigual e no controle dos recursos produtivos
         tenha desaparecido. Tal sociedade tem um nome particular:
         "comunismo". Muitas pessoas usam a expresso "comunismo"
         para designar o que ns chamamos de estatismo; outros chamam
         o estatismo de "socialismo". Falando teoricamente, contudo, o
         comunismo deve ser compreendido como uma sociedade com-
         pletamente sem classes, uma sociedade onde mesmo a explora-
         o e a dominao baseada nas qualificaes/habilitaes
         tenham desaparecido, junto com a explorao baseada na posse
         desigual da fora de trabalho das pessoas (feudalismo), dos
         meios de produo (capitalismo) e da organizao burocrtica
         (estatismo). Comunismo, em poucas palavras, seria uma socie-
         dade radicalmente igualitria com respeito  posse e controle dos
         recursos produtivos da sociedade e da mais-valia produzida com
         o uso desses recursos. Isso no quer dizer que todas as pessoas
         fariam a mesma coisa. Cada uma continuaria fazendo o que
         desejasse, conforme suas qualificaes e talentos. Mas tais dife-
         renas nas qualificaes, talentos e papis possibilitariam s
         pessoas ganhar mais que outras, apropriar-se de parte da mais-
         
         
         
                            64                                                65
         
         
         
         
         
         valia socialmente produzida e certamente no ter poder social e
         privilgios maiores do que os outros. Tambm no significaria
         que todos devessem ser uniformes: cada um permaneceria com
         suas diferenas, originalidades, subjetividades. Mas essas dife-
         renas no chegariam a interferir na dignidade humana funda-
         mental, que  a mesma para todos. O dito: "a cada um conforme
         suas necessidades, de cada um conforme suas capacidades",
#
         





         parece expressar o que seria, idealmente, uma sociedade comu-
         nista, igualitria, que, se no poderia existir como tal historica-
         mente, poderia ser imaginada e desejada como ideal, contra a
         qual poderiam criticar nossas sociedades presentes.
         
         4.   Identificando melhor as diversas classes
         
            J mencionamos anteriormente que todo fenmeno social
         pode ser analisado em diferentes nveis de abstrao. A anlise
         anterior, que tentou caracterizar as estruturas de classe em rela-
         o aos vrios recursos produtivos e formas de explorao co-
         rrespondentes,  um exemplo de uma anlise feita num nvel de
         abstrao bastante elevado, o nvel de abstrao do "modo de
         produo". Esse nvel de abstrao era necessrio para que
         compreendssemos a grande variabilidade das estruturas de clas-
         se atravs do desenrolar da histria e, talvez, em direo ao
         futuro. Mas os conceitos que analisamos nos sero teis para
         compreender mais concretamente os problemas? Nos ajudaro a
         compreender, de uma maneira mais refinada, a natureza das
         estruturas de classe dentro do prprio capitalismo? Pensamos
         que sim.
            Esses conceitos vo nos ajudar a construir um quadro bem
         mais complexo, e certamente mais rico, das vrias e possveis
         posies de classe existentes numa formao social que pode
         conter caractersticas de vrios modos de produo distintos.
         Muita gente se sente mal e insatisfeita quando se deixa um nvel
         de abstrao superior, onde as distines so puras e claras, e se
         baixa para uma situao mais confusa e nevoenta de uma estru-
         tura concreta. Mas essa  a obrigao e o risco dos que querem
         entender melhor a sociedade. Mesmo a, porm,  possvel
         localizar e visualizar grupos especficos, que dentro dos critrios
         acima mencionados poderiam ser chamados de classes. Tendo
         em mente, contudo, que sempre tratamos aqui de conceitos, e
         conseqUentemente de teorias, relativos, que enunciam situaes
         e leis provveis, tendenciais, nunca absolutas e deterministas.
            Quem arriscou, e ainda est densamente envolto nesse tra-
         balho,  Erik Wright, que a partir da reflexo, teorizao, e
         principalmente atravs de uma imensa investigao emprica.
         tentou especificar melhor a estrutura de classes dentro das socie-
         dades capitalistas contemporneas.45
            Como podemos, pois, trazer esses conceitos abstratos para
         um nvel de anlise mais concreto? A estratgia que propomos
         comea pela observao de que as sociedades concretas sempre
         contm uma variedade de formas diferentes de explorao ma-
         terial. Nunca existiu uma sociedade capitalista "pura", em que a
         explorao capitalista fosse a nica forma de explorao. A
         explorao capitalista sempre coexiste, de diversos modos, com
         as outras formas de explorao que ns discutimos, especial-
         mente a explorao organizacional e a explorao das qualifica-
         es. Desde que se reconhea a coexistncia de diferentes formas
#
         





         de explorao, uma nova possibilidade se abre para a descrio
         das estruturas de classe das sociedades concretas: em vez de
         continuar insistindo que cada posio, numa sociedade capitalis-
         ta, deve ser ou a classe capitalista ou a classe operria, ns
         podemos agora definir determinadas posies como sendo ex-
         ploradoras dentro de uma das dimenses da explorao, mas
         exploradas, de acordo com outras. Determinada pessoa, por
         exemplo, pode ser exploradora no que se refere  qualificao, e
         ser ao mesmo tempo explorada capitalisticamente falando. Essa
         seria a situao concreta de muitos tcnicos e profissionais, por
         exemplo. Gerentes, por outro lado, podem ser tomados como
         exploradores no que se refere  organizao (ao menos no caso
         em que eles no sejam tambm donos dos meios de produo),
         e assim mesmo capitalisticamente explorados. A esses tipos de
         posies de classe, que so simultaneamente exploradores e
         explorados, chamaremos de "posies contraditrias dentro das
         relaes de classe". Uma estrutura de classe, pois, consiste de
         um conjunto de posies de classe e de posies contraditrias
         dentro das relaes de classe.
         
         
         
                            66                                                67



         valia socialmente produzida e certamente no ter poder social e
         privilgios maiores do que os outros. Tambm no significaria
         que todos devessem ser uniformes: cada um permaneceria com
         suas diferenas, originalidades, subjetividades. Mas essas dife-
         renas no chegariam a interferir na dignidade humana funda-
         mental, que  a mesma para todos. O dito: "a cada um conforme
         suas necessidades, de cada um conforme suas capacidades",
         parece expressar o que seria, idealmnte, uma sociedade comu-
         nista, igualitria, que, se no poderia existir como tal historica-
         mente, poderia ser imaginada e desejada como ideal, contra a
         qual poderiam criticar nossas sociedades presentes.
         
         4. Identificando melhor as diversas classes
         
            J mencionamos anteriormente que todo fenmeno social
         pode ser analisado em diferentes nveis de abstrao. A anlise
         anterior, que tentou caracterizar as estruturas de classe em rela-
         o aos vrios recursos produtivos e formas de explorao co-
         rrespondentes,  um exemplo de uma anlise feita num nvel de
         abstrao bastante elevado, o nvel de abstrao do "modo de
         produo". Esse nvel de abstrao era necessrio para que
         compreendssemos a grande variabilidade das estruturas de clas-
         se atravs do desenrolar da histria e, talvez, em direo ao
         futuro. Mas os conceitos que analisamos nos sero teis para
         compreender mais concretamente os problemas? Nos ajudaro a
         compreender, de uma maneira mais refinada, a natureza das
         estruturas de classe dentro do prprio capitalismo? Pensamos
         que sim.
            Esses conceitos vo nos ajudar a construir um quadro bem
         mais complexo, e certamente mais rico, das vrias e possveis
         posies de classe existentes numa formao social que pode
         conter caractersticas de vrios modos de produo distintos.
         Muita gente se sente mal e insatisfeita quando se deixa um nvel
         de abstrao superior, onde as distines so puras e claras, e se
         baixa para uma situao mais confusa e nevoenta de uma estru-
         tura concreta. Mas essa  a obrigao e o risco dos que querem
         entender melhor a sociedade. Mesmo a, porm,  possvel
         localizar e visualizar grupos especficos, que dentro dos critrios
         acima mencionados poderiam ser chamados de classes. Tendo
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         em mente, contudo, que sempre tratamos aqui de conceitos, e
         conseqUentemente de teorias, relativos, que enunciam situaes
         e leis provveis, tendenciais, nunca absolutas e deterministas.
         
       Quem arriscou, e ainda est densamente envolto nesse tra-
                              balho,  Erik Wright, que a partir da reflexo, teorizao, e
                              principalmente atravs de uma imensa investigao emprica,
                              tentou especificar melhor a estrutura de classes dentro das socie-
                              45
         dades capitalistas contemporaneas.
         
            Como podemos, pois, trazer esses conceitos abstratos para
         um nvel de anlise mais concreto? A estratgia que propomos
         comea pela observao de que as sociedades concretas sempre
         contm uma variedade de formas diferentes de explorao ma-
         terial. Nunca existiu uma sociedade capitalista "pura", em que a
         explorao capitalista fosse a nica forma de explorao. A
         explorao capitalista sempre coexiste, de diversos modos, com
         as outras formas de explorao que ns discutimos, especial-
         mente a explorao organizacional e a explorao das qualifica-
         es. Desde que se reconhea a coexistncia de diferentes formas
         de explorao, uma nova possibilidade se abre para a descriao
         das estruturas de classe das sociedades concretas: em vez de
         continuar insistindo que cada posio, numa sociedade capitalis-
         ta, deve ser ou a classe capitalista ou a classe operria, ns
         podemos agora definir determinadas posies como sendo ex-
         ploradoras dentro de uma das dimenses da explorao, mas
         exploradas, de acordo com outras. Determinada pessoa, por
         exemplo, pode ser exploradora no que se refere  qualificao, e
         ser ao mesmo tempo explorada capitalisticamente falando. Essa
         seria a situao concreta de muitos tcnicos e profissionais, por
         exemplo. Gerentes, por outro lado, podem ser tomados como
         exploradores no que se refere  organizao (ao menos no caso
         em que eles no sejam tambm donos dos meios de produo),
         e assim mesmo capitalisticamente explorados. A esses tipos de
         posies de classe, que so simultaneamente exploradores e
         explorados, chamaremos de "posies contraditrias dentro das
         relaes de classe". Uma estrutura de classe, pois, consiste de
         um conjunto de posies de classe e de posies contraditrias
         dentro das relaes de classe.
         
         
         
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            Na linguagem comum, existe uma categoria de classe que
         ns ainda no usamos: a "classe mdia". Para a maioria das
         pessoas, essa  uma noo bastante vaga, combinando elementos
         de estilo de vida, padres materiais de vida e condies especiais
         de emprego. A "classe mdia" seria algo como um lugar, na
         estrutura de classe, que no fosse nem pane da classe dominante
         (ou exploradora) nem pane da classe subordinada; nem capita-
         listas, nem simples trabalhadores. Dentro do referencial que ns
         estamos apresentando, a classe mdia no  apenas a descrio
         dessas posies que no se ajustam adequadamente na dicotomia
         capitalista/trabalhador. A classe mdia  precisamente o conjuii-
         to de posies contraditrias dentro das relaes de classe de uma
         sociedade. Existem posies, portanto, que so privilegiadas
         devido a seu controle sobre os recursos produtivos, que os
         possibilitam a se apropriar de parte da mais-valia social (e serem,
         portanto, considerados como exploradores), e serem, contudo,
         prejudicados sob outros aspectos devido  sua excluso do
         controle sobre os recursos produtivos.
         
            Com esse referencial em mente,  possvel montar um tipo
         de mapa da estrutura de classe das sociedades capitalistas. Devi-
         do  simplicidade, vamos nos restringir aos trs recursos produ-
         tivos principais, que formam a base para a explorao no
         capitalismo: meios de    organizaao e qualificaes/ha-
         bilitaes. VatOS, ento, distinguir trs categorias de pessoai -
         ~qin respeito a cada um desses recursos:
         12)pessoas que no possuem e no controlam nenhum dos recur-

         2"pessoas que no possuem ou controlam parte do recurso, o
         ~suficiente para que no sejam exploradas nem possam explorar,
         c,~m referncia a esse recurso;
         3);pessoas que possuem e controlam uma quantidade suficiente
         tlsse recurso, de tal modo que possam tomar-se exploradoras.
            Para os meios de produo, por exemplo, os capitalistas se
         colocam na categoria 3, apequena burguesia (pessoas autnomas
         que no possuem empregados) na categoria 2, e os trabalhadores
         na categoria 1. Colocando junfas essas trs dimenses temos,
         pois, a seguinte tipologia de classe:
         
         
         
         
         
                                                         68
           Propriedade dos Meios de Produo
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         Possuem  No Possuem
         Possui o
         suficiente
         para
         empregar
         outros
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         Capita-
         listas
         Possui o No possu nhenhum meio de
         suficiente produo, ou ao menos insufi-
         para ser cientes para ser capaz de evitar
         autnomo ter de trabalhar para os outros
         Pequena
         burguesia
         Peritos/ Gerentes Gerentes
         gerentes semiqua- sem
            lificados qualifi-
                    cao
         
         
         
       Peritos Supervi- Supervi
               supervi- sores sores no
               sores semiqua- qualifi-
               lificados cados
         
         
         
    Traba- Traba- Traba-
                    lhadores lhadores !hadores
                    qualifi- semiqua- sem
                    cados lifcados qualifi-
                    cao
         Explora-   Possui   Trabalho~
         dor com    alguma   nao
         respeito   qualifi- qualifi-
         aorecur-   cao    cado
         soda
         qualifi-
         caa 2
         r
#
         





         Explora
         dor de
         recursos
         organiza-
         cionais
         
         
         Controla
         parte dos
         recursos
         organi-
         zacionais
         Controle
         sobre os
         Recursos
         Organiza-
         cionais
         
         Explo-
         rado com
         respeito
         ao recur-
         so organi-
         zacional
       Propriedade dos Recursos de
             Qualificao
         Dois alertas para terminar
         
         a) Muitos, ao lerem e seguirem essa discusso, podem ter tido a
         impresso que tenha sido sugerida uma espcie de seqncia
         entre esses tipos de sociedade: feudalismo - capitalismo - esta-
         tismo - socialismo - comunismo, e que isso seja um processo
         inevitvel. Deve-se dizer, porm, que no h nada que garanta
         
         
         
                                                         69
         
         
         
         
         
         
         que os burocratas e tcnicos sejam os possveis sucessores dos
         capitalistas (como alguns chegaram a argumentar). O que se quer
         sugerir, apenas,  que o processo de estruturao de classes, com
         os conseqentes processos de formao, aliana e luta de classes,
         so bem mais complexos e indeterminados do que muitos estu-
         diosos, pouco prevenidos, do a entender. Mais uma vez alerta-
         mos que falamos aqui de probabilidades, tendncias,
#
         





         possibilidades, e que s a comprovao emprica e a anlise
         desses processos podem dar uma palavra mais segura e funda-
         mentada.
         b)~Nossa anlise acentuou as vrias formas de dominao enrai-
         ~Yadas na propriedade. no controle, e na conseqente explorao,
         no campo das foras produtivas. Mas podem existir ainda muitos
         outros mecanismos alm do controle sobre os recursos produti-
         vos dentro das relaes de produo, atravs dos quais indiv-
         duos, ou grupos, podem se apropriar da "mais-valia social",
         ficando para cada circunstncia concreta a anlise de como isso
         se relaciona com as relaes de produo. Assim, por exemplo:
         - algumas igrejas, usando seu controle sobre os "meios de
         salvao", podem passar a dominar (e explorar) seus fiis de
         diferentes maneiras;
         - os exrcitos, as instituies militares (caracterstica especial-
         mente saliente na Amrica Latina), usando seu controle sobre a
         fora e violncia, podem passar a explorar (e dominar) naes
         inteiras;
         - homens (ou mulheres), usando seu poder baseado no gnero,
         podem passar a explorar sua parceira de diversas maneiras
         (trabalho domstico, etc.);
         - brancos, pretos (e outros tipos raciais), usando seu poder
         baseado na raa (ou etnia) podem passar a dominar (e explorar)
         seus companheiros de outras raas (etnias).
            Fica a critrio de cada um ver como esses tipos de domina-
         o-explorao se relacionam com as foras e relaes de pro-
         duo. Mesmo sem conceder ao desenvolvimento das foras
         produtivas papel determinante na histria (Teoria da histria),
         elas possuem, contudo, uma significncia estratgica particular-
         mente importante na compreenso das sociedades.
         
         
         
         
         
                                                         'o
                                          V - Construindo a solidariedade
         
         
         
         
            O que vimos at agora, nos trs captulos anteriores, foram
         discusses sobre o que se passa entre classes. Agoradiscutiremos
         o que se passa dentro de uma determinada classe. Passamos da
         anlise da estrutura de classes para o problema da formao de
         classes, que  o processo pelo qual as pessoas que ocupam
         lugares objetivamente determinados numa estrutura de classe
         especfica se constituem em organizaes de ao e luta coletiva.
         Trataremos principalmente de dois pontos inter-relacionados:
         a)O problema de como se constri a solidariedade entre os
#
         





         trabalhadores, isto . o processo pelo qual se resolvem problemas
         de individualismo, "caronas", competio, subjetivismos. etc.
         dentro da classe trabalhadora,  matria deste captulo.
         b) As contradies que se geram no processo de formao de
         classe, particularmente com respeito ao problema que podera-
         mos chamar de "compromisso de classe" - situaes em que
         classes antagnicas possuem realmente certo grau de equilbrio,
         em que ambas as classes se beneficiam pelo fato de suavizar,
         amainar, em vez de intensificar as lutas de classe. Veremos isso
         no captulo VI.
             natural, pois, que enfrentemos aqui discusses num nvel
         mais micro-social, ou, se quisermos, numa dimenso mais psi-
         cossocial. Dentre tudo o que poderia ser importante na explana-
         o das lutas e formao de classe, ns privilegiaremos os
         motivos por que pessoas particulares decidem agir coletivamen-
         te. Afinal, dentro da histria humana existem tantas circunstn-
         cias em que as pessoas so oprimidas, suportam situaes de
         
         
         
         
                                                         71
         
         
         
         
         
         
         que os burocratas e tcnicos sejam os possveis sucessores dos
         capitalistas (como alguns chegaram a argumentar). O que se quer
         sugerir, apenas,  que o processo de estruturao de classes, com
         os conseqentes processos de formao, aliana e luta de classes,
         so bem mais complexos e indeterminados do que muitos estu-
         diosos, pouco prevenidos, do a entender. Mais uma vez alerta-
         mos que falamos aqui de probabilidades, tendncias,
         possibilidades, e que s a comprovao emprica e a anlise
         desses processos podem dar uma palavra mais segura e funda-
         mentada.
         5)Nossa anlise acentuou as vrias formas de dominao enrai-
         iadas na propriedade, no controle, e na conseqente explorao,
         no campo das foras produtivas. Mas podem existir ainda muitos
         outros mecanismos alm do controle sobre os recursos produti-
         vos dentro das relaes de produo, atravs dos quais indiv-
         duos, ou grupos, podem se apropriar da "mais-valia social",
         ficando para cada circunstncia concreta a anlise de como isso
         se relaciona com as relaes de produo. Assim, por exemplo:
         - algumas igrejas, usando seu controle sobre os "meios de
         salvao", podem passar a dominar (e explorar) seus fiis de
         diferentes maneiras;
         - os exrcitos, as instituies militares (caracterstica especial-
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         mente saliente na Amrica Latina), usando seu controle sobre a
         fora e violncia, podem passar a explorar (e dominar) naes
         inteiras;
         - homens (ou mulheres), usando seu poder baseado no gnero,
         podem passar a explorar sua parceira de diversas maneiras
         (trabalho domstico, etc.);
         - brancos, pretos (e outros tipos raciais), usando seu poder
         baseado na raa (ou etnia) podem passar a dominar (e explorar)
         seus companheiros de outras raas (etnias).
            Fica a critrio de cada um ver como esses tipos de domina-
         o-explorao se relacionam com as foras e relaes de pro-
         duo. Mesmo sem conceder ao desenvolvimento das foras
         produtivas papel determinante na histria (Teoria da histria),
         elas possuem, contudo, uma significncia estratgica particular-
         mente importante na compreenso das sociedades.
         
         
         
         
         
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                                          V - Construindo a solidariedade
         
         
         
         
            O que vimos at agora, nos trs captulos anteriores, foram
         discusses sobre o que se passa entre classes. Agoradiscutiremos
         o que se passa dentro de uma determinada classe. Passamos da
         anlise da estrutura de classes para o problema da formao de
         classes, que  o processo pelo qual as pessoas que ocupam
         lugares objetivamente determinados numa estrutura de classe
         especfica se constituem em organizaes de ao e luta coletiva.
         Trataremos principalmente de dois pontos inter-relacionados:
         a)O problema de como se constri a solidariedade entre os
         trabalhadores, isto , o processo pelo qual se resolvem problemas
         de individualismo, "caronas", competio, subjetivismos, etc.
         dentro da classe trabalhadora,  matria deste captulo.
         b) As contradies que se geram no processo de formao de
         classe, particularmente com respeito ao problema que podera-
         mos chamar de "compromisso de classe" - situaes em que
         classes antagnicas possuem realmente certo grau de equilbrio,
         em que ambas as classes se beneficiam pelo fato de suavizar,
         amainar, em vez de intensificar as lutas de classe. Veremos isso
         no captulo VI.
             natural, pois, que enfrentemos aqui discusses num nvel
         mais micro-social, ou, se quisermos, numa dimenso mais psi-
         cossocial. Dentre tudo o que poderia ser importante na explana-
         o das lutas e formao de classe, ns privilegiaremos os
         motivos por que pessoas particulares decidem agir coletivamen-
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         te. Afinal, dentro da histria humana existem tantas circunstn-
         cias em que as pessoas so oprimidas, suportam situaes de
         
         
         
         
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         misria e desespero, e contudo no conseguem, concretamente,
         juntar-se e organizar-se para a luta. Para se entender a formao
         de classe, pois,  necessrio que compreendamos algo sobre a
         maneira como as pessoas se juntam para lutar. E isso que os
         socilogos e psiclogos sociais chamam de "micro-fundamen-
         tos" da ao coletiva.
            A micro anlise, contudo, no pode ser separada de uma
         anlise social estrutural mais ampla. Homens e mulheres fazem
         escolhas, e atravs dessas escolhas eles constroem a histria, mas
         os dilemas que eles enfrentam e os obstculos que encontram ao
         fazer essas escolhas so impostos sobre eles pela estrutura social
         em que vivem. Subjazendo aos vrios aspectos da discusso da
         formao de classe est, pois, um problema terico comum:
         compreender a maneira como as pessoas se engajam em prticas
         estratgicas coletivas de luta, dentro de um conjunto de restries
         sociais, principalmente restries impostas sobre elas pela estru-
         tura das relaes de classe.
         
         1. Da estrutura para a formao: passagem no automtica
         
            Seria errado pensar que a discusso da estrutura de classe se
         d mais ao redor de posioes , ao passo que a discusso de
         formao de classe se d mais ao redor de pessoas. O correto 
         ver que ambas as discusses so sobre pessoas, mas vistas de
         pQntos diferentes: a estrutura de classe v as pessoas como
         ocupantes de posies definidas relacionalrnente; a formao de
         classe as v como participantes de aes coletivas. Quando
         olhamos para os trabalhadores de uma fbrica, procurando ver
         como eles so mandados, as condies de trabalho que suportam.
         a ameaa de desemprego que enfrentam, ou os tipos diferentes
         de trabalho acessveis a eles, ns estamos estudando os trabalha-
         dores dentro da estrutura de classe; quando ns examinamos as
         maneiras como esses trabalhadores interagem entre si, os tipos
         de associao que eles comeam e a que organizaes eles
         aderem para resistir a seus patres, ento ns estamos estudando
         os mesmos trabalhadores em termos de formao de classe. O
         que se quer, ento,  compreender como as pessoas que ocupam
#
         





         essas posies se organizam. desorg2~izam, reorganizam nas
         diferentes situaes de ao e de luta.
         
         
         
         
                                                         72
            A tese central da relao entre estrutura e formao de classe
          esta: a maneira crucial como a estrutura de classe interfere no
         problema de formao de classe est no fato de que a estrutura
         de classe define o terreno dos interesses materiais, dentr dos
         quais os atores coletivos so formados. Os interesses materiais
         determinados pela estrutura de classe definem atores que com-
         partilham interesses idnticos (possveis companheiros), os que
         tm interesses contrrios (possveis adversrios) e os que tm
         interesses comuns (aliados potenciais).
            Mas ningum deve se iludir: estruturas de classe no geram
         automaticamente formaes de classe. E isso por vrias razes:
         a) Conscincia da realidade - Os atores podem no ter uma
         compreenso clara de seus interesses. Como se ver ao discutir
         ideologia (captulo XIII), a relao entre interesses compreendi-
         dos subjetivamente e interesses determinados objetivamente, 
         sempre problemtica. Mesmo que se possa definir os interesses
         objetivos de classe sem ambigidade, ainda assim eles indica-
         riam apenas tendncias para determinadas normas de luta, nunca
         as lutas concretas.
         b) Interesses contraditrios - Mesmo que os atores tenham uma
         compreenso clara de seus interesses objetivos, o fato de existi-
         rem posies contraditrias dentro das relaes de classe (a
         discusso feita no captulo anterior) significa que as pessoas
         podemtambmterinteressescontraditriosou inconscientes. H
         uma ambivalncia e uma indeterminao quanto ao rumo que sua
         participao ir tomar. Isso implica a criao de muitas formas
         possveis de alianas de classe, dependendo de que elementos
         sejam os mais fortes nesses conjuntos de interesses. Essas alian-
         as no so influenciadas diretamente pela estrutura de classe, e
         dependem de um grande nmero de fatores polticos e ideolgi-
         cos.
         c)>Multiplicidade de interesses de classe ou no - Os interesses
         das pessoas, sejam eles subjetivos ou objetivos, no se restrin-
         gem aos de classe. Podem existir interesses tnicos, nacionais,
         regionais, ocupacionais, de gnero, etc. - e cada um deles pode
         se tomar uma base para a ao coletiva. Na medida em que esses
         interesses no-classistas competem com as formaes de classe,
         
         
         
         
                                                         73
         
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         a relao entre estrutura e formao de classe se torna menos
         determinada.
         d)Dilemas da ao coletiva - Como se ver na discusso da
         >~lidariedade de classe, mesmo que esses trs primeiros proble-
         mas no existam, poder ainda dar-se o caso em que as formaes
         de classe no decorram automaticamente das estruturas de clas-
         se. Os trabalhadores podero ter uma compreenso direta e clara
         de seus interesses, podero no possuir interesses de classe
         contraditrios que os impossibilitem de se unir, e podero at no
         possuir interesses fora da classe que apresentem forte contradi-
         o; assim mesmo eles podero fracassar na construo de
         formaes de classe viveis. A razo disso  que, em ltima
         instncia, as formaes de classe dependem da vontade de pes-
         soas de carne e osso em agir, em fazer sacrifcios, em correr
         riscos, e essas pessoas podem decidir no participar. Devido ao
         fato de que existem custos concretos ligados  participao na
         maioria das aes coletivas, as pessoas preferem deixar que
         outros se arrisquem. E porque cada um vai pensar desse modo,
         sucede que a ao coletiva nunca acaba se realizando.
         e) Capacidades e poder de classe - Finalmente, a participao
         nas lutas depende sempre, ao menos em parte, dos resultados
         previsveis dos sucessos ou fracassos das lutas. Esses resultados,
         por sua vez, dependem do relativo poder das foras em ao.
         Muitos fatores influenciam o poder relativo das partes em luta:
         sua capacidade em recrutar participantes para a ao coletiva ao
         grau de solidariedade entre os membros da classe; sua habilidade
         em forjar alianas; os recursos materiais  disposio das orga-
         nizaes que representam a classe; as regras institucionais (leis)
         que regem o conflito, etc. Seja qual for, porm, a razo da
         relatividade desse poder, as lutas de classe dependem da capaci-
         dade de classe tanto quanto dos interesses de classe. As forma-
         es de classe podem no acontecer devido  crena, da parte dos
         participantes, de que eles esto condenados ao fracasso, e essa
         crena pode ser criada e sustentada, com muita probabilidade,
         pelo equilbrio real do poder existente entre as classes.
            Retomando  tese central: as estruturas de classe devem ser
         vistas como definindo o campo dos obstculos e das possibilida-
         des para a criao de possveis formaes de classe: algumas
         fceis, outras difceis, outras impossveis. Uma boa teoria de
         formao de classe deveria mapear as relativas probabilidades,
         dos diferentes tipo~7de formao de classe, numa determinada
         estrutura de classe. Tal teoria no existe pronta, mas h tenta-
         tivas feitas para se compreender o processo pelo qual agentes
         sociais, coletivamente organizados, se constituem e agem. Essas
         anlises incorporam mais e mais elementos psicossociais (micro-
#
         





         fundamentos), como os que veremos a seguir e quando discutir-
         mos a ideologia.
         
         2. Por uma teoria da ao estratgica e da interao
         
           No centro de toda tentativa de compreenso das relaes
         entre atores individuais e aes coletivas est o que se poderia
         chamar de "interao estratgica". As pessoas tomam decises
         tentando responder a vrios objetivos de sua vida, alguns pes-
         soais, outros polticos. Essas decises, contudo, se do num
         mundo em que outras pessoas tambm tomam decises. Na
         realidade, um dos elementos bsicos na avaliao de cada pessoa
         ao decidir o que fazer em determinada situao  exatamente a
         expectativa dessa pessoa sobre o que as outras faro. E isso que
         significa "interao estratgica": toda pessoa decide o que fazer
         dentro de um contexto de interaes, com expectativas sobre
         outras pessoas que tomam, tambm, tais decises.
         
           As formaes de classe so o resultado desse tipo de intera-
         o estratgica. As pessoas possuem interesses materiais cons-
         trudos a partir de sua posio na estrutura de classe. Elas vivem
         e trabalham juntas, interagem no trabalho e nas comunidades.
         Ser um trabalhador, dentro de uma estrutura de classe, traz
         problemas e decises s pessoas; mas no final de tudo as pessoas
         ainda tm de tomar decises sobre o que fazer a respeito desses
         problemas, sobre como realizar seus objetivos. Os trabalhadores
         no so simplesmente atores dentro de um jogo, onde eles
         desempenham papis predeterminados. que eles tm de aprender
         de cor. No. Eles so iniciadores conscientes de aes, interagin-
         do com outras pessoas.
         
           Como, pois, analisar o processo de tal interao estratgica?
         Um referencial terico muito conhecido e til para isso  o que,
         em cincias sociais,  comumente chamado de "teoria do jogo".
         
         
         
                           74                                                  75
         
         
         
         
         
         
         Embora ela tenha sofrido fortes ataques da parte de intelectuais
         de esquerda, devido  sua associao com certos pressupostos de
         economistas neoclssicos, cremos que  possvel resgatar algu-
         mas facetas vlidas e utilizar sua estrutura como um instrumento
         terico construtivo. J usamos a metfora da sociedade como um
         jogo, quando ns traamos a analogia com o jogo de futebol e
#
         





         suas regras. Agora ns desenvolveremos de uma mancha um
         pouco mais precisa a idia da sociedade como um jogo.
         
           Poder ser til ilustrar a idia bsica da teoria do jogo com
         um dos exemplos mais comuns dessa teoria, o famoso "dilema
         do prisioneiro". Essa  a situao concreta: dois prisioneiros so
         solicitados a fazerem uma escolha que ter conseqUncias para
         ambos. Supe-se que cada um esteja interessado em salvar a sua
         pele. Eles no podem se comunicar. A polcia lhes d as seguintes
         opes:
         
         a) Se um confessar o crime e implicar o outro, e o outro se
         mantiver em silncio, o primeiro ser libertado e o segundo
         receber dez anos de priso.
         b) Se ambos confessarem o crime, e ambos implicarem o com-
         panheiro, ambos recebero cinco anos de pnsao.
         c) Se ambos se calarem, ambos recebero dois anos de priso.
           Fica evidente, nesta estria, que ambos os prisioneiros vo
         preferir a opo "c" em vez da ~ pois ambos vo preferir dois
         anos de priso, ~ em vez de cinco, "b". Ns vamos expressar
         isso dizendo que nesse caso as preferncias so "b" sobre "c".
         Fica tambm evidente que a opo mais preferida  a "a". A
         ordem de preferncia geral ser, pois, "a" sobre "c" e "c" sobre
         "b". O trgico da histria , contudo, que se ambos os prisioneiros
         agirem racionalmente, eles acabaro na opo "b". Cada prisio-
         neiro pensar consigo mesmo: Se o outro cara se calar, ento eu
         ficarei em melhor situao se falar, pois assim estarei livre; e se
         o outro cara falar, ento devo, ainda assim, falar tambm, pois
         desse modo receberei apenas cinco anos, em vez de dez. Infeliz-
         mente, no caso dos nossos prisioneiros, ambos usaro o mesmo
         raciocnio, e ambos acabaro confessando e recebendo cinco
         anos de priso, embora os dois tivessem preferido apenas dois.
         O ponto central  que isso no  o resultado de uma ao
         fracional. Pelo contrrio, esse resultado subtimo  precisamente
         o resultado do fato de ambos os atores agirem de uma maneira
         perfeitamente racional. E por isso que essa estria  chamada de
         "dilema do prisioneiro".
           As razes por que esse modelo  criticado so: o fato de estar
         associado  economia neoclssica, que em geral supe que os
         atores so egostas, que so sempre racionais, e que as aes
         devem ser explicadas primeiramente em termos de intenes.
         Contudo,  errado presumir que unicamente por estar esse mo-
         delo baseado no pressuposto da racionalidade e do egosmo, a
         teoria social em que aquele  aplicado implique tambm que os
         seres humanos so absolutamente racionais e egostas.
           Isso no precisaria ser necessariamente assim. Pode-se co-
         mear com modelos que impliquem egosmo, racionalidade e
         voluntarismo, para com isso poder entender melhor situaes de
         no-egosmo, no-racionalidade e decises concretas. A teoria
         do jogo  um instrumento heurstico de anlise, para a produo
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         de uma teoria, no  o fim de uma teoria. Comea-se com
         modelos que assumem egosmo, racionalidade e intencionalida-
         de, e gradualmente esses pressupostos so deixado~para gerar
         explicaes mais poderosas dos fenmenos sociais.
         
         3. Maneiras de explicar a ao social
         
           Para se compreender a fundo o valor da teoria do jogo na
         formao das classes,  importante contrastar trs maneiras
         diferentes de compreender a ao humana:
         a) A ao humana  determinada: a socializao inculca nas
         pessoas normas e valores que ditam seu comportamento. As
         pessoas so "programadas" pela socializao e agem basicamen-
         te atravs de hbitos, rituais, rotinas, convenes. Escolher , em
         geral, uma iluso. Participar em lutas coletivas depende das
         normas e valores que governam o comportamento das pessoas.
         b) A ao humana  intencional e racional: as pessoas podem agir
         sob restries de vrios tipos, mas suas aes devem ser expli-
         cadas basicamente por suas intenes e razes. A ao  escol-
         hida conscientemente, e as restries so objetivamente dadas e
         fixas. A ao  intencional e racional. A famosa estria de
         Robinson Cruso, perdido numa ilha deserta,  semelhante a
         
         
         
                           76                                                  77
         
         
         
         
         
         essa: ele enfrenta restries objetivas da natureza e age intencio-
         nal e racionalmente para responder a essa situao.
         c) A ao humana  estratgica. Em geral nossa vida no 
         semelhante  de Robinson Cruso: ns vivemos com outras
         pessoas, e as dificuldades que enfrentamos no so determinadas
         e derivadas da "natureza", mas so conseqncias do fato de que
         outras pessoas esto tambm agindo racional e intencionalmente.
         Nossas escolhas tomam, pois, conscientemente em considera-
         o, de uma maneira ou outra, as escolhas provveis dos outros.
         Isto , ns somos atores estratgicos, no apenas atores racionais.
         ~A teoria da ao estratgica, est claro, no nega que os seres
         humanos so criaturas que possuem hbitos, normas e so socia-
         lizados (o primeiro modelo da ao humana) ou que em muitas
         situaes as pessoas ajam racional, mas no estrategicamente
         (como quando decidem, num mercado, o que comprar para o
         jantar). Em muitas circunstncias, porm, isso no  suficiente.
         Devemos tambm tentar compreender por que atores racionais
         interagem estrategicamente, e isso constitui o centro do que a
         teoria do jogo tenta fazer.
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         4. A lgica essencial da ao estratgica
         
           Uma das melhores discusses da teoria do jogo aplicada a
         problemas de anlise de classe  a feita pelo cientista poltico
         noruegus Jon Elster.49 Ele trata toda essa problemtica dentro
         do ttulo "conscincia de classe", mas as questes no so
         exclusivamente ligadas  conscincia de classe como tal. O
         centro da anlise de Elster  uma exposio das vrias formas de
         interdependncia entre agentes que caracterizam a interao
         estratgica. Ele enfatiza particularmente as maneiras como as
         escolhas dos diferentes agentes, e as recompensas que eles so
         capazes de obter, esto interligadas. Distingue trs formas diver-
         sas nessa interdependncia:
         a) A recompensa de cada um depende da escolha de todos - A
         recompensa pessoal de algum no  simplesmente uma funo
         do que essa pessoa particular decide fazer, mas do que todos
         decidem fazer. Na estria do dilema do prisioneiro, a "recom-
         pensa" de cada prisioneiro dependia das decises de ambos.
         Assim tambm, em muitas confrontaes sociais, as recompen-
         sas de cada pessoa - tanto os custos que elas tm de pagar como
         os benefcios que conseguiro - dependem do que cada uma das
         outras pessoas decide fazer. Se todos os trabalhadores de uma
         fbrica decidem entrar em greve, ningum pode ser punido
         individualmente, e a greve ter uma grande chance de ser vito-
         riosa: se apenas alguns fizerem greve, eles sero despedidos e a
         greve fracassar. Nesse sentido, pois, as recompensas e escolhas
         esto interdependentes: a recompensa de cada um depende da
         escolha de todos.
         b) A recompensa de cada um depende da recompensa de todos
         - A idia de "recompensa" no  sempre direta como, por
         exemplo, o comer uma fruta. Muitas vezes as recompensas
         possuem tambm um componente psicolgico importante, que
         liga as recompensas de uma pessoa s de outra. No caso do
         altrusmo, o bem-estar pessoal de um depende concretamente do
         bem-estar dos outros. Se algum  pai. sua felicidade aumenta
         com a felicidade de seus filhos. Sua recompensa ("felicidade")
         depende da recompensa dos outros. Contrariamente, no caso da
         inveja, o bem-estar de algum  frustrado pelo bem-estar dos
         outros.
         c) A escolha de cada um depende da (antecipa o da) escolha
         dos outros - Esse  o aspecto particularmente importante da
         interdependncia entre atores que escolhem e as recompensas.
         Minha recompensa pessoal no depende apenas do que cada um
         (no somente eu) decide fazer, mas as prprias decises depen-
         dem do que cada um pensa que as outras pessoas decidiro fazer.
         Como veremos, esta forma de interdependncia est no centro
         da solidariedade da classe trabalhadora nas lutas de classe: parte
         do que significa "ser solidrio"  antecipar se os companheiros
         trabalhadores iro decidir participar da luta. A escolha de cada
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         trabalhador -juntar-se  luta - depende em parte de suas expec-
         tativas sobre as decises dos outros.
           Baseado nessa interdependncia de decises e conseqn-
         cias, Elster constri a "teoria da ao estratgica", uma derivao
         da "teoria do jogo": as pessoas tomam decises onde se do
         clculos complexos, tanto sobre as decises de outros como
         sobre as perdas (ou ganhos) das decises combinadas. O proble-
         
         
         
                           78                                                  79
         
         
         
         
         ma  compreender a estrutura dessas interdependncias estrat-

         gicas.
         
         S21Tipos de aes estratgicas
         
         a5~o de pessoa versus pessoa -  a ao que se d entre duas
         pssoas. Esse tipo de ao , s vezes, tratado como a relao
         ~ntre uma pessoa e "todos os outros".
         bj Aes de ganho-perda absolutos ("soma zero": ba) ou reta-
         Lfros (soma varivel: bb):
         baY a recompensa possvel  fixa, isto , o ganho de um 
         ~ig~maticamente perda para o outro;
         bb)a recompensa depende de outras regras, onde alguns podem
         ganhar mais, outros menos, mas todos podem ganhar ou perder.
         c) Aes cooperativas ou no-cooperativas. Em aes coopera-
         tivas, os atores tomam suas decises em acordo ou aps dialogar
         com outros participantes. Em aes no-cooperativas, as escol-
         has so feitas por atores isolados uns dos outros, sem entrar em
         negociao ou dilogo, mesmo que possam tentar antecipar as
         escolhas dos outros.
         
         6. Construindo a solidariedade)
         
           Com esses elementos tericos em mente, podemos agora
         avanar na anlise e compreenso mais prxima da problemtica
         da formao de classe. Como se d a construo da solidariedade
         dentro da classe?
           As respostas simplistas e imediatas que so dadas  pergunta
         Por que as classes se organizam? so em geral parecidas com
         estas: Os explorados se organizam porque tm interesse em lutar
         contra a explorao; Os exploradores se organizam porque  de
         seu interese suprimir a organizao dos explorados. A concluso
         simplista , ento, que os interesses de atores, por si mesmos, so
         suficientes para explicar a formao de dlasse; o mapa dos
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         interesses nas estruturas de classe  suficiente para gerar o mapa
         das formaes coletivas.
       Embora exista um ncleo de verdade nessa simplificao,


                            pois os interesses de classe na realidade desempenham um papel


                            importante nas formaes de classe,  totalmente errado, contu-


                            80
         do, tomar isso como uma teoria da organizao coletiva. Os
         interesses, por si mesmos, no so suficientes para explicar
         aes, e  por isso que necessitamos de uma teoria especfica de
         formao de classe. Existe um sem-nmero de casos na histria
         em que as pessoas possuem um interesse enorme em se organi-
         zar, e contudo essa organizao no acontece. O que necessita-
         mos compreender, pois,  por que as pessoas, com interesses
         especficos, decidem participar da formao de classes.
           Introduzimos aqui um conceito que nos poder ajudar na
         compreenso dessa situao: o conceito de solidariedade.
           A solidariedade  um aspecto central da formao de classe,
         principalmente das classes dominadas. Solidariedade poderia ser
         definida como a disposio de membros individuais de uma
         classe em apoiar as lutas coletivas dessa classe. Isso inclui a
         participao ativa (juntar-se a uma greve, por exemplo) e o que
         se poderia chamar de apoio passivo (no furar a greve). Em
         ambos os casos, solidariedade implica numa disposio, da parte
         das pessoas, de assumir certos tipos de custQs individuais para
         se conseguir determinado tipo de fim, coletivamente desejvel.
           A capacidade dos trabalhadores de lutar contra os capitalis-
         tas, em favor de seus interesses de classe, apia-se fundamental-
         mente em sua habilidade de garantir a solidariedade. Como se
         pode concluir com clareza, o recurso mais importante que as
         organizaes da classe trabalhadora trazem para a luta so as
         pessoas: seu tempo, sua energia, sua habilidade de trabalhar, ou
         parar de trabalhar. Embora os recursos financeiros dos sindicatos
         e partidos polticos ligados aos trabalhadores sejam tambm
         importantes, a base fundamental de poder da classe trabalhadora
          sua habilidade de mobilizar as pessoas para a ao coletiva, e
         isso depende, primariamente, da solidariedade. Compreender
         mais sistematicamente, e mais claramente, o que seja solidarie-
         dade, e que condies a sustentam ou minam,  um ponto central
         nos estudos de formao de classe.
           Antes de discutir concretamente em que consiste a solidarie-
         dade, vamos examinar o que se costuma chamar de problema do
         "carona" ou do "caroneiro". Isso nos dar mais elementos para
         compreender o que seja o especfico da solidariedade.
         
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         7. O problema do "carona"
         
           O problema do "carona" ou do "caroneiro" surge em situa-
         es em que, para cada participante potencial de uma ao
         coletiva, existe tambm um custo, e o resultado dessa ao
         coletiva traz vantagens para todos, participantes ou no. Nessas
         circunstncias, cada ator racional  tentado a se tornar um
         roneiro": ele no se desgasta, no precisa participar da greve, por
         exemplo, pode at fazer "boa mdia" com os patres, e recebe
         todas as vantagens, com a greve bem-sucedida. Isso  ainda mais
         evidente quando o fato de apenas um ou outro no participar
         deixar de trazer desvantagens srias para o bom xito da ao
         coletiva. Esse caso  um exemplo do "dilema do prisioneiro",
         que analisamos anteriormente.
         
            O problema do "carona" pode ser ilustrado atravs de uma
         aplicao muito simples da teoria do jogo. Imaginemos uma
         situao estratgica envolvendo dois atores, "eu~~ e os "outros~~.
         Isso  parecido com a situao em que um trabalhador, sozinho,
         est decidindo se participa ou no da luta, da greve, se decide ou
         no apoiar uma revoluo. A pessoa tem necessidade de pensar
         sobre o que fazer: devo participar ou no do movimento. Isso
         define as escolhas alternativas que o "eu" pode fazer. Mas a
         pessoa sabe que outras pessoas tambm esto refletindo, e devido
          interdependncia de escolhas e recompensas, como foi discu-
         tido acima, os custos e benefcios diante do "eu~' dependem em
         parte do que "os outros" decidem fazer. Esta situao pode ser
         representada no que se poderia chamar de "matriz de ganhos e
         perdas". E uma matriz simples, indicando quais os ganhos e
         perdas do "eu" (isto , as recompensas depois de calculados os
         ganhos e perdas) para cada combinao do que "eu" decido fazer
         diante da decis dos "outros".
                                                      Tabela:
                                       Ganhos e perdas de uma ao estratgica
                                   "os OUTROS"
         nao
           Os resultados so "A", "B", "C" e "D". Isso pode significar
         diversas coisas: dinheiro, felicidade, esforo, tempo, etc. O im-
         portante  que eu posso ordenar esses resultados em termos de
         sua relativa desiderabilidade, de acordo com minhas prefern-
         cias. Suponhamos que o resultado  dinheiro. Uma escala plau-
         svel de ordenamento pode ser a maior quantia de dinheiro contra
         a menor; se tudo o mais se mantiver igual, eu prefiro mais do que
         menos dinheiro... Se a nica coisa que me interessar for dinheiro,
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         ento eu definiria o que se chama de minha "ordem de prefern-
         cia" dos resultados.
           Em muitas situaes de ao coletiva, a ordenao dos
         resultados : "B", "A". "D", "C". Vejamos uma greve, por
         exemplo, e tomemos dinheiro como resultado desejado. Supondo
         que minha participao individual na greve no ir determinar
         se esta ser vitoriosa ou no, ento a escolha que me dar mais
         dinheiro ser "B": todos os outros entraro na greve ("coo~era-
         o" com a ao coletiva) e eu continuarei trabalhando. Eu
         receberia, ento, o maior salrio, devido ao sucesso da greve, mas
         eu manteria ainda o meu salrio durante a greve. O segundo
         melhor resultado seria "A", onde todos colaborariam. O pior
         resultado seria "C": eu entraria na greve sozinho, ningum mais:
         eu perderia o salrio durante a greve e no receberia aumento
         devido  paralisao. Assim, pois, se minhas motivaes forem
         estntamente egostas - se eu s me interessar por minha renda -
         eu preferiria que todos os outros, exceto eu, fizessem o sacrifcio
         de entrar na greve. Eu entraria "de carona" na luta de todos os
         outros.
            Na base dos quatro resultados da tabela acima, podemos
         definir trs "quantidades" importantes:
         - "A-D": o ganho provindo da cooperao, isto , a diferena
         entre o que a pessoa ganha se todos, inclusive eu mesmo,
         cooperarem, em oposio  no-cooperao de todos.
         - "H-A": o ganho do "caroneiro", isto , a diferena entre o que
         eu ganho em no cooperar, enquanto os outros cooperam, em
         oposio ao que eu ganho se todos cooperarem.
         - "D-C": a perda provinda de uma ao unilateral, isto , a perda
         que eu experimento por ser o nico a participar da luta (a
         vergonha de passar por "trouxa").
         
         
         
         
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           Se as pessoas so egostas, mas racionais, a preferncia 
         "B", "A", "D", "C".  o problema clssico do "caroneiro". A
         conseqncia provvel  que cada um procurar agir assim, pois
         embora cada um prefira a alternativa "A-D" (cooperao de
         todos contra a absteno de todos), eles acabam na clula "D",
         pois preferem a "B"  "A". Pelo fato de cada um escolher "B",
         acontece que de fato todos ganharam "D". Novamente o dilema
         do prisioneiro se realiza com resultados subtimos porque 
         conseqncia de aes racionais particulares.
         
         ~. Solidariedade como altrusmo condicional
         
           Acontece, porm, que a organizao e a luta dos trabalhado-
         res sempre existiu, em maior ou menor grau. Como explicar,
         pois, esse fenmeno? Por que as pessoas escolhem participar da
         luta, apesar dos custos que isso traz?
         
           Elster discute trs tipos de situao em que as lutas podem
         acontecer:
         
         a)   situaes em que o comportamento das pessoas  racional e
         egosta;
         b)   situaes em que as pessoas so ainda racionais, mas suas
         motivaes no so mais estritamente egostas;
         c)   situaes em que a participao na luta  resultado de vrios
         tipos de comportamento irracional.51
         
           Examinemos estas situaes, uma a uma:
         
         a) Ao coletiva com atores racionais e egostas - De acordo
         ~~com nossa histria do 'caroneiro", discutida acima, tem-se a
         impresso de que a ao coletiva  impossvel se todos forem
         egostas e racionais. Todos quereriam ser "caroneiros", ningum
         se sacrificaria, e ento no haveria luta coletiva. Existe, contudo,
         uma possvel soluo para esse dilema se o jogo" for uma
         seqncia indefinida de lances, e no apenas uma jogada. A isso
         se chama de "dilema continuado do prisioneiro", na linguagem
         tcnica da teoria dojogo. Quando ojogo  realizado vrias vezes,
         os agentes comeam a tomarem considerao a resposta prov-
         vel dos outros agentes, nas jogadas futuras, e no simplesmente
         najogada presente. Concretamente, as estratgias comeam a ter
         para eles uma dimenso histrica. Isso pode levar, por exemplo,
         
         
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          estratgia do "olho por olho": escolher sempre a mesma estra-
         tgia que o adversrio usou na j~gada anterior. Num livro muito
         interessante de Robert Axelrod, intitulado A evoluo da coo-
         perao, ele apresenta a hiptese de que as e'tratgias coopera-
         tivas tendem a evoluir atravs de uma seleo porque os agentes
         adotaro as regras na base do "olho por olho" nesse tipo dejogos
         continuados (um pouco semelhante  hiptese de Darwin sobre
         a sobrevivncia do mais forte). Por trs dessa hiptese est este
         pressuposto: os que empregam estratgias cooperativas saem-se
         melhor do que aqueles que no as empregam.
         
           Elster no se anima muito com essa soluo, desde que 9
         egosmo continue fone, e fugir da luta  uma tentao atraente e
         sempre presente. Talvez por isso que, ao explicar a formao de
         classe, ele privilegie mudanas na "conscincia", que alteram as
         preferncias dos atores.
         b) Ao coletiva com atores racionais e altrustas (no egostas)
         - A premissa do "caroneiro"  a ordem "B", "A", "D", "C". Mas
         as pessoas no precisam, necessariamente, seguir esse caminho;
         elas podem se sentir satisfeitas com ganhos para outros tambm,
         no somente para si. A ordem seria ento: "A", "B", "D", "C".
         Isso significa que a preferncia mais alta de cada pessoa , na
         realidade, a copera~o: todos desejam dar sua parte, contribuir
         para o esVoro da ao coletiva, mesmo que eles possam se
         aproveitar dos benefcios sem precisar participar. Esse  o ponto
         central do altrusmo: a vontade de fazer sacrifcios para o bem
         das outras pessoas, mesmo quando isso no  necessrio para o
         benefcio prprio.
         
           H vrias maneiras de se conceitualizar tais preferncias
         altrustas. Alguns adeptos da teoria do jogo gostam de definir
         altrusmo como uma forma disfarada de egosmo, em que as
         pessoas se mostram altrustas para evitar "sentimentos de culpa"
         que elas experimentariam caso no participassem. Na realidade,
         isso quer dizer que a alternativa "B", na matriz acima, se torna
         menos atraente porque ela contm um custo psicolgico real
         (culpa) que reduz o valor da recompensa monetria (ou outra
         qualquer). De outro modo - se pensarmos de maneira mais
         plausvel - as motivaes das pessoas podem estar baseadas em
         sentimentos morais, em vez de simplesmente no egosmo. As
         
         
         
         
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         pessoas podem rejeitar a estratgia do "caroneiro" porque isso
         ofenderia sua atitude diante de um comportamento moral ("faa
         aos outros o que voc quer que os outros lhe faam") e
         simplesmente porque elas querem evitaro sentimento de culpa.
           Para Elster, ento, a essncia da solidariedade so as prefe-
         rncias altrustas. Essas preferncias no so o que se poderia
         chamar de "altrusmo incondicional" - a deciso de cooperar de
         mau grado com aquilo que outras pessoas iro fazer. As pessoas
         ainda preferem evitar a perda provinda do fato de agirem sozi-
         nhas, isto , os custos que uma pessoa enfrenta por "bancar o
         trouxa", e engajar-se numa luta, quando todos os outros se
         recusam. Existem, contudo, na histria, pessoas que so hericas
         para o bem comum, mesmo que ningum mais se arriscasse.
         Essas pessoas que aceitam o peso de agirem ss, os mrtires da
         luta de classe, que esperam que seu gesto individual possa
         despertar uma ao coletiva. A maioria das pessoas, contudo, no
         quer ser mrtir de uma causa, e no est disposta a participar em
         lutas, ano ser que uma grande parte esteja mais ou menos segura
         de que muitas outras pessoas iro fazer o mesmo. Seu altrusmo
         , pois, condicional, no absoluto. Isso implica que, mesmo
         quando as pessoas possuem genunos valores altrustas, a ao
         coletiva exige informao segura sobre o que outras pessoas iro
         fazer. Toda pessoa prefere cooperar, mas exige garantia de que
         as outras iro agir do mesmo modo.
           Para Elster, o altrusmo condicional constitui o contedo
         essencial da solidariedade de classe.
         
         c) Ao coletiva com atores irracionais - Embora o altrusmo
         condicional seja a motivao que mantm as formaes de classe
         estveis e torna possvel sustentar as lutas de classe por longos
         perodos de tempo, existem vrias situaes em que os compor-
         tamentos irracionais podem desempenhar um papel importante
         na explicao da ao coletiva. Elster nos d um bom nmero de
         exemplos: Em muitas lutas, os agentes individuais superestimam
         sua importncia no que se refere ao sucesso da luta. Os lideres
         muitas vezes usam expresses como "cada voto  importante",
         ou "voc pode fazer a diferena", enfatizando, desse modo, a
         contribuio concreta de cada pessoa no resultado da iniciativa.
         Se uma pessoa percebe que sua contribuio pessoal realmente
         pode ser decisiva para o sucesso ou o fracasso, ento ela estaria
         disposta a participar. Tais crenas, contudo, so geralmente
         irracionais: na maioria das lutas coletivas existe uma iluso, da
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         parte de muitas pessoas, de acreditar que sua contribuio far
         uma diferena significativa no que se refere ao resultado. Tal
         comportamento irracional, contudo, pode ser importante na mo-
         tivao de outras pessoas para agirem, e pode ser tambm parte
         de uma espcie de profecia auto-realizvel: se cada um acreditar
         que seu voto far a diferena, cada um, por sua vez, decidir
         votar, e assim o candidato poder ser eleito.
         
           Em qualquer situao social  provvel que existam elemen-
         tos de cada uma dessas trs situaes de ao coletiva. Existem
         alguns que decidem participar, ou se abster, unicamente devido
         a um comportamento racional egosta, e somente participaro se
         existir um jogo continuado, em que eles percebero que recebe-
         ro represlias, por parte de seus companheiros, nas ocasies
         subseqentes. Haver outros que sero altrustas incondicionais,
         cooperando devido a princpios pessoais fortemente arraigados.
         Esses constituiro o ncleo central dos ativistas e militantes de
         um movimento. Outros so altrustas condicionais. E alguns
         elementos de comportamento irracional podem estar presentes
         nas escolhas de cada uni desses grupos. Como esses diversos
         elementos iro se combinar numa situao concreta deformao
         e de luta de classe constitui um problema emprico e no pode
         ser, em geral, antecipado atravs de consideraes abstratas.
         
         9. Condies sociais para a solidariedade
         
           O que acabamos de ver nos mostra que a solidariedade no
          sempre uniforme. Ela tem suas variaes. E h certos fatores
         que podem nos ajudar a compreender por que a solidariedade
         sofre graus de variabilidade, atravs do tempo e do espao.
         
           A afirmao de que o altrusmo condicional  o conceito
         essencial da solidariedade significa que os fatores que a com-
         pem so duplos: os que se referem ao altrusmo e influenciam
         a ordem das preferncias dos atores, e os referentes ao condicio-
         nal e afetam as condies de informao necessrias para que as
         preferncias possam ser materializadas em ao coletiva.
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           Elster analisa vrios tipos de processo causal que dificultam
         a emergncia e a manuteno dessas condies de solidariedade.
         a) Concentrao e interdependncia dos trabalhadores
           O prprio Marx j chamava a ateno para a importncia da
         concentrao crescente dos trabalhadores nas fbricas, e como
         isso levaria  crescente interdependncia e  crescente prob-
         abilidade de lutas solidrias. Essa interdependncia faz aumentar
         mutuamente o conhecimento, a estima e a ajuda dos trabalhado-
         res. Ela atua como uma fora contrria s presses competitivas
         do mercado de trabalho. Na Ideologia alem e no Manifesto
         comunista, Marx e Engelsj chamavam a ateno para esses dois
         fatores opostos: ~competio separa as pessoas umas das outras,
         tanto a burguesia como, ainda mais, os trabalhadores; o processo
         de trabalho, contudo. rene os trabalhadores, principalmente nas
         grandes fbricas.
           A crescente concentrao nas fbricas  um fator importante
         na criao da solidariedade, no somente porque muda as prefe-
         rncias dos trabalhadores, mas tambm devido a seu impacto nas
         condies de informao para a luta. Bem ao contrrio dos
         camponeses isolados no campo, ou dos trabalhadores em peque-
         nas fbricas, a concentrao de trabalhadores em grandes fbri-
         cas facilita a comunicao entre eles e aumenta a possibilidade
         de poderem predizer os comportamentos mtuos. Sendo que o
         altrusmo condicional leva a uma solidariedade ativa somente
         quando os trabalhadores tm razovel certeza de que outros iro
         juntar-se a eles na luta, a concentrao aumenta a solidariedade
         pelo fato de aumentar seu mtuo conhecimento.
         
         b) Comunidade
         
           A estabilidade das comunidades dos trabalhadores, princi-
         palmente quando as reas residenciais so estreitamente ligadas
         ao local de trabalho, tem enorme influncia em ambos os fatores
         que definem a solidariedade. As preferncias, no altrusmo con-
         dicional, no caem do cu: elas so criadas e reproduzidas atravs
         da experincia vivencial das partilhas recprocas e na entreajuda
         nos momentos de necessidade, tristeza e alegria. Essas experin-
         cias esto mais presentes em comunidades que so basicamente
         homogneas com respeito  classe do que em comunidades que
         tenham profundas diferenas entre si. Ao mesmo tempo, elas so
         mais profundas quando h uma longa histria de conhecimento
         comum dessas reciprocidades, principalmente onde as experin-
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         cias individuais se estendem por geraes e se tomam parte da
         "memria histrica". As periferias distantes, a fragmentao das
         comunidades, a grande mobilidade residencial e geogrfica fa-
         vorecem a atomizao das relaes e reforam o egosmo, que-
         brando esta memria histrica das experincias anteriores e
         diminuindo as prticas de ajuda e partilha.
            As estruturas de comunidade afetam, tambm, as condies
         de informao e comunicao de luta. Leva tempo para as
         pessoas conhecerem seus vizinhos, terem possibilidade de pre-
         dizer suas respostas a situaes especficas. Os novos moradores
         das vilas e comunidades hesitam, muitas vezes, em participar
         ativamente das lutas e prticas populares, no tanto porque eles
         desconhecem ou no se importam com seus vizinhos, mas porque
         h menos segurana de poderem confiar neles, e vice-versa.
         Onde h alto grau de mobilidade geogrfica e social, h menos
         probabilidade de as pessoas depositarem confiana na boa von-
         tade dos outros e decidirem participar das lutas coletivas.
         c) Liderana, ativistas e organizao
            Esta  outra dimenso extremamente crucial no que diz
         respeito  formao de classe. H muitas discusses sobre a
         importncia da organizao formal e da liderana, na luta de
         classe. Todos concordam que as aes coletivas espontneas
         nunca conseguem, por si ss, ter suficiente coeso, coerncia e
         capacidade para chegara transformaruma sociedade: a liderana
         e a organizao so necessrias para torn-la eficiente.
           Elster chama a ateno para duas funes decisivas da lide-
         rana, que tm tudo a ver com nossa anlise da solidariedade: ca)
         suas conseqncias sobre as condies de comunicao e infor-
         mao em relao s lutas coletivas; cb) a importncia potencial
         de um pequeno grupo bsico de altrustas incondicionais (ativis-
         tas) dentro de um movimento social, para que esse movimento
         consiga chegar a um nvel de participao mais ampla.
            ca) A liderana e a organizao jogam um papel decisivo na
         criao de possibilidades de predio de comportamentos e
         conhecimento mtuo entre os participantes potenciais de uma
         luta coletiva. Como vimos antes, a solidariedade (altrusmo
         
         
         
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         condicional) s se d quando as pessoas chegam a ter relativ~
         certeza que as outras tambm se engajaro na luta. Elste
         mostra como os lderes podem facilitar enormemente a soluo
         do problema da comunicao dos grandes grupos:
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           "Se uma pessoa est informada e inspira confiana para cem
           pessoas, ela pode criar condies de informao para essas
           pessoas com apenas duzentas aes comunicativas - primei-
           ro perguntando a cada uma das pessoas sobre sua disposio
           de entrar na ao coletiva, e depois dizendo a elas, como
           resposta, qual a disposio dos outros. Mas uma comunica-
           o bilateral entre as cem pessoas necessitaria em tomo de
           cinco mil aes comunicativas. As vantagens que se conse-
           guem, no campo da comunicao, atravs de uma boa lide-
           rana, so muito substanciais".
         
            Uma boa liderana e uma boa organizao daro, pois, aos
         participantes, uma rede de comunicao indireta fundamental,
         para garantir-lhes que no desempenharo o papel de trouxas,
         numa luta coletiva.
         
            cb) Uma segunda situao, altamente estratgica, relaciona-
         da  liderana  o que se costuma designar como o papel dos
         ativistas. Como vimos, o altrusmo condicional, caracterstica
         essencial para a solidariedade, supe certa probabilidade de que
         outros tambm iro participar.  claro que isso sempre perma-
         nece mais ou menos impreciso. Alguns iro participar somente
         se tiverem relativa certeza de que grande grupo de pessoas
         tambm ir participar. Outros participaro somente se a esmaga-
         dora maioria participar. Outros, ainda, iro participar contanto
         que haja ao menos um pequeno grupo de companheiros. O limite
         extremo  dos que iro participar de qualquer forma, mesmo que
         estejam ss:  o altrusmo incondicional.
         
            Elster55 comenta o efeito de bola-de-neve nas lutas coletivas:
         
            "Um grupo central, coeso, de cooperadores incondicionais,
            tomar mais fcil a participao de outros... Poder-se-ia
            imaginar um efeito de bola-de-neve, onde um grupo firme
            de 5% de colaboradores incondicionais atrai um grupo de
            10% que precisa ao menos de 5% de pessoas j comprome-
            tidas; isso possibilitar atrair outros 30% que necessitam ao
            menos de 15% de cooperadores, etc."
         
         
         
                                                         90
           Uma estratgia muito prtica e eficiente, nesses casos,  a
         lista de pessoas que do seu nome e se comprometem em
         participar. Nas situaes especficas onde essa estratgia foi
         possvel, como entre grupos mais ligados a trabalhos burocrti-
         cos e educativos (professores, bancrios, funcionrios pblicos,
         etc.), ela se mostrou extremamente eficiente, pois previne os
         possveis problemas de alguns lutarem ss, e d segurana e
#
         





         garantia, tanto aos participantes quanto  liderana, que no corre
         o risco de ficar desacreditada, como no caso de as aes fracas-
         sarem. Decide-se, ento, que a ao coletiva (greve, por exem-
         plo) s acontecer se houver um mnimo de lOa 20% de pessoas
         que se comprometam em participar. Fora isso, o movimento no
         se realizaria. As pessoas que assinamj sabem que seguramente
         haver um nmero mnimo de participantes. Isso lhes dar segu-
         rana e resguardo. Ao mesmo tempo, as lideranas tero certeza
         que podero contar com tal nmero, podendo traar as estratgias
         oportunas.
         
            Em toda organizao sempre existem vrios crculos, mais
         ou menos prximos ao grupo central de deciso: a liderana
         como centro; em seguida, os quadros; depois, os ativistas; em
         seguida, as massas ativas; e, finalmente, as massas passivas. Os
         quadros e os ativistas cumprem um papel central de ligao entre
         a liderana e as massas, nos movimentos coletivos.
         
         Conclusflo
         
        As estruturas de classe podem definir o campo de interesses


                            em que as lutas de classe podem se dar, mas elas no geram,


                            automaticamente, as formaes de classe necessrias para que as


                            classes oprimidas possam lutar com sucesso contra seus explo-


                            radores. Muitas condies devem estar presentes para que as


                            formaes de classe se constituam e sobrevivam. Ns examina-


                            mos algumas delas: a transformao de preferncias egostas em


                            preferncias de altrusmo condicional, a criao de confiana e


                            de comunidades, a emergncia de uma liderana capaz de coor-


                            denar atividades e a informao. Como veremos nas discusses


#






                            posteriores, muito do que se refere ao estado e  ideologia serve


                            para minar essas condies, bloqueando a emergncia de solida-


                            riedade concreta dentro das formaes de classe. Contudo,
mesmo
         que a solidariedade seja construda de uma maneira eficiente,
         e que surjam formaes de classe durveis, isso no significa que
         os trabalhadores iro lutar para uma transformao radical do
         capitalismo. Eles podero tambm achar que ser melhor jogar
         ojogo do capitalismo, modificando, talvez, um pouco as regras,
         mas no abandonando o jogo totalmente. Esse  o problema que
         ns discutiremos no captulo seguinte: Por que os trabalhadors
         procurariam o que ns chamaremos de compromisso de classe
         dentro do capitalismo, em vez de derrub-lo de uma vez, mesmo
         que reconhecessem que sua derrubada seria mais desejvel?
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
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                                          VI- As contradies da caminhada
         
         
         
         
            Toda realidade contm suas contradies. Numa sociedade
         constituda de vrias classes, as coisas no so sempre como a
         gente quer ou deseja. Nem sempre se consegue um objetivo
         pacificamente. Contradies e confrontaes podem surgir entre
         os diversos grupos. O que passamos a discutir agora j se
         relaciona mais estreitamente com as duas partes seguintes de
         nosso estudo: o estado e a ideologia. Discutiremos l, mais
         detalhadamente, como o estado e a ideologia interferem na
         formao de.lasse. O que queremos discutir agora so as difi-
         culdades que surgem na formao das classes, especialmente da
         classe trabalhadora, dificuldades essas que resultam da prpria
         natureza das relaes de classe que unem trabalhadores e capi-
         talistas. Seguramente, o segredo da durabilidade do capitalismo
         e a dificuldade na criao de classes revolucionrias que desa-
         fiem esse sistema no residem na ao das ideologias que escon-
         dem sua realidade interna dos grupos oprimidos ou nas aes do
         estado que reprimem as ameaas das classes, mas na estrutura
         bsica das relaes de produo que, como veremos, criam
         tendncias intrnsecas em direo a compromissos de classe.
         
            Discutiremos esse problema examinando o trabalho de dois
         estudiosos contemporneos da formao de classe: o socilogo
         alemo Claus Offe e o socilogo polons que trabalha nos
         Estados Unidos desde a dcada de 60, Adam Przeworski. Ambos
         esto interessados em provar que o compromisso de classe - uma
         situao de acordo relativamente estvel da parte das associaes
         de classes trabalhadoras para conter a militncia, em troca de um
         conjunto de benefcios materiais cedidos pelos capitalistas - no
         
         
         
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          apenas o resultado de uma estratgia m ou hipcrita dos lderes
         da classe trabalhadora, ou artimanhas ardilosas e ideolgicas
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         para enganar esses trabalhadores. Ambos querem mostrar como
         esses compromissos surgem da natureza mesma das relaes de
         classe capitalistas, mas fazem isso com nfases muito diversas.
         Offe acentua o que poderia ser chamado de "contradies intra-
         organizacionais" da formao de classe trabalhadora. Ele est
         particularmente interessado em compreender como o oportunis-
         moda classe trabalhadora surge dos dilemas que os trabalhadores
         enfrentam na construo de organizaes coletivas durveis para
         conseguir seus interesses. ~Przeworski, ao contrrio, toma as
         organizaes de classe como caixas-pretas. Ele est interessado
         em mostrar como os compromissos de classe surgem das dife-
         rentes maneiras, como os trabalhadores organizados e os capita-
         listas interagem estrategicamente no mercado.
         
         1. Diferentes lgicas da ao coletiva
         
         a) Dilemas da ao estratgica
            O pressuposto fundamental de muitos socilogos polticos
         que escrevem sobre a ao coletiva  que todos os grupos
         potencialmente organizados enfrentam fundamentalmente dile-
         mas similares de ao coletjva. Embora grupos possam se dife-
         renciar drasticamente no que se refira ao contedo de suas
         exigncias e aos recursos de que disponham para conseguir suas
         demandas, todos eles enfrentam uma agenda semelhante de
         dificuldades para se tomarem agentes coletivos eficientes. Aci-
         ma de tudo, dilemas do prisioneiro e problemas de "caroneiros"
         trazem situaes basicamente equivalentes para a mobilizao e
         ao de todos os possveis grupos de interesse.
         
        Num importante ensaio sobre o problema da formao de


                            classe, As dg~as lgicas da ao coletiva, Claus Offe e Helmut


                            Weisenthal argumentam que esse pressuposto bsico da teoria


                            pluralista no  correto. Grupos diferentes, afirmam eles, podem


                            diferir profundamente na lgica mesma da ao coletiva que eles


                            enfrentam. De modo particular, tais diferenas na lgica da ao


                            coletiva so importantes para se compreender o problema da


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                            formao de classe, tanto para os trabalhadores como para os


                            capitalistas. As diferenas nessas lgicas, dizem eles, est radi-


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         cada nas naturezas qualitativamente diferentes dos interesses de
         classe e das capacidades de classe intrnsecas dos trabalhadores
         e capitalistas.
         
           Interesses
            Capitalistas e trabalhadores enfrentam, com problemas para
         conhecer ou descobrir, seus "verdadeiros" interesses, isto ,
         como eliminar distores na compreenso de seus interesses. Os
         interesses so transparentes para os capitalistas, mas so identi-
         ficados apenas atravs do dilogo pelos trabalhadores.
         
           Y~ Capacidades
            Trabalhadores e capitalistas possuem capacidades intrinse-
         camente diversas para lutar pela concretizao de seus interesses,
         e por isso devem fazer coisas qualitativamente diferentes para
         agir estrategicamente. De modo particular, os capitalistas tm
         apenas de mobilizar recursos financeiros, enqunto que os tra-
         balhadores tm de mobilizar pessoas. Esse fato cria uma profun-
         da diferena nos dilemas de ao coletiva que eles enfrentam.
         
            Nas partes que seguem, ns usaremos o contraste entre essas
         diferenas subjacentes aos interessesecapacidades,para analisar
         trs caractersticas que Offe e Weisenthal chamam de "prticas
         associatiyas do trabalho e do capital": os recursos internos (in-
         puts - o material que deve ser organizado), os processos internos
         (as dinmicas dentro das organizaes que so criadas para
         conseguir os interesses dos membros) e os recursos externos
         (outputs - as condies impostas pelo contexto da associao,
         para se conseguir um resultado estratgico).
         
           Recursos internos
            O ponto de partida para compreender a especificidade das
         diferentes lgicas da ao coletiva nas diversas classes  pergun-
         tar: As diferentes associaes organizam o qu? De modo parti-
         cular, queremos perguntar o que as associaes de trabalhadores
         e de capitalistas organizam. Seguindo Offe e Weisenthal, dirigi-
         remos nossa ateno para os sindicatos, na classe trabalhadora,
         e para as associaes de empregadores, na classe capitalista, e
         no para os partidos polticos, embora algumas anlises possam
         ser aplicadas tambm aos partidos polticos.
         
         
         
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            O que, pois, organizam os sindicatos? Na opinio de Offe e
         Weisenthal, o fato crucial, no que se refere aos sindicatos, no 
         simplesmente que eles organizam trabalhadores, mas que eles
         organizam trabalhadorei que j so membros de organizaes
         capitalistas, isto , trabalhadores que j so empregados em
         firmas capitalistas. Os sindicatos so, pois, organizadores "se-
         cundrios", cuja tarefa  reorganizar trabalhadores j organiza-
         dos pelo capital.
         
            A propriedade central desse recurso, conforme os autores, 
         o que eles chamam de "individualidade insupervel dos trabal-
         hadores". Podem-se somar unidades de capital em sempre maio-
         res e mais poderosas unidades inseparveis, mas no  possvel
         misturar trabalho vivo; o trabalho permanece sempre discreto,
         impossvel de ser somado. Os trabalhadores singulares possuem
         sua mo-de-obra individual, mas se defrontam com um capital
         que se soma e  indiviso: o capital pode crescer com seu poder
         individual, atravs da acumulao de capital; os trabalhadores
         sempre permanecem fracos como mo-de-obra singular. O poder
         dos trabalhadores, pois, para confrontar o capital, necessita de
         uma associao organizada.
         
            Essa insupervel individualidade dos trabalhadores traz con-
         seqncias profundas no que se refere aos interesses buscados
         pelas associaes de trabalhadores, e no que se refere ao poder
         dessas associaes. Em termos de interesses, os pressupostos
         implicaro na inseparabilidade dos trabalhadores, e sua fora de
         trabalho; consiSte em que os interesses ligados com a venda de
         mo-de-obra so muito mais complexos e heterogneos do que
         os interesses ligados  posse do capital. Em termos de poder, a
         implicao est no fato de que o poder da classe trabalhadora no
         pode ser aumentado simplesmente na soma de mais e mais fora
         de trabalho; ele deve ser construdo no esforo de forjar solida-
         riedades entre os possuidores dessa fora de trabalho. Vejamos
         mais pormenorizadamente esses dois pontos.
         
           A soma de interesses
            Devido ao fato de que a estratgia decisiva e vital dos
         trabalhadores est ligada ao seu papel de negociao, as associa-
         es de trabalhadores so obrigadas a somar, de uma maneira ou
         outra, os interesses heterogneos que os trabalhadores possuem
         
         
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         41
         pelo fato de pertencerem  mesma classe. Para as associaes de
         empregadores, porm, existem critrios prontos para qualquer
         clculo de interesses: lucro, custos monetrios e ganhos. Os
         interesses dos capitalistas na sua posio de donos do capital so
         fixos, predeterminados pela natureza do mercado. O nico ponto
         ao qual as associaes de empregadores devem prestar atenao
          sobre a melhor maneira de conseguir esses interesses. Os
         interesses dos trabalhadore~, mesmo no seu papel de vendedores
         de fora de trabalho, no so fixos, no esto totalmente defini-
         dos pelo mercado, exatamente porque o trabalhador no pode se
         separar, como ser humano, de sua fora de trabalho.
         
            A conseqncia dessa diferena na natureza dos interesses
         de trabalhadores e capitalistas  que o processo de representao
         desses interesses nas organizaes  muito mais simples para os
         capitalistas. Como veremos mais adiante, isso traz conseqn-
         cias importantes para os processos internos, dentro das organi-
         zaes de classe trabalhadoras e capitalistas. Os interesses
         capitalistas so transparentes, e por isso podem ser articulados
         por peritos, no que Offe e Weisenthal, seguindo Habermas,
         chamam de um processo monolgico, isto , um processo de
         cima para baixo, uma comunicao de mo nica entre a lideran-
         a e os membros. As assoiaes de trabalhadores devem, de
         uma maneira ou outra, descobrir o que constitui os interesses de
         seus membros, e por isso eles precisam muito mais de processos
         ~ialgicos de comunicao e interao, isto , formas de comu-
         nicao que so simtricas, participativas e abertas entre a lide-
         rana e os membros.
         
            Acumula o de poder
             O     problema da acumulao de poder , do mesmo modo,
         to complexo para as associaes de trabalhadores como o da
         soma de interesses. O poder da classe trabalhadora no pode ser
         somado de uma maneira matemtica; a atomizao dos trabalha-
         dores  um problema intrnseco, no somente um resultado da
         manipulao externa dos capitalistas. Esse poder  intrnseco 
         assimetria entre capital e trabalho, sendo qt trabalhador no
         pode ser separado de sua fora de trabalho - que ele vende no
         mercado de trabalho; o poder dos trabalhadores no pode ser
         aumentado simplesmente acumulando fora de trabalho. Ele
         
         
         
                                                         97
                  organizao, e a direo dessas atividades pode ser amplamente
         delegada a uma liderana monolgica, isto , a uma liderana
         que se relacione com os membros da associao primariamente
         num processo de mo nica, numa comunicao de cima para
         baixo.
            Em profundo contraste, a base de poder das associaes de
         trabalhadores depende, quase inteiramente, da possibilidade de
         concordncia da associao, e no dos membros individuais, e
         essa habilidade de aprovao depende, por sua vez, da disposio
         dos membros de agir-especialmente sua disposio de entrarem
         greve. At mesmo o poder do sindicato mais burocrtico depen-
         de, ultimamente, da materializao do apoio dos membros.
         
            Esse contraste entre o poder baseado na disposio de pagar
         versus disposio de agir, gera diferenas muito grandes entre
         as estratgias e dilemas da liderana, tanto para as associaes
         de empregadores como para as de trabalhadores. Os sindicatos,
         diferentemente das associaes de empregadores, enfrentam
         uma contradio bsica entre as condies de acumulao de
         poder e o exerccio do poder. Para ser possvel a acumulao de
         poder, os sindicatos devem fazer duas coisas; primeiro, devem
         tentar aumentar o nmero de seus membros e os recursos finan-
         ceiros contralados por eles; depois, devem aumentar o controle
         burdcrtico sobre esses recursos, para assegurar que eles sejam
         efetivamente usados e articulads para as lutas. Para exercer
         poder, de outro lado, os sindicatos dependem do grau com que a
         associao  capaz de fortificar a solidariedade e os compromis-
         sos dos membros. Isso, por sua vez, depende, em grande parte,
         do grau com que a estrutura interna do sindicato  governada por
         formas dialgicas de comunicao - interaes que so funda-
         mentalmente participativas eajudamacriaridentidades coletivas
         que protegem a organizao dos problemas de "caroneiros".
         Colocadas as coisas no mesmo p, o aumento do nmero e da
         centralizao dificulta tal interao solidarstica, e nesse sentido
         os sindicatos enfrentam, concretamente, a necessidade de nego-
         ciar entre a acumulao e o exerccio do poder. A histria do
         moviment6 operrio est cheia de exemplos de sindicatos ricos
         que no podem se mobilizar para a greve versus pequenos
         sindicatos militantes que no tm condies de ir  greve.
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            A formao de classe trabalhadora geralmente enfrenta,
         pois, uma gama de antinomias organizacionais que no esto
         presentes na formao de classe capitalista: mobilizao de
         recursos versus mobilizao de atividade, aumento do nmero e
         da organizao versus aumento da fora de identidade coletiva,
         construo de uma efici?ncia burocrtica da organizao versus
         aprofundamento da participao democrtica dentro da organi-
         zao. Esses so impasses profundos intrnsecos  natureza dos
         interesses da classe trabalhadora e s suas condies de luta. Pelo
         fato de no poderem ser eliminadas, essas antinomias se trans-
         formam, como veremos, em tendncias dentro das associaes
         de classe trabalhadoras, em prticas internas organizacionais que
         oscilam entre formas dialgicas e monolgic~s. permeadas de
         perodos de crise organizacional e de reconstruo. Associaes
         de empregadores no possuem tais dilemas, e por isso tendem a
         ter histrias mais duradouras e sem tantas crises organizacionais.
         
            Recursos externos
            Os critrios e mecanismos de sucesso para as associaes de
         trabalhadores e empregadores so totalmente diferentes. A asso-
         ciao capitalista no  a base do poder capitalista; ela unicamen-
         te serve para materializar esse poder. As associaes de
         empregadores esto principalmente empenhadas em desenvol-
         ver o funcionamento d mercado, em reduzir essas incertezas e
         em prover informaes para seus membros e outras instncias.
         Os interesses capitalistas bsicos so reproduzidos atravs de
         mecanismos que so independentes das atividades de qualquer
         ao associativa de capitalistas.
         
            As associaes de trabalhadores, por outro lado, se consti-
         tuem, de fato, na base principal do poder da classe trabalhadora.
         Os mecanismos para seu sucesso dependem essencialmente da
         natureza do ambiente de conflito em que a associao de classe
         trabalhadora opera. Onde essas associaes no possuem legiti-
         midade institucional da parte dos empregadores, o sucesso de-
         pende de sua habilidade em mobilizar concretamente aes
         coletivas, para impor sanes aos capitalistas. Sob condies de
         relaes de negociao estveis, ao contrrio, o sucesso depende
         da habilidade em precaver a mobilizao e "segurar" a ao
         
         
         
                                                                                 101
                            100
         
         
         
         
         
         coletiva concreta, em vista de possveis acordos com os empre-
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         gadores.
            Isso, mais uma vez, aumenta as tenses internas das associa-
         es de classe trabalhadoras, pois a habilidade em "segurar" a
         mobilizao depende de quanto controle burocrtico existe den-
         tro da associao, enquanto a habilidade de mobilizar concreta-
         mente a ao coletiva depende do grau de participao ativa e de
         envolvimento dos membros.
            Recapitulao )
            As associaes de classe trabalhadoras enfrentam profundas
         e, ao menos dentro d uma sociedade capitalista, insolveis
         tenses. Estas podem ser sintetizadas numa srie de proposies
         interligadas:
         *  Os interesses materiais dos trabalhadores somente podero
            ser implementados atravs de associaes.
         *  A habilidade das associaes em concretizar esses interesses
            depende da disposio dos membros em se comprometer, em
            fazer sacrifcios concretos, para fins coletivos.
         *  A disposio dos membros em agir depende da proporo
            em que os trabalhadores percebem altos, ou baixos, nveis
            de solidariedade e compromissos.
         *  Altos nveis de solidariedade dependem da transformao
            dos interesses, que passam de interesses puramente materiais
            para interesses ligados a uma identidade coletiva.
         *  Essa transformao depende da existncia de formas de
            interao dialgicas, de reciprocidade, dentro dessas asso-
            ciaes engajadas na luta.
         *  Mas a habilidade em conseguir um sucesso concreto nas
            lutas com os empregadores, de forjar negociaes depende
            da habilidade da liderana da associao de trabalhadores de
            conter a militncia extremada, de controlar a mobilizao e
            de concretizar promessas feitas num processo de negocia-
            o. E esta habilidade de controlar os membros geralmente
            tem de recorrer a formas de prticas monolgicas, verticais
            e unilaterais.
         *  Essas formas monolgicas de organizao minam, em lti-
            ma instncia, a base de poder das associaes da classe
            trabalhadora.
            Essas proposies sugerem que existe aqui uma divergncia
         fundamental entre dois modelos organizacionais que caracteri-
         zam a formao da classe trabalhadora. Conforme Offe e Wei-
         senthal, eles podem ser denominados como um modelo dialgico
         de representao associativa de luta e um modelo monolgico
         de dissqciao de representao e luta. O corporativismo e
         outras formas de representao modernas da classe trabalhadora
         podem ser entendidos como tentativas de institucionalizao da
         segunda, e com isso impedirem as possibilidades de prticas
         organizacionais dialgicas. Exemplos concretos disso incluiriam
         as restries legais de exigncias legtimas dos sindicatos, direi-
         tos de cidadania industriais (comits de agravo e de procedimen-
         tos, direitos formais das fbricas, eleies representativas, etc.)
#
         





         que separam a representao, de um lado, e a luta, de outro, alm
         de vrios mecanismos que geram uma fragmentao organiza-
         cional de comunicao (por exemplo: cdulas postais para votar
         em greves).
            Na seco seguinte veremos como esses tipos de negocia-
         es podem ser vistos como a base institucional para o que
         poderia ser chamado de "compromissos de classe" entre capital
         e trabalho.
         
         2. A trajetria histrica da formao de classe
         trabalhadora
         
            As classes no so simplesmente criadas ou surgidas ao
         acaso, organizadas ou desorganizadas. Elas so organizadas de
         maneiras particulares, com inter-relaes histricas especficas
         com a formao de outras classes. Uma das tarefas importantes
         de uma anlise histrico-crtica de formao de classe  com-
         preender a variabilidade nos tipos de formao de classe, e os
         determinantes centrais dessa variabilidade. Veremos, mais
         adiante, as diversas maneiras como o estado e a ideologia ajudam
         a configurar as formas especficas de luta e de formao de
         classe. Nesta seco, nosso enfoque ser mais a "base material"
         que subjaz s diferentes formaes de classe.
         
         
            A teoria crtica distingue, de modo geral, dois tipos ideais de
         luta de classe: a luta de classe revolucionria, em que a luta se
         a) Situando o problema
         
         
                           102
                                                                                 103
         
         
         
         
         
         
         d sobre as regras fundamentais do jogo (socialismo versus
         capitalismo) e lutas de classe reformistas, em que a luta se d
         sobre interesses existentes dentro de um determinado conjunto
         de regras bsicas dojogo. Correspondendo a essas formas de luta
         de classe, existe a distino nas formaes de classe: formaes
         de classe organizadas nas atividades de transformao revolu-
         cionria, e formaes de classe orientadas em direo a uma luta
         reformista.
            Essa distino coloca um problema para a teoria crtica: se
         os interesses da classe trabalhadora so fundamentalmente opos-
         tos aos da burguesia - se essas classes so intrinsecamente
         polarizadas - como se pode entender que nos pases de capita-
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         lismo avanado a classe trabalhadora no seja uma classe revo-
         lucionria? Como pode o pressuposto de relaes de classe
         antagnicas ser conciliado com o fato emprico generalizado de
         que, na maioria dos pases capitalistas desenvolvidos, as lutas de
         classe, de modo geral, aceitam as regras do jogo estabelecido?
         Isso no quer dizer, est claro, que todos os reformismos sejam
         idnticos. Existem profundas e importantes diferenas entre os
         vrios tipos de reformismo que caracterizam a histria das na-
         es capitalistas avanadas, desde a plena incorporao e cola-
         borao da classe at um reformismo progressista crtico e de
         oposio.
            Como isso pode ser explicado? Ns discutiremos duas ex-
         plicaes complementares: uma oferecida por Claus Offe e
         Helmut Weisenthal, que fundamenta sua anlise nos dilemas
         intra-organizacionais da formao de classe trabalhadora, e outra
         desenvolvida por Adam Przeworski, que analisa as condies
         dinmicas da luta entre a classe trabalhadora e a classe capitalis-
         ta, nas economias capitalistas avanadas.
            Ambas as argumentaes rejeitam duas explicaes comuns
         do reformismo (ou o que Offe e Weisenthal chamam de "opor-
         tunismo"): na primeira, o reformismo das associaes de classe
         trabalhadoras, tanto sindicatos como partidos,  atribudo  "falsa
         liderana". Os lderes so acusados de se deixarem vender, de se
         deixarem corromper ou de se enganarem. A ausncia de luta
         revolucionria refletiria um erro pessoal, uma falsa viso da
         liderana da classe trabalhadora ou de suas organizaes. Na
         segunda, o fracasso  atribudo  subjetividade dos trabalhadores.
         Os operrios so vtimas de um doutrinamento ideolgico dos
         grupos dominantes, da manipulao dos meios de comunicao
         da burguesia, da propaganda anticomunista. Se no fosse tal
         mistificao, eles se engajariam na luta revolucionria.
            Tanto Offe como Weisenthal rejeitam essas explicaes
         subjetivistas. Embora eles deixem espao para o papel importan-
         te da ideologia nas suas explicaes do compromisso de classe,
         os mecanismos centrais no devem ser encontrados nos enganos
         da parte das lideranas, ou na mistificao ideolgica causada
         aos trabalhadores. Os mecanismos centrais esto enraizados, isto
         sim, nos dilemas da ao coletiva impostos sobre a classe trabal-
         hadora, pela lgica do capitalismo. Offe e Weisenthal analisam
         esses dilemas quanto aos seus efeitos nas prticas associativas
         do oportunismo dentro das organizaes de classe trabalhadoras;
         Przeworski os analisa no tocante a seus efeitos nas prticas de
         luta entre trabalhadores e capitalistas. Ambos partilham de um
         pressuposto comum: o mecanismo bsico que explica o refor-
         mismo se centra nas exigncias e dilemas enfrentados por trabal-
         hadores racionais, agindo estrategicamente.
         b) Oportunismo e prticas associativas
            A anlise de Offe e Weisenthal gira em torno do "oportunis-
         mo". No  necessrio dizer que esse  um rtulo pejorativo
         usado em debates polticos como uma maneira de denunciar a
#
         





         integridade de posies polticas particulares. Mas os autores
         esto menos interessados em condenar do que em entender a base
         material dos tipos de prticas que esto especificamente ligadas
          acusao.
            O que , pois, "oportunismo"? Os autores identificam trs
         atributos principais: primeiro, uma inverso dos meios sobre os
         fins, em que a preservao da organizao possui prioridade
         maior do que a consecuo dos objetivos da organizao; segun-
         do, a preocupao com ganhos ou perdas de curto prazo, em
         contraposio aos de longo prazo; terceiro, a primazia das tticas
         sobre as estratgias. A tarefa  explicar o fato concreto de como
         esses trs atributos caracterizaram, de modo geral, a formao
         de classe trabalhadora nas sociedades capitalistas avanadas, e
         de uma maneira mais ou menos profunda.
         
         
         
                          104                                                  105
         
         
         
         
         
            Offe e Weisenthal apresentam trs proposies interessantes
         que~subjazem  lgica do oportunismo:
            lhi\f.gica estrutural - o oportunismo  uma resposta orga-
         nizaeinal  lgica estrutural da ao coletiva enfrentada pelos
         trabalhadores.
            2) Lgica dinmica - o oportunismo  um fenmeno autoli-
         mitativo: ele coni as condies de sua prpria racionalidade,
         criando assim uma tendncia para o surgimento de um ciclo entre
         oportpnismo e militncia.
            3}Lgica histrica - devido a uma espcie de processo de
         aprehdizado histrico que ocorre atravs de ciclos, cada ciclo se
         processa num nvel mais alto de mobilizao potencial; a traje-
         tria histrica tem, pois, uma tendncia a ser uma espiral, e no
         simplesmente um ciclo.
            O resultado seria uma teoria de um ciclo em espiral de
         oportunismo, que poderia ser decomposto em cinco estgios
         gerais:
            Primeiro estgio - Esse  o perodo inicial da formao de
         classe, em que um pequeno e coeso grupo de militantes se engaja
         em atividades organizativas primrias. As prticas associativas
         so altamente dialgicas e participativas; a eficincia da organi-
         zao  quase que inteiramente baseada na disposio e vontade
         de ao dos participantes.
         t' Segundo estgio - E a fase de consolidao. A organizao
         j ganhou fora suficiente e reconhecimento pblico. Mas grande
         parte de sua fora provm da habilidade em fazer ameaas, e no
         de sua habilidade de concretamente impor sanes sobre os
#
         





         adversrios. No caso dos sindicatos, isso significa que a ameaa
         de greves se torna mais importante do que as greves reais.
            Embora isso concretamente aumente o poder da associao,
         impe tambm dois imperativos contraditrios: de um lado exis-
         te o que pode ser chamado de imperativo de subsistncia: a
         organizao deve manter a credibilidade das ameaas, se quiser
         subsistir. Isso exige mobilizao, recrutamento contnuo, mili-
         tncia ativa e continuada. De outro lado, a organizao se defron-
         ta com o imperativo de sucesso: ela deve demonstrar que  capaz
         de controlar as ameaas que faz e que pode concretizar as
         promessas feitas em resposta a essas ameaas. Isso exige que a
         liderana esteja numa posio em que possa controlar a organi-
         zao e refrear a militncia dos membros. A coexistncia desses
         dois imperativos cria um mximo de tenso entre formas de
         prtica associacional monolgicas e dialgicas: a necessidade de
         mobilizao requer formas dialgicas, a necessidade de controle
         requer formas monolgicas.
            Argumentam os autores que existem duas maneiras bsicas
         de resolver essa tenso: ou a organizao retoma ao primeiro
         estgio, ou pode tentar criar garantias externas para sua sobrevi-
         vncia. Isso levaria ao terceiro estgio.
            Terceiro estgio - Esse  o estgio do oportunismo pleno: o
         triunfo das formas de prtica associacional monolgicas sobre
         as dialgicas. Para poder resolver as tenses do segundo estgio,
         a liderana da organizao procura garantias externas da parte
         do estado. A finalidade dessas garantias, nas palavras dos auto-
         res,  "tornar a sobrevivncia da organizao to independente
         quanto possvel da motivao, da solidariedade e da 'disposio
         de agir' dos membros".58 De importncia capital  a legislao
         trabalhista que protege legalmente os direitos e a sobrevivncia
         dos sindicatos, tanto pelo fato de tomar os sindicatos menos
         vulnerveis aos ataques dos empregadores como tornando pos-
         svel aos sindicatos recrutar membros - e com isso obter recursos
         financeiros na forma de imposto sindical - sem serem obrigados
         a mobilizar os trabalhadores em lutas concretas.
            Para obter essas garantias externas, est claro, o sindicato
         deve oferecer algo em troca. Eles renunciam  militncia. Eles
         prometem ser "responsveis", institucionalizar controles inter-
         nos nos sindicatos sobre os militantes, em troca de segurana.
         Em poucas palavras, eles concordam em adotar prticas organi-
         zacionais descritas acima como "oportunismo". Este , ento,
         institucionalizado como uma estratgia racional de garantir a
         continuidade organizacional. Nas palavras dos autores, isso "ga-
         rante as chances de sucesso, enquanto evitam as ameaas contra
         sua sobrevivncia
            Quarto estgio - A criao de formas institucionais mono-
         lgicas e prticas oportunistas dentro das organizaes da classe
         trabalhadora pode ser uma estratgia racional da parte da lide-
                                                        106
                                                              107
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                                                         a
         
         
         
                                                         a
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
                                                         1
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         rana, mas no elimina o antagonismo fundamental de interesses
         entre trabalhadores e capitalistas. Isso significa que os capitalis-
         tas tero sempre interesse intrnseco em minar o poder dos
         trabalhadores, se isso for politicamente possvel. Peri-
         odicamente, por isso, os capitalistas vo deslanchar ofensivas
         contra as organizaes da classe trabalhadora, algumas vezes
         hesitantemente, para testar quo vulnerveis so essas organiza-
         es, outras vezes com agressividade, na esperana de minar
         seriamente seu poder.
            Desde que o estado propicie garantias externas para os
         sindicatos, essas ofensivas dificilmente prejudicariam seu poder
         e viabilidade. Mas  claro que essas garantias podem ser supres-
         sas - na realidade, um dos objetivos das campanhas contra os
         sindicatos  muitas vezes corroer, ou mesmo eliminar essas
         protees legais. Em tais circunstncias, os sindicatos podem se
         tornar extremamente vulnerveis. A forma monolgica da orga-
         nizao mina as solidariedades entre os membros e enfraquece
         a capacidade da liderana de mobilizar os membros para uma
         ao coletiva; por isso, as invectivas contra a organizao tornam
         tal mobilizao absolutamente necessria.
            Tais situaes tm probabilidade de provocar uma crise
         organizacional geral, em que as prticas associativas monolgi-
         cas correntes vo confrontar tendncias dialgicas emergentes.
         Tais crises formam a base para o estgio seguinte da trajetria
         histrica.
        Quinto estgio - O estgio final  marcado por um perodo


                            de renovada militncia e mobilizao, por uma nova re-criao


                            de prticas associativas. Tal situao se parece com o primeiro


                            estgio do processo, mas tem certas diferenas importantes. Em


                            primeiro lugar, a re-emergncia da militncia e da mobilizao


                            geralmente toma a forma de divises e rachas dentro dos sindi-


                            catos existentes. Isso significa que a nova militncia trabalha

#
         





                            
                            claramente dentro de um ambiente organizacional muito diverso


                            da militncia inicial, um ambiente em que existem mais recursos


                            organizacionais disponveis, e em que o conflito se d entre


                            faces diferentes de trabalhadores, no simplesmente entre


                            trabalhadores e capitalistas. Em segundo lugar, esta renovao


                            da ao da militncia acontece num nvel de conscincia ideol-


                            108
         gica potencialmente mais alto que o da fase ou da militncia
         inicial. Os trabalhadores vivenciaram o ciclo histrico de miii-
         tncia e oportunismo. e por isso tero, com certeza, aprendido
         lies que iro influir nas lutas subseqentes relativas s forma-
         es de classe.
            O resultado final desses processos interligados  que a longa
         trajetria histrica no  necessariamente um ciclo sem fim de
         militncia, que leva a estratgias organizacionais de oportunismo
         que, em ltima instncia, mina a base de poder da organizao,
         e com isso leva a um renovado perodo de militncia. Pelo
         contrrio, o processo  certamente uma das espirais histricas em
         que perodos de militncia oscilam com perodos de oportunis-
         mo, mas sempre em nveis de conscincia mais politizados e mais
         radicais.
            Offe e Weisenthal vem essa qualidade de "espiral" da curva
         do aprendizado histrico das formulaes de classe trabalhado-
         ras como intrnseca  lgica da ao coletiva. Essa , talvez, uma
         viso bastante otimista. Se as experincias histricas iro ou no
         produzir um processo cumulativo de aprendizado. depende da
         fora da memria histrica dentro da classe trabalhadora, e no
         da habilidade dos trabalhadores em tirar as lies corretas das
         vitrias e derrotas nas lutas de classe. O esquecimento histrico,
         porm,  uma caracterstica bastante comum da vida social vista
         como memria histrica, e as lies a serem aprendidas das lutas
         so muitas vezes confusas e altamente contestadas. As classes
         dominantes possuem um enorme interesse em apagar a memria
         histrica e em interromper o processo de aprendizado presente
         em tais ciclos. Se tais lies sero ou no aprendidas, e se tais
         ciclos sero ou no transformados em espirais, no  algo deter-
         minado que se possa extrair da lgica da formao de classe
#
         





         como tal:  um processo que deve ser construdo atravs da luta
         e da solidariedade.
                                                         4
         3. Luta de classe e compromisso de classe
         
            A anlise de formao de classe de Adam Przeworski60
         apresenta um quadro bastante mais pessimista que o de Offe e
         Weisenthal. Ele no v um ciclo necessrio entre militncia e
     oportunismo, e certamente tambm nenhuma espiral que impul-


                            109
         
         
         
         
         
         sione os trabalhadores para ondas de radicalizao e rejeio do
         economismo/oportunismo. Em vez disso, ao menos para o caso
         do capitalismo desenvolvido e industrial, Przeworski v o capi-
         talismo como sendo muito capaz de criar uma base material para
         um compromisso de classe mais ou menos permanente, entre
                                                         61
         trabalho e capital. As possibilidades de ruptura, por isso,
         passam a se relacionar primariamente com as contradies cul-
         turais do capitalismo e com as maneiras atravs das quais as
         crises ideolgicas podem ser geradas dentro dessas condies
         materiais, mas no devido a algum desenvolvimento de bases
         materiais de consenso.
         
            A anlise do compromisso de classe de Przeworski enfoca
         menos a lgica interna da formao da organizao, ou o proble-
         made fazercomqueindivduosracionaisadiramaoc0lev~
         procura ver mais a relao dinmica entre classes coletivamente
         j formadas, que define o terreno em que a formao de classe
         se d. Ele chega a duas teses fundamentais, que podem ser
         chamadas de Tese do compromisso de classe e Tese dos custos
         da transio.
            - Tese do compromisso de classe - Sob certas condies, se
         trabalhadores e capitalistas agirem racionalmente na consecuo
         de seus interesses econmicos, ento eles iro convergir para
         uma forma de compromisso de classe, diante do conflito de
         classe, em que:
         *  os capitalistas concordam em devolver parte dos resultados
            da acumulao aos trabalhadores, na forma de aumentos de
            salrios baseados na produtividade;
         *  os trabalhadores concordam em moderar suas exigncias de
            altos salrios para um nvel que no ameace a taxa de lucro
            dos capitalistas.
         
#
         





           - Tese dos custos de transio - Uma vez conseguido um
         compromisso de classe, ento os custos da transio, implicados
         numa ruptura para o socialismo, sero sempre altos demais,
         tornando assim economicamente irracional, da parte dos trabal-
         hadores - individual e coletivamente - lutar pelo socialismo. A
         luta pelo socialismo somente poder se fundamentar, ento, em
         critrios no-econmicos.
         
         
         
                                                        110
         a)   Condies para o compromisso de classe
            O argumento bsico de Przeworski para a viabilidade do
         compromisso de classe  este; E um fato inegvel do capitalismo
         que o crescimento econmico e a inovao provm dos lucros
         privados. Como resultado disso, os trabalhadores enfrentam
         necessariamente um dilema entre seu salrio presente e futuro,
         nas suas lutas com capitalistas. Suponhamos que os trabalhado-
         res no sejam suficientemente poderosos para derrubar o capita-
         lismo, durante seu tempo de vida, mas eles sero suficientemente
         poderosos para poder conseguir grandes aumento.s salariais atra-
         vs de suas lutas. Que seria racional, da parte deles, fazer? A
         resposta de Przeworski  que a racionalidade de estratgias
         salariais particulares dos trabalhadores depende da provvel
         resposta dos capitalistas aos diferentes nveis de militncia da
         classe trabalhadora.
            Suponhamos que no seja possvel nenhum compromisso de
         classe, ou porque as condies econmicas no o permitam ou
         porque a classe capitalista  to mesquinha e egosta que recuse
         fazer qualquer negociao com os trabalhadores. Eles preferem
         uma guerra de classe declarada. Sob tais condies, raciocina
         Przeworski, os trabalhadores agiro mais acertadamente sendo
         extremamente militantes, tentando obter o mximo de aumento
         salarial em cada ocasio possvel.
            Se  possvel um compromisso de classe, ento as negocia-
         es sero bastante diversas. Um compromisso de classe signi-
         fica que, em troca do fato de os trabalhadores moderarem sua
         militncia, os capitalistas concordaro em reinvestir parte da
         mais-valia (lucros) e dar aos trabalhadores alguns dos frutos
         desse reinvestimento na forma de aumentos salariais baseados
         na produtividade. Sob tais condies, argumenta Przeworski, a
         melhor estratgia para os trabalhadores  ser moderadamente
         militantes: o suficientemente militantes para garantir que os
         capitalistas cumpriro com sua palavra, mas no to militantes a
         ponto de ameaar o compromisso eliminando a taxa de lucro.
            O problema crtico , pois: O que determina a viabilidade do
         compromisso de classe? Dois pontos so especialmente impor-
         tantes: os horizontes de tempo e a confiana.
         
         
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                                                        111
         
         
         
         
         
           a) Os horizontes de tempo
            O problema dos horizontes de tempo se refere basicamente
         a at que ponto do futuro os trabalhadores e capitalistas faro
         seus clculos estratgicos. Quanto maior o grau de incerteza
         sobre as situaes futuras da economia, tanto mais curto ser o
         horizonte de tempo para os agentes. Quanto mais confiantes
         estiverem os agentes sobre a previso do futuro, ao menos em
         termos de condies materiais bsicas, mais longe, no futuro,
         eles estaro dispostos a traar clculos estratgicos. No capita-
         lismo industrial avanado, diz Przeworski, geralmente existe um
         horizonte de tempo relativamente longo, baseado na experincia
         histrica da acumulao estvel.
           b) A confiana
            A confiana, de certa maneira,  ainda mais importante que
         os horizontes de tempo. Mesmo que os trabalhadores acreditem
         que se possa prever muito bem a situao futura da economia,
         eles provavelmente no concordaro com um compromisso de
         classe, se perceberem que no podem ter garantia de que os
         capitalistas cumpriro suas promessas. O mesmo,  claro, se
         aplica  disposio dos capitalistas em acreditar nas promessas
         dos trabalhadores. A recordao de traies e de falta com a
         palavra dada pode, por isso, ser um obstculo srio para forjar
         compromissos de classe estveis.
            Devido aos interesses antagnicos de trabalhadores e capi-
         talistas, e ao carter geralmente impessoal das relaes capi-
         tal/trabalho,  bastante improvvel que esse tipo de confiana
         possa ser construdo exclusivamente a partir de crenas de que
         exista boa-f. E, pois, importante que exista um referencial
         institucional pelo qual a confiana possa ser reforada, e talvez
         mesmo assegurada. Przeworski defende que as instituies da
         democracia burguesa, especialmente quando sob o comando de
         partidos democrticos, apresentam um ambiente institucional
         onde essa necessria reciprocidade e confiana podem se desen-
         volver.
         classe entre trabalhadores e capitalistas. Em tais condies os
         trabalhadores lucrariam em optarem por uma militncia mode-
         rada, e os capitalistas por aumentos de salrios baseados na
         produtividade: ambos se beneficiariam desse acordo, em contra-
         posio a outras alternativas.
            Formas de compromisso de classe
            A anlise de Przeworski deixa em aberto a forma precisa de
         compromisso de classe. Existem muitas possibilidades, mas em
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         geral os compromissos de classe variam de acordo com o quanto
         eles favorecem ou a capitalistas ou a trabalhadores. Um compro-
         misso implica que concesses reais sejam feitas de ambas as
         partes da luta de classe, que hajarestries concretas  militnca,
         da parte dos dois lados, mas existem muitos compromissos
         possveis.
            Um exemplo interessante desse problema de variabilidade
         nos termos do compromisso de classe se encontra na anlise de
                62
         Joel Rogers sobre a relao entre a fora dos sindicatos e os
         interesses dos capitalistas. Muitas pessoas pensam que existe
         uma simples relao inversa entre a fora de trabalho e os
         interesses do capital: quanto mais fortes os sindicatos, mais eles
         sero capazes de beneficiar os trabalhadores s custas dos capi-
         talistas. Se isso fosse verdade, os capitalistas teriam sempre um
         enormeinteresseemminaropoderdossindicatos. Rogersmostra
         que esta intuio no  correta. A verdadeira relao entre a fora
         dos sindicatos e os interesses dos capitalistas  uma relao em
         curvatura, que toma a forma de um "J" invertido, como se v na
         figura abaixo:
         LUCROS
                                                         DA
         BURGUESIA
            Se essa argumentao for correta, ento ao menos nas demo-
         cracias do capitalismo industrial avanado haveria, de modo
         ;eral, tanto um horizonte de tempo suficiente como condies
         institucionais de confiana, para se forjarem compromissos de
         ALTOS
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         BAIXOS
              0%
         ESTADOS UNIDOS
         
         
         
         
                      SUCIA
         UNIO SINDICAL
                                                       100 %
         112                                                 113
         
         
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            O que sugere esta figura? Ela significa que, quando a unio
         sindical  baixa, seu crescimento de fato prejudica os capitalistas.
         Se olhannos a parte esquerda da curva, concluiremos que os
         capitalistas sempre prefeririam que a unio sindical fosse mni-
         ma. Mas se d o mesmo quando a unio sindical  bastante alta.
         Uma vez que os sindicatos comecem a organizar uma maioria
         substancial de trabalhadores, ento os capitalistas comearo
         tambm a perceber alguns benefcios dessa sindicalizao. Por
         exemplo, em nveis de unio sindical bastante altos, os capitalis-
         tas tero mais possibilidade de racionalizar e coordenar o mer-
         cado de trabalho, de forjar compromissos estveis e a longo
         prazo, onde os trabalhadores concordaro em trabalhar de uma
         maneira disciplinada, em troca de aumentos baseados na produ-
         tividade. Uma fora de trabalho altamente organizada torna fcil
         aos capitalistas controlarem a anarquia do mercado, e reduzirem
         uma competio ameaadora.
            Porm, o ponto central mostrado por Rogers  que, em pases
         diferentes, as instituies que regulam o trabalho - polticas e
         legais, especialmente as leis trabalhistas - tomam mais ou menos
         difcil ao sindicalismo ultrapassar o ponto crtico, isto , a base
         inferior da curva em "3" invertida. Nos Estados Unidos, por
         exemplo, impedimentos legais para a sindicalizao tornam qua-
         se impossvel ultrapassar a curva inferior, enquanto que na
         Sucia as leis trabalhistas tornam difcil um retrocesso. O sindi-
         calismo suecoj ultrapassou a curva inferior h mais de quarenta
         anos, enquanto que nos Estados Unidos o movimento sindical
         nem mesmo chegou a se aproximar desta curva. A conseqncia
         disso  que o compromisso de classe  muito mais favorvel aos
         trabalhadores suecos do que aos dos Estados Unidos.
             claro que esta anlise deixa em aberto o problema de
         explicar por que o compromiss23de classe sueco se d  direita
         da curva. Michael Wallerstein argumenta que  o tipo de
         relao entre uma determinada economia nacional e o sistema
         capitalista mundial que toma mais ou menos possvel estabelecer
         as formas corporativas centralizadas necessrias para ultrapassar
         a curva. Economias pequenas, abertas, que so fortemente vul-
         nerveis  competi internacional, possuem mais possibilida-
         des de desenvolver tais instituies, pois isso  claramente do
         interesse tanto do capital como do trabalho. Economias nacionais
         maiores, especialmente quando a maior parte de sua produo 
         para o mercado interno, tm menos probabilidade. A menor
         vulnerabilidade ao mercado internacional torna tais acordos me-
         nos atraentes  classe dominante. No  de se surpreender, pois,
         que a Sucia tenha possibilidade de criar instituies sindicais
         altamente centralizadas e fortes para negociar um compromisso
         de classe, enquanto que os Estados Unidos no o consigam.
         Qualquer que seja o caso, porm, o resultado  um compromisso
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         de classe bastante mais favorvel para a Sucia.
         b)   Os custos da transio
            O fato de que o compromisso de classe  melhor para os
         trabalhadores do que uma hipermilitncia dentro das regras do
         jogo capitalista no significa,  evidente, que essas regras do jogo
         so as melhores para os trabalhadores. Por que os trabalhadores
         simplesmente no optam por um socialismo democrtico? Por
         que eles no se engajam em lutas revolucionrias para transfor-
         mar o prprio jogo?
            A razo por que essa alternativa no  escolhida, na opinio
         de Przeworski,  que pelo fato de os trabalhadores serem moti-
         vados por interesses materiais e ser possvel, dentro do capitalis-
         mo, um compromisso de classe,  bastante improvvel que a luta
         pelo socialismo seja atraente para eles. Viver j num socialismo
         poderia estar em seus interesses, mas lutar pelo socialismo no
         estaria.
            A argumentao fundamental, por trs dessa tese,  que
         existem importantes custos na passagem do capitalismo para o
         socialismo. A capacidade dos capitalistas de desinvestir significa
         que eles podem causar tremendas convulses econmicas diante
         de qualquer tentativa de ruptura com o capitalismo - isso  algo
         diferente do problema de uma contra-revoluo armada, etc. Isso
         quer dizer que, mesmo supondo que o socialismo  claramente
         mais produtivo que o capitalismo e que os nveis de vida iriam
         melhorar mais rapidamente para todos os trabalhadores no so-
         cialismo, seria ainda, de maneira geral, irracional para os trabal-
         hadores lutarem pelo socialismo, por causa da profundidade da
         "queda de transio", como  ilustrado na figura a seguir:
         114                                               115
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                                                         e
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                                                         6-
                                                         e.
                                                         a.
         
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         RUVIURA
                                                   REvOLUCIONRIA
         
         
         
         
                   TEMPO-.
         
         
                            - TRAJETRIA DO SOCIALISMO
                ______________ - TRAJETRIA DO cAPrrALIsMo
         
            Onde um compromisso de classe no  possvel,  claro que
         esse quadro se apresentar de modo muito mais diverso. Espe-
         cialmente se no capitalismo a situao de bem-estar, a longo
         prazo, est declinando, a queda no seria to brusca; e mesmo
         em termos puramente econmicos, a luta pelo socialismo seria
         racional. E por essa razo, sem dvida, que os movimentos
         revolucionrios pelo socialismo acontecem tantas vezes no Ter-
         ceiro Mundo, pois para uma proporo muito significativa dessa
         populao as perspectivas, sob o capitalismo, se mostram negras.
            Contudo, mesmo sob condies parecidas com as do Tercei-
         ro Mundo, o socialismo pode ainda no ser visto como uma
         alternativa vivel, O futuro  sempre incerto e muitas pessoas
         podem temer que, apesar da estagnao ou declnio do bem-estar
         na situao presente, as coisas poderiam se tomar ainda piores
         se fosse tentada uma alternativa. Existem enormes incertezas no
         risco de se mudar de um jogo para outro, e o aumento rpido e
         bem-estar material, projetado no quadro acima, pode ser visto
         com grande ceticismo por muitas pessoas. Esse ceticismo pode-
         ria ser reforado se forem examinados, numa perspectiva hist-
         rica, os pases que tentaram fazer a passagem do capitalismo (ou
         colonialismo) para um regime socialista. Para muitos desses
         pases, como Nicargua, Cuba, Moambique, Angola, Vietnam,
#
         





         esses custos foram longos e pesados, e ainda persistem de uma
         maneira ou outra. Para sermos corretos, contudo, deve-se dizer
         que as dificuldades econmicas desses pases no so puramente
         resultado da operao de alguns mecanismos econmicos; so
         muitas vezes resultado de ataques imperialistas que vo desde
         sabotagens e boicotes econmicos at intervenes militares.M
         A anlise da sorte dessas experincias histricas aumenta a
         hesitao de pessoas que temem correr riscos ao se disporem a
         suportar os custos da transio.
            O centro da anlise de Przeworski : tanto pelo fato de o
         compromisso de classe otimizar a procura do bem-estar dos
         trabalhadores dentro do capitalismo, como porque os custos da
         ruptura com o capitalismo so bastante altos,  improvvel que,
         sob condies de acumulao estvel, os trabalhadores queiram
         lutar pelo socialismo unicamente e primordialmente devido a
         interesses materiais. Mas so seus interesses materiais - isto ,
         seus interesses determinados pelas relaes de explorao - que
         os definem como classe, e que definem seus interesses de classe
         especficos na luta pelo socialismo - em oposio a seus interes-
         ses "humanistas" no socialismo. Isso cria uma profunda ironia
         dentro da teoria marxista de formao de classe:  somente na
         medida em que forem alm de seus interesses como classe, que
         os trabalhadores, como classe, podem lutar pelo socialismo. Isso
         no implica que maior justia social e igualdade surjam espon-
         taneamente como motivaes para as lutas pelo socialismo, mas
         em si mesmas tais motivaes enfrentam enormes dificuldades
         para superarem o obstculo de transies incertas.
         
         Concluso
         
            Ficamos com um quadro enigmtico e talvez no muito
         animador. Como um sistema de explorao e opresso de classe,
         o capitalismo gera poderosos interesses em direo  mudana
         social, tanto para mudana dentro das regras do jogo como
         mudana do prprio jogo. Mas interesses em mudar no so
         suficientes para explicar as aes; as pessoas tambm devem ter
         uma capacidade concreta de agir coletivamente para conseguir
         esses interesses. Aqui a histria  bastante contraditria. De um
         lado, porque as solidariedades, que continuamente surgem nos
         locais de trabalho e nas comunidades, so constantemente coop-
         tadas, pelas sociedades capitalistas, na sua tendncia  formao
         de classe. O individualismo capitalista encoraja o egosmo e a
         prtica de se aproveitar dos outros ("caroneiro"), mas as expe-
         
         
         
                           116                                                 117
              ALTOS
         
         INTERESSES
#
         





         MATERIAIS
                                                        DOS
         TRABALHADORES
         
         
              BAIXOS
         
         
         
         
         
         
         rincias prticas da vida cotidiana constroem tambm associa-
         es e grupos de resistncia. De outro lado, tais formaes de
         classe so continuamente bloqueadas nas suas tendncias a se
         transformarem em desafios revolucionrios srios  ordem capi-
         talista. Devido  dinmica organizacional interna, como a discu-
         tida por Offe e Weisenthal, existe a tendncia, para as
         associaes de classe trabalhadoras, de serem minadas na sua
         capacidade de ampla e contnua organizao; e devido aos custos
         e benefcios de estratgias alternativas, conforme a anlise de
         Przeworski, existe tambm a tendncia, dentro das associaes,
         de procurar um compromisso de classe, em vez de uma luta para
         romper com o sistema.
            A histria, contudo, no acaba aqui. A lgica econmica da
         formao de classe, nas sociedades capitalistas, pode tornar os
         compromissos de classe provveis, especialmente nas socieda-
         des capitalistas avanadas. Mas os termos exatos dessas lutas e
         compromissos, sua estabilidade atravs do tempo e o quanto uma
         alternativa mais radical continua sendo sempre uma aspirao
         polftica imorredoura dos grupos oprimidos, no so determina-
         dos apenas por fatores econmicos. Para se compreender o
         problema da variabilidade nas lutas, nas formaes e nos com-
         promissos de classe, devemos passar a analisar os problemas do
         estado e da ideologia. Esses so tpicos das duas panes seguintes
         deste livro.



                         SEGUNDA PARTE:

                             ESTADO

  1-              No  possvel uma discusso sobre a sociedade que no
                 enfoque, de uma maneira ou outra, o que normalmente se chama
                 de estado. Acontece, porm, que sob esta palavra "estado" es-
                 condem-se dezenas de realidades geralmente bem diferentes
                 umas das outras.
                    preciso, pois, comear por definir o que ns chamaremos
                 de estado, o que faremos, juntamente com a definio de alguns
                 outros conceitos, no captulo VII.
                   Mais complexo se toma o trabalho quando quisermos tentar
                 descobrir a razo da existncia do estado. Aqui as opinies se
                 dividem de maneira muito profunda.
                   Uma primeira grande teoria diz que no se pode separar o
                 estado das classes, numa sociedade de classes, e coloca a nfase
                 nas classes. Esta teoria se subdivide em duas variantes: a teoria
                 instrumentalista, que diz que o estado  um simples "instrumen-
                 to" nas mos da classe; e a teoria estruturalista, que diz que o
                 prprio estado materializa em si, em sua estrutura, a classe.
                 Veremos isso no captulo VIII.
                   Outra grande teoria coloca a nfase no estado e afirma que
                 ele possui certa independncia, ceda autonomia; ele , por assim
                 dizer, uma arena onde se do as lutas de classe. Esta teoria
                 tambm possui duas verses: a verso radical e a verso mode-
                 rada. Isso ser assunto do captulo IX.
                   Num apndice ao captulo IX discutiremos a tentativa de
                 dois autores, Alford e Friedland, de reconciliar as vrias teorias
                 do estado numa grande sntese geral. Finalmente, dentro do
                 nosso propsito, no poderamos deixar de lado uma discusso

                                                        121

         sobre as teorias de mudana do estado e os modelos dessas
         teori as.
            Discutiremos, no captulo X, algumas estratgias de mudan-
         a,principalmenteosvriosmodelos,muitosdelesjexperimen-    - Conceitos bsicos relacionados ao estado
         tados, de caminhos para o socialismo.
                                                                Muitas das discusses sobre o estado, tanto numa perspecti-
                                                              va histrico-crtica como em outras perspectivas, tomam-se con-
                                                              fusas devido  falta de conceituao clara das palavras
                                                              empregadas para designar diferentes fenmenos, diferentes con-
                                                              ceitos, diferentes processos e diferentes estruturas. Um esclare-
                                                              cimento cuidadoso dessas noes  extremamente til. Apesar
                                                              de estarem relacionados, eles designam, como iremos empregar
                                                              aqui, realidades diferentes. Esses conceitos so: ptica, prtica
                                                              poltica, poder, dominao, estado e sociedade civil. H diver-
                                                              gncias sobre seus significados, na literatura sobre o assunto, e
                                                              so usados em diferentes teorias. Essa  a razo de esclarecer
                                                              aqui o uso que faremos deles.

                                                              1. Prtica, aspectos e tipos

                                                                Prtica  definida aqui como uma ao humana vista em
                                                              termos de seus efeitos na realidade, no mundo. Algumas consi-
                                                              deraes precisam ser feitas aqui.
                                                                Prtica pode materializar-se atuando ao menos de duas ma-
                                                              neiras sobre a realidade:
                                                              a) Transformando, como quando eu coloco aes concretas que
                                                              fazem com que a situao, ou realidade anterior, no seja mais a
                                                              mesma. Isso pode ser feito de duas maneiras diferentes: algum
                                                              mudando a situao ou permitindo que outros mudem essa
                                                              realidade.
                                                         b) No colocando aes, de tal modo que a situao se reproduza.
                                                                                E isso tambni pode dar-se de duas maneiras diferentes: impe-


122
                            123

         diferenciao desses conceitos, pois pode-se refinar muito as
         anlises sociolgicas atravs dessas distines.
            Podemos diferenciar, tambm, entre poder instrumental e
         poder estrutural. Essa distino ser til para as futuras discus-
         ses sobre o estado.
            Poder instrumental  o poder que uma pessoa, ou grupo,
         possui para efetivamente controlar uma variedade de recursos
         que lhes d possibilidade concreta de transformar as relaes
         sociais. Esses recursos seriam os "meios de produo" da prtica
         poltica.
            Poder estrutural o poder que uma pessoa, ou grupo, possui
         de influenciar politicamente de maneira indireta, mesmo que no
         tenha conscincia disso ou no tenha os recursos (instrumentos)
         para transformar as relaes sociais. O exemplo mais comum de
         poder estrutural  a influencia sistemtica das prticas econmi-
         cas do capitalismo sobre a poltica: se o capital investir, ou
         desinvestir, economicamente num pas, isso afetar profunda-
         menteopoderpolticonessepais. mesmoqueoscapitalistasnem
         pensem nisso.  claro que, na maioria das vezes, eles tm
         conscincia disso; essa ao toma-se, ento, um poder instru-
         mental. O poder estrutural  anlogo ao que chamaremos logo
         em seguida de poder sistmico, s no precisa ser intencional.
            Quando se fala de prtica econmica, entende-se facilmente
         que, para conseguir uma transformao, uma mudana, necessi-
         ta-se de algum instrumento: so os meios de produo, a tecno-
         logia. E qual sua eficcia? Depende da produtividade humana e
         tecnolgica.
            Agora: Quais so os "meios de produo" da poltica? E
         quando se tomam eficientes, produtivos?
            Est aqui um segredo importantssimo: os "meios de produ-
         o" da poltica so as organizaes: o estado, os partidos, os
         sindicatos, as associaes de bairro, etc.
            E qual a sua eficcia, sua produtividade? Isso vai depender
         de sua capacidade em mobilizar as pessoas para uma ao
         coletiva, sua capacidade de fazer com que as pessoas se engajem
         na luta, participem das atividades. E aqui residem os mil segredos

                                                        126

         a serem descobertos e postos em ao pelas lideranas e pelos
         grupos organizados. O livro de Lnin
            Que fazer?,  exatamente uma discusso sobre a "produtivi-
         dade poltica" dos diferentes "meios de produo" polticos,
         acessveis  classe trabalhadora. As organizaes tm eficcia
         (produtividade) relativa. E elas podem servir a vrios propsitos,
         pois, assim como um computador pode estar a servio tanto do
         capital como dos sindicatos, assim tambm uma organizao
         pode ser manipulada, para propsitos contraditrios, seno tiver
         conscincia, independncia e autonomia.
            Toda discusso feita sobre a formao de classe, nos captu-
         los V e VI, e a discusso que se far na Terceira parte, ao
         tratarmos da ideologia, tm a ver com essa questo.

         3. Dominao

            Como j acenamos antes, muitos autores equiparam poder
         com dominao. Mas aqui ns fazemos uma distino: poder 
         a capacidade para transformar prticas (poder poltico, capaci-
         dade de transformar relaes sociais); dominao, porm, 
         definida aqui como a distribuio desigual do poder. Mesmo
         numa sociedade igualitria, utpica (comunista), haver poltica
         e poder; mas no haver dominao.
            Dominao , pois, uma maneira de entender a distribuio
         do poder. H dominao, quando uma pessoa (ou grupo) assime-
         tricamente se apodera do poder.
            StevenLukes,70comoj vimos em parte, distingue entre trs
         tipos de poder, que para nossos propsitos seriam trs tipos de
         dominao:
         a) "A" domina "B" quando "A" pode fazer com que "B" realize
         algo, apesar de "B" no querer. Alford e Friedland71 chamam a
         isso de poder situacional, que, na analogia do jogo, seria o poder
         sobre determinadas aes, dentro de um conjunto dado a regras.
          uma dominao numa situao em que atores especficos
         podem ditar, a outros, aes especficas.
     b)     "A" domina "E" quando "A" define um raio de altemativas
                            possiveis a B", dentro das quais "E" livremente escolhe o que
                            fazer (tambm chamado de poder negativo, ou poder de no-de-
         explicitamente. que os estados so aparelhos de dominao de
         classe, mas somente de dominao poltica. Embora se possa
         comprovar que os estados sejam aparelhos de dominao de
         classe, atravs da pesquisa emprica, isso no precisa constar da
         definio mesma de estado. Ao contrrio, deve ser uma propo-
         sio a ser discutida independentemente. A raiz, a base, da
         discusso, est na relao entre poder econmico e poder politi-
         co, e da, da dominao poltica. Mas no est, contudo, logica-
         mente imbricada no conceito mesmo de estado.
            Para o entendimento mais profunq2 dessa entidade, estado,
          til o conceito criado por Birbaum, para analisar o grau de
         integrao do estado, que fala de um conceito melhor, chamara-
         mos de "estatidade~~. Ele mostra que, atravs da histria, os vrios
         estados tiifam diferentes graus de "estatidade'~, tanto  medida
         que a dominao fosse, na realidade, territorialmente centraliza-
         da ou  medida que a dominao fosse politicamente centraliza-
         da. Assim um estado com um alto grau de dominao e alto grau
         de centralizao territorial teria um alto grau de "estatidade". Os
         estados feudais, por exemplo, teriam altos graus de dominao
         descentralizada e relativamente autnoma: os sistemas polticos
         radicalmente democrticos teriam um baixo nvel de dominao.
            Essa discusso toma-se mais e mais importante quando se
         pensa numa genuna democracia, como um princpio social de
         exerccio do poder poltico. Nesses casos, a dominao do estado
         (o grau de "estatidade") tenderia a decrescer mais e mais, ten-
         dendo ao desaparecimento; o estado teria uma funo subsidiria
         a vrias outras organizaes democraticamente organizadas.

          Sociedade civil

            Nessa mesma linha de raciocnio pode-se colocar a discusso
         entre o que  sociedade civil e quais suas relaes com o estado.75
            Sociedade civil  um conceito geralmente empregado para
         designar aquelas instituies que representam aspectos da vida
         social, que possuem relaes estritamente externas com o estado.
         Isso quer dizer que elas existem independentemente, e possuem
         certa autonomia diante do estado; tm seus prprios mecanismos
         de reproduo, mas interagem de muitas maneiras com o estado.
         Exemplos seriam a famlia, as igrejas, as fbricas, etc. Elas se

                                                        130

         constituem independentemente do estado, mas se relacionam
         com ele de vrias maneiras.
            Alguns tericos rejeitam essa dicotoma, e argumentam que,
         devido ao fato de o estado estar presente e ter implicaes na vida
         cotidiana das pessas, na produo, na acumulao, na famlia,
         etc., no h mais razo de se imaginar uma esfera social consti-
         tuda independentemente do estado. Todos os aspectos da vida
         social teriam, ento, relaes internas, intrnsecas com o estado,
         e no poderiam ser analisadas separadamente, como uma esfera
         diferente. Todas seriam,ta expresso de Althusser, "aparelhos
         ideolgicos de Estado".
            Essa posio, contudo, no d suficiente ateno ao fato de
         que todas as relaes e prticas sociais possuem aspectos polti-
         cos; no distingi e oestdo, como um aparelho especfico, das
         outras esferas institcionais, numa determinada sociedade. Par-
         findo das definies de poder e dominao que formulamos
         acima, pode-se dizer qe ao menos a dominao situacional no
          exercida pelo estado em toda e qualquer instituio. Caso o
         estado exercesse todo esse poder-dominao dentro de uma
         sociedade, ele seria, ento, a nica organizao de dominao.
         Teramos o que se poderia chamar de estado totalitrio, que
         penetraria diretamente todas as circunstncias da vida social.
         Como esse no precisa ser necessariamente ocaso, permanecem
         situaes polticas que no esto diretamente subordinadas ao
         estado.  a isso que se poderia chamar de sociedade civil.
            Gramsci distingue entre estado e sociedade civil, e coloca
         como critrio dessa distino central o fato de o estado dominar
         pela fora, coer9, ao passo que a sociedade civil domina pelo
         consenso, pela persuaso. A ao do estado seria a dominao;
         a ao da sociedade civil seria a hegemonia. Mas essas distines
         no so totalmente claras nos escritos de Gramsci.

                                                        131

    Estado: modelo centrado na classe

            Passamos a analisar e discutir, agora, vrias teorias sobre o
         estado.  claro que nessa anlise privilegiamos, isto , selecio-
         namos algumas teorias que nos parecem mais teis para poder-
         mos compreender essa realidade aparentemente simples, mas na
         realidade bastante complexa, que  o estado.
            Nunca  demais ressaltar, uma vez mais, que o objetivo de
         apresentarmos aqui essas diferentes teorias  propiciar pistas,
         instrumental, argumentos, para que cada pessoa, ou grupo, em
         sua realidade concreta, possa compreender a ao do estado. As
         teorias nunca se aplicam exatamente a uma situao particular,
         pois ela  sempre singular, nica, especfica. Mas as teorias
         ajudam a compreender certos aspectos dessa situao particular,
         certas dimenses que podem se repetir e serem comuns. Por isso
         as teorias so sempre, tambm, um desafio:  preciso ver em que
         pontos especficos elas se aplicam a um fato concreto, e no que
         divergem. Elas so sempre um instrumento de ajuda, nunca tm
         valor em si mesmas.
            A maioria dos estudos sobre o estado, que se inspiram na
         tradio marxista, tem como ponto comum que o estado capita-
         lista, de uma maneira ou outra, tende a servir aos interesses da
         classe capitalista. Esta afirmao certamente  bastante geral e
         vaga. E as explicaes das maneiras como isso se d variam
         muito.
            Neste captulo, veremos trs principais enfoques da teoria do
         modelo centrado na classe. Vamos nos deter, depois, na anlise
         de alguns recursos metodolgicos especficos, que foram empre-
         gados, por vrios pesquisadores. para mostrar como se d, em-
         piricamente, a conexo entre o estado e a classe. Finalmente,
         vamos examinaras inmeras contradies que, necessariamente,
         surgem em tais circunstncias.
            Dentro do modelo centrado na classe podemos identificar
         trs enfoques principais: o enfoque instrumentalista, o enfoque
         estruturalista, e o enfoque crtico-ideolgico.
         a) En o ue instrumentalista
            O enfoque instrumentalista procura dar uma resposta clara e
         direta  per4t4nta: Por que o estado serve aos interesses da classe
         dominante?
            E a resposta : ele faz isso porque  controlado pela classe
         capitalista. Ralph Miliband expressa isso de uma maneira bas-
         tante clara. Diz ele:
            "No esquema marxista, a 'classe dominante'  a classe que
         possui e controla os meios de produo e que  capaz de, em
         virtude do poder econmico que possui, usar o estado como seu
                                     , 78
         instrumento para a dominao da sociedade'.
            Da mesma maneira, Paul Sweezy v o estado "como um
         instrumento nas mos da classe dominante para fortalecer e
         garantir a estabilidade da prpria estrutura de classe".79
            William Domhoff,80 em seus trabalhos, tentou mostrar as
         conexes sociais entre as pessoas que ocupam posies no estado
         e a estrutura econmica.
            As contribuies mais importantes das pesquisas dos instru-
         mentalistas foram no sentido de rasgar o vu de legitimidade que
         envolve diversas instituies que, sistematicamente, ligam a
         classe capitalista ao estado. Ajudaram, tambm, a revelar os
         conflitos existentes, dentro da classe capitalista, na luta para a
         conquista do aparelho do estado.
         b) Enfo que estruturalista
            A tese fundamental do enfoque estruturalista  que as fun-
         es do estado so, em sua quase totalidade, determinadas pelas
         estruturas da sociedade, e no pelas pessoas que ocupam as
         posies do poder de

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            O ponto de partida, pois, da anlise estruturalista 
geralmente
        o exame da estrutura de classe da sociedade, particularmente
         das contradis baseadas na economia. Em seguida, analisa
         como o estado tenta neutralizar, ou deslocar, essas contradies.
         Esse enfque procura identificar e denunciar as funes que o
         estado deve desempenhar, em ordem de reproduzir a sociedade
         capitalista como um todo. Essas funes determinam as polticas
         especficas e a organizao do estado. E isso varia de acordo com
         o nvel de desenvolvimento capitalista e as formas de luta de
         classe.
            O modelo mais elaborado do enfoque estruturalista do estado
          o apresentado por ?oulantzas.82 Ele mostra como as funes 1
         do estado capitalista, para promover a unidade de uma fbrmao
         social, tm, de um lado, de atomizar a classe trabalhadora,
         desintegrando sua unidade poltica atravs da transformao dos
         trabalhadores em cidados individualizados: de outro lado, ga-
         rantem os interesses da classe capitalista, apesar de essa classe
         ter diversas faces (blocos de poder). Devido a essas faces, 
         necessrio que o estado tenha uma "relativa autonomia". No
         autonomia diante dos determinantes estruturais da economia,
         mas autonomia diante da manipulao exercida pelos membros,
         ou interesses, de uma classe capitalista especfica.
            Outro autor que se orienta pelo enfoque estruturalista do
         estado, embora no tenha desenvolvido a fundo suas anlises, 
         Louis Althusser.83
         
            Relacionada ao enfoque estruturalista podemos encontrar
         uma tendncia secundria, chamada de "estruturalismo econ-
         mico", onde vrios elementos da anlise e~truturalista so incor-
         poiado~mas as contradies econmicas dominam a anlise do
         estado.
         
         c) Enfo que crtico-ideoltiat  /
            Esse enfoque, em vez de perguntar pelo "porqu" e pelo
         "como" da relao entre estadoeclasse capitalista. secolocanum
         nfvel de abstrao um pouco mais elevado, e pergunta: "O que 
         estado?" E a resposta que traz  que o estado  uma mistiiiao,
         uma instituio concreta que serve aos interesses da classe
         dominante, mas procura apresentar-se como servindo  nao
         toda, obscurecendo, dessa maneira, as linhas bsicas da contra-
         dio de classes. O estado representa uma univer~Sdade. mas uma
         falsa universidade, uma "comunidade ilusria
         
            A maioria das anlises baseadas nessa perspectiva tenta
         examinar como se d essa mistificao, e coloca grande nfase
         na ideologia, conscincia, legitimidade, e no papel de mediao
         da&~stituies e idias. Os primeiros escritos de Marx e En-
         gels, 6 LukcsP e da Escola de Frankfurt, principalmente Ha-
         bermas, se orientam muito por essa perspectiva.
         
            Talvez seja aqui o lugar em que melhor se possa colocar o
         trabalho de Antonio Gramsci, com a exceo de que ele tenta
         evitar uma superabstrao. Gramsci analisou a ideologia capita-
#
         





         lista, tanto terica como prtica, examinando as mudanas cul-
         turais na Itlia e na Amrica e mostrando como levou  mudana
         das relaes de produo. Suas discusses sobre a sociedade civil
         e o estado, com os exemplos concretos do fascismo e o colapso
         dos partidos polticos na Europa entre as duas guerras, mostra
         que sua anlise liga dimenses ideolgicas, com situaes pol-
         tico-econmicas. Atravs de sua anlise dos grupos que apoia-
         vam os interesses da burguesia industrial no norte da Itlia,
         Oramsci desenvolveu a noo de "hegemonia", conceito-chave
         na anlise da dominao capitalista, atravs do estado. Voltare-
         mos a isso na Terceira parte, quando discutiremos a ideologia
         como hegemonia.
         
         Recursos metodolgicos na anlise do estado
         
            Os vrios enfoques que tentam explicar o que , e como age,
         o estado, sofrem, na maioria das vezes, de falta de comprovao
         emprica concreta. Navega-se facilmente por elucubraes, pos-
         sibilidades, hipteses. Mas quando se trata de mostrar, preto no
         branco, como isso se d, as coisas ficam mais difceis.
         
            Houve, contudo, muitos estudiosos que enfrentaram essas
         dificuldades e criaram um instrumental metodolgico que poder
         ser muito til aos grupos populares, e outros, que queiram
         entender as artimanhas que se escondem por trs dessa aparen-
         temente simples instituio. Esses estudos nos ajudam a compro-
         var que o estado pode ser capitalista, e que pode ser dominado
         pela classe capitalista. Procuram, principalmente, ir a fundo na
         
         
         
                          134                                                  135
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         descoberta dos "mecanismos concretos", atravs dos quais o
         estado opera.
         
            Claus Offe88 foi um dos que mais avanou na pesquisa e na
         anlise da estrutura interna do estado capitalista. Sua preocupa-
         o  mostrar que h um estado capitalista, e no apenas um
         estado numa sociedade capitalista. Mostra que tanto a perspec-
         tiva instrumentalista como a estruturalista enfocam apenas de-
         terminaes externas da atividade do estado: os instrumentalistas
         explicam o estado em termos de sua manipulao externa, feita
         pela classe dominante; os estruturalistas o explicam atravs das
         restries e controles intrnos que limitam os objetivos de pos-
         sveis atividades do estado. Mas essas duas perspectivas nor
         chegam at aos mecanismos.
         
            O conceito fundamental discutido por ele  o dos "mecanis-
         mos de seleo". Eles se constituem de um amplo conjunto de
         mecanismos institucionais dentro dos aparelhos do estado, que,
         sob condies normais, desempenham trs funes cruciais:
         
         alfuno de seleo negativa: quando os mecanismos excluem
         sistematicamente interesses anticapitalistas da atividade do esta-
         do;
         b)fitno de seleo positiva: quando entre as vrias alternativas
         polticas possveis so escolhidas as que servem diretamente aos
         interesses dos grupos capitalistas especficos;
         c)fun&o de seleo disfarada: excluem efetivamente alterna-
         tivas anticapitalistas, querendo manter a aparncia de neutralida-
         de de classe.
            Para provar o carter de classe do estado, ele mostra que a
         estrutura do estado  tal, que faz com que certas aes dele se
         tornem impossveis, outras provveis, isto , o estado sistemati-
         camente coloca discriminaes no processo de criao e desen-
         volvimento de suas polticas. A comprovao de que o estado
         possui um carter de classe  tratada na anlise do contedo
         dessas selees.
            Isso aparece bem claro, por exemplo, a partir da apresenta-
         o dos assuntos que o estado coloca  mesa das discusses:
         alguns pontos so excludos j da prpria agenda.
            O mesmo se pode ver no caso das eleies. As leis eleitorais
         so feitas de tal maneira que apenas alguns podem se candidatar:
         
         
         
                                                        136
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         os que j pertencem a alguns partidos. E para a existncia de
         partidos so necessrias inmeras condies, algumas de difcil,
         ou quase impossvel, preenchimento por parte dos grupos popu-
         lares ou classes trabalhadoras; essas condies tomam sua par-
         ticipao praticamente proibitiva.
            A anlise acurada das exigncias dos regimentos parlamen-
         tares mostra como eles so auto-reprodutivos: as clusulas exis-
         tentes impossibilitam a mudana de pontos essenciais, e faz com
         que a classe dominante se reproduza.
            Esses mecanismos de seleo, principalmente o negativo,
         criam ao seu redor uma espcie de "filtros", que s permitem a
         passagem de determinadas polticas ou determinadas prticas.
         Podem ser identificados ao menos quatro desses filtros:
         a) filtros ligados a propriedades estruturais ou constitucionais,
         como a garantia constitucional da propriedade privada, as leis
         eleitorais, etc.;
         b) filtros ideolgicos: o que  definido e colocado como "proble-
         ma" a ser resolvido, e as possveis e aceitveis solues do
         problema.
         c) filtros de procedimentos: aqui se colocam as famosas "priori-
         dades" dos planejamentos, onde iro ser empregados recursos
         pblicos. Esses planejamentos vo incluir projetos que venham
         favorecer a classe capitalista, a curto ou longo prazos, excluindo
         projetos que poderiam beneficiar aos trabalhadores.
         d) filtros repressivos: finalmente, determinadas alternativas so
         excludas atravs da represso direta exercida pelos aparelhos do
         estado.
            A anlise das polticas do estado, dos mecanismos de sele-
         o, assume importncia sempre maior, pois a maioria dos
         estudos, principalmente positivistas, funcionalistas e sistmicos,
         apenas se do ao trabalho de ver o que est a. Porm, no tentam
         ver o que poderia estar ai, mas foi excludo. O difcil  fazer uma
         anlise que nos ajude a descobrir os no-eventossistematicamen-
         te produzidos, isto , as excluses constantes. Isso nos leva, uma
         vez mais,  discusso do que  prtica (ao). E importante ver,
         ento, que a seleo, a excluso, a represso e a omisso, tambm
         so prticas.
         
         
         
         
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            Se, em ltima anlise,  extremamente difcil identificar os
         mecanismos de seleo, pois h uma infinidade de coisas que
         "no acontecem", e para se saber tudo o que "no-acontece" seria
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         necessrio saber tudo o que "poderia acontece?', h, contudo,
         uma situao que  metodologicamente importante, e que nos
         ajuda a progredir nessa descoberta: a anlise dos momentos de
         mudana, de crise. So nesses momentos que a seleo  siste-
         maticamente desafiada, pois neles no mais se discutem as regras
         do jogo, mas o jogo como tal. Assim, as pocas de mudana e de
         crise so as situaes propcias ideais, onde se pode estudar o
         funcionamento normal numa sociedade...
            Goranlherborn,89em sua anlise do estado capitalista, tenta
         montar uma detalhada tipologia de diferentes formas institucio-
         nais (instituies) que variam de acordo com seu carter de
         classe. Ele decodifica a estrutura institucional com a finalidade
         de poder estabelecerprecisamente que caractersticas do origem
         a que efeito de classe. Faz isso atravs da anlise dos aparelhos
         de estado, que so a estrutura institucional pela qual o poder de
         estado  exercido. So os aparelhos que fazem com que os efeitos
         reprodutores de classe se tornem possveis.
            A tese central de Therborn, como alis a de Offe  que esses
         aparelhos possuem um carter de classe especifico.~~
            Ele compara, em sua anlise, quatro tipos de estado: feuda-
         lismo, capitalismo, capitalismo monopolista e socialismo. Mos-
         tra, ento, que a organizao dos aparelhos de estado varia de
         acordo com o tipo de estado. Por exemplo:
            Como o estado consegue sobreviver? Isto , de onde vm
         seus recursos?
            No feudalismo, vinham das terras do rei, prerrogativas, etc.
         No capitalismo, pela taxao da acumulao privada. No capita-
         llsmo monopolista, taxao ainda maior do capital. No socialis-
         mo, tira tais recursos das empresas do estado.
            Comentando: no capitalismo, o estado depende dos impostos
         para sobreviver. Ele ir, ento, evitar polticas que poderiam
         minar essa base. Aqui se pode compreender melhor a luta e o
         enorme interesse que cidades e estados tm em conseguir inves-
         timentos de capital, oferecendo formas diferentes de taxao, etc.
            Um outro exemplo: Qual  o papel do estado, ou qual  a
         relao entre pblico e privado?
            No feudalismo, o pblico  absorvido pelo privado. No
         capitalismo, os dojs so institucionalmente distintos: estado de
         um lado, populao do outro. No capitalismo monopolista h
         expanso maior do pblico e atomizao do privado. No socia-
         lismo, uma politizao bastante acentuada do privado
            Comentando: A institucionalizao de uma esfera privada
         "despolitizada", no capitalismo (onde se colocam os capitalis-
         tas),  essencial para a reproduo dos interesses do capital, pois
         os isola de um possvel assalto por parte da classe trabalhadora.
         Os trabalhadores vo lutar e reivindicar do estado, deixando os
         capitalistas tranqilos, ~ip menos at que s crises venham trazer
         luz esta mistificao.
            As coisas funcionariam muito bem, no fossem as ontradi-
         es. Acontece, porm, que entre capital e trabalho as relaes
#
         





         so contraditrias por deflnio. Partindo-se, pois, de uma teoria
         de estiJoque  liga ao capital, todas as explicae~ vo, por
         conseguinte, trazer consigo essa contradio fundamental entre
         capital e trabalho. Vrios estudos tentaram trazer  tona essas
         contradies.
         a)   Contradio dentro da lgica da acumulao capitalista
            A lgica do capitalismo  acumular,  a busca do lucro
         incessante. Isso leva  anarquia do mercado e  sua autodestrui-
         o. O estado deve, pois, intervir para que o capital no se
         destrua. Quanto mais profundas as contradies, mais necessi-
         dade de autonomia do estado para que ele no sucumba a
         interesses particulares de capitalistas especficos. Essa autono-
         mia do estado faz surgir urna reao contrria da parte do
              92
         capital. Mas, para resistir a essa reao, o estado necessita de
         mais capacidade de interveno. E assim por diante.
            A concluso desse processo pode serresumida em trs teses:
           - Tese funcionalista o estado .funcionalmente requerido
         pelo capital para superar as tendncias autodestrutivas do prprio
         capital.
         
         
         
         
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            - Tese da autonomia - para responder a essa funo, o estado
         deve ter a capcidd de agir disfuncionalmente, isto , ter real
         autonomia de criao de polticas de ao.
            - Tese da contradio - vrias dinmicas so colocadas em
         ao, que fazem com que o estado aja disfuncionalmente.
         b) Contradio na racionalidade administrativa do processo de
         formao de polticas do estado
            H quatro princpios que tomam o estado um estado capita-
         lista:
            - Princpio de excluso - o estado no controla a produo,
         isto , no interfere na acumulao privada nem obriga o capital
         a uma produo no lucrativa (o estado no  capitalista).
            - Princpio de manuteno - o estado necessita manter as
         condies de acumulao: o capitalismo necessita do estado.
            - Princpio de dependncia - o poder de estado depende da
         acumulao capitalista para sobreviver; o estado necessita do
         capital para poder ter recursos, principalmente atravs dos im-
         postos, dos quais ele vive.
            -Qincpio de legitimao - como compatibilizar os trs
#
         





         pnnciptos anteriores? Atravs do princpio da legitimao: o
         estado necessita esconder seu carter capitalista.
            A grande fora do estado est exatamente em seu poder de
         distribuir os recursos que ele extrai atravs dos impostos e atraves
         de polticas qu el desenvolve. O grande problema surge no
         momento em que as empresas capitalistas se negam a produzir
         determinados bens, s vezes absolutamente necessrios para os
         cidados. Esses seriam, em geral, empreendimentos empresa-
         riais que no trariam lucro imediato, ou com poucas perspectivas
         de lucro. Sob presso da populao, o estado dever, ento,
         assumir tambm atividades de produo, e no apenas de distri-
         buio.
            A relao entre os trs princpios citados acima (excluso,
         manutenoedependncia) pode serrompida, passandooestado
         tambm a produzir, isto , rompendo o princpio da excluso e o
         da dependncia, pois passa a conseguir seus recursos tambm da
         produo; ou rompendo o princpio da manuteno, intervindo
         nas discusses de acumulao. Tudo isso pode contribuir para a
         criao das contradies na racionalidade e no processo de
         formao de polticas do estado.
         e) Contradio n processo de legitimao
            Esta contradio pode dar-se em dois nveis:
           - No nvel social
                                                         o,
            James O' Connor'0 desenvolve uma teoria a partir de uma
         situao bastante comum s sociedades capitalistas avanadas,
         onde o estado tem de gastar mais do que arrecada para poder
         manter a paz social e a harmonia, isto , para se legitimar. De um
         lado, necessita, pois, reprimir ou dar uma resposta s necessida-
         des sociais da populao sempre mais carente de assistncia
         social. De ciutro lado, tem de favorecer a acumulao capitalista;
         busca, tambm, sempre mais lucros. Surge uma crise fiscal, que
         d origem  crise social.
            Vrias conseqncias derivam da:
         *  o estado perde seu carter superestrutural, e passa, ele
            mesmo, a se envolver mais no processo de produo e
            acumulao.
         *  As armas da represso, tanto ideolgicas como materiais,
            passam a ser mais usadas.
         *  O estado toma-se um alvo direto e palco de conflitos sociais.
            -No nvel ideolgico
            A teoria crtica que se materializou na assim chamada Escola
         de Frankfurt94 i tambm vrios estudos sobre as contra-
         dies presentes no estado capitalista, principalmente contradi-
         es a nvel ideolgico.
            Para poder continuar a sobreviver e desempenhar suas fun-
         es contraditrias, o estado tem de, sempre de novo, buscar
         explicaes, legitimaes para seus atos. As lutas sociais, greves,
         crises, etc. trazem problemas e avivam as contradies sempre
         presentes. Novas explicaes tm de ser buscadas, algumas
#
         





         concesses tm de ser feitas, alguns "representantes" (governos)
         so trocados, e a mquina estatal continua se sustentando.
            Wolfe formulou um conceito novo para explicar essa funo
         de legitimao ideolgica: alienao poltica. Assim como o
         trabalho alienado  responsvel pela explorao da fora de
         
         
         
                          140                                                  141
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            - Tese da autonomia - para responder a essa funo, o estado
         deve ter a cap'cidd 'de agir disfuncionalmente, isto , ter real
         autonomia de criao de polticas de ao.
            - Tese da contradio - vrias dinmicas so colocadas em
         ao, que fazem com que o estado aja disfuncionalmente.
         b) Contradio na racionalidade administrativa do processo de
         formao de polticas do estado
         lista:
         H quatro princpios que tornam o estado um estado capita-
            - Princpio de excluso7 o estado no controla a produo,
         isto , no interfere na acumulao privada nem obriga o capital
         a uma produo no lucrativa (o estado no E capitalista).
            - Princpio de manuteno - o estado necessita manter as
         condies de acumulao: o capitalismo necessita do estado.
            - Princpio de dependncia - o poder de estado depende da
         acumulao capitalista para sobreviver; o estado necessita do
         capital para poder ter recursos, principalmente atravs dos im-
         postos, dos quais' ele vive.
            - Princpio de legitimao - como compatibilizar os trs
         princpis anteriores? Atravs do princpio da legitimao: o
         estado necessita esconder seu carter capitalista.
            A grande fora do estado est exatamente em seu poder de
         distribuiros recursosqueele extrai atravs dos imposto5 atravs
         de polticas que ele desenvolve. O grande problema surge no
         momento em que as empresas capitalistas se negam a produzir
         determinados bens, s vezes absolutamente necessrios para os
         cidados. Esses seriam, em geral, empreendimentos empresa-
         riais que no trariam lucro imediato, ou com poucas perspectivas
         de lucro. Sob presso da populao, o estado dever, ento,
         assumir tambm atividades de produo, e no apenas de distri-
         buio.
            A relao entre os trs princpios citados acima (excluso,
         manuteno e dependncia) pode ser rompida, passando o estado
         tambm a produzir, isto , rompendo o princpio da excluso e o
         da dependncia, pois passa a conseguir seus recursos tambm da
         produo; ou rompendo o princpio da manuteno, intervindo
         nas discusses de acumulao. Tudo isso pode contribuir para a
         criao das contradies na racionalidade e no processo de
         formao de polticas do estado.
         c) Contradio no processo de legitimao
            Esta contradio pode dar-se em dois nveis:
           - No nvel social93.
            James O' Connor desenvolve uma teoria a partir de uma
         situao bastante comum s sociedades capitalistas avanadas,
         onde o estado tem de gastar mais do que arrecada para poder
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         manter a paz social e a harmonia, isto , para se legitimar. De um
         lado, necessita, pois, reprimir ou dar uma resposta s necessida-
         des sociais da populao sempre mais carente de assistncia
         social. De dutro lado, tem de favorecer a acumulao capitalista;
         busca, tambm, sempre mais lucros. Surge uma crise fiscal, que
         d origem  crise social.
            Vrias conseqncias derivam da:
         *  o estado perde seu carter superestrutural, e passa, ele
            mesmo, a se envolver mais no processo de produo e
            acumulao.
         *  As armas da represso, tanto ideolgicas como materiais,
            passam a ser mais usadas.
         *  O estado toma-se um alvo direto e palco de conflitos sociais.
         
           - No nvel ideolgico
            A teoria crtica que se materializou na assim chamada Escola
         de Frankfurt94 produziu tambm vrios estudos sobre as contra-
         dies presentes no estado capitalista, principalmente contradi-
         es a nvel ideolgico.
            Para poder continuar a sobreviver e desempenhar suas fun-
         es contraditrias, o estado tem de, sempre de novo, buscar
         explicaes, legitimaes para seus atos. As lutas sociais, greves,
         crises, etc. trazem problemas e avivam as contradies sempre
         presentes. Novas explicaes tm de ser buscadas, algumas
         concesses tm de ser feitas, alguns "representantes" (governos)
         so trocados, e a mquina estatal continua se sustentando.
            Wolfe formulou um conceito novo para explicar essa funo
         de legitimao ideolgica: alienao poltica. Assim como o
         trabalho alienado  responsvel pela explorao da fora de
         
         
         
                          140                                                  141
         
         
         
         
         
         
         trabalho e criao da mais-valia econmica, assim tambm a
         alienao poltica  responsvel pela "manuteno do sistema
         poltico baseado na extra~o poder do povo e na imposio
         desse poder sobre o povo". Essa extrao de poder envolve
         mecanismos pelos quais as pessoas e comunidades so divididas
         entre si, atravs da divulgao de ideologias baseadas na com-
         petio, individualismo, atomismo, etc. Implica, ao mesmo tem-
         po, mecanismos pelos quais esse poder expropriado  usado
         contra o povo, como no caso da represso, tanto fsica como
         moral. \'
            Devido s contnuas transformaes das condies de acu-
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         mulao e  contnua luta de classe para a consecuo de uma
         verdadeira democracia, nenhuma forma de controle, fsico ou
         ideolgico, consegue resolver permanentemente a questo da
         legitimao do estado capitalista: cada soluo, tentada histori-
         camente, s pode levar a novas formas de crise de legitimao.
                                           IX - Modelo centrado no estado
         
         
         
         
            Iniciamos este captulo com a teoria do modelo centrado no
         estado. Num apng~ce final, examinamos a tentativa feita por
         Alford e Friedland de montar uma sntese global incorporando
         diferentes teorias na anlise do estado.
            At h no muito tempo, a teoria do estado centrado na classe
         era perversiva e dominante, dentro da tradio marxista. Os
         debates se faziam mais na determinao da maneira mais apro-
         priada de especificar os mecanismos centrais dessa determinao
         da classe no estado.
            Nos anos mais recentes, contudo, essa discusso mudou
         muito. As explicaes da forma e atividades do estado centradas
         na classe esto certamente na defensiva. Pode-se at arriscar a
         afirmao de que h atualmente uma quase unanimidade na
         aceitao de que tanto a estrutura como as aes do estado no
         podem ser explicadas exclusivamente em termos de classe. Uma
         explicao completa do estado - quase todos concordam - deve
         incorporar a anlise de mecanismos "centrados no estado", que
         no so puramente redutveis  classe.
            Essa quase unanimidade em rejeitar as explicaes reducio-
         nistas de classe no significa, porm, que haja um acordo sobre
         a melhor maneira de lidar como problema da interconexo entre
         os mecanismos centrados na classe e no estado, na explicao
         das estruturas e aes de estado. Alguns dizem que esta interco-
         nexo  contingente, dependendo de fatores histricos especfi-
         cos. Outros, que ainda h uma primazia dos determinantes
         centrados na classe, mas os efeitos centrados no estado so reais
         143
         142
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         e irredutveis  classe. Outros, ainda, que h uma primazia dos
         determinantes centrados no estado, impondo limites sobre os
         efeitos dos fatores de classe: os determinantes de classe conser-
         vam efetividade e autonomia; seus efeitos, porm, so condicio-
         nados pelos determinantes centrados no estado.
            Os que defendem a teoria dos modelos centrados no estado97
         se apiam, em geral, em duas teses principais:
         a) o estado possui interesses distintos, interesses irredutveis a
         interesses de classe;
         b) o estado possui capacidades distintas, devido a suas proprie-
         dades organizacionais e seu poder repressivo.
            Tomados conjuntamente, esses interesses e capacidades dis-
         tintos do ao estado um tipo especial de autonomia.98 Essa
         autonomia est fundamentada no poder e nos projetos do estado
         como tal, e ento, ao menos potencialmente, pode agir contra os
         interesses da classe capitalista.
            Estas duas teses deixam um espao bastante amplo para se
         discutir as interco~exes entre os fatores centrados no estado e
         na classe. Wright distingue trs diferentes posies, que ele
         chama de verso moderna, verso radical e verso intermdia.
         Ele argumenta que, apesar de no estarem explcitas nos trabal-
         hos dos autores, podem ser identificadas implicitamente.
         
         1. Verso moderada
         
            Vrios fatores polticos, centrados no estado, so irredutveis
         a fatores de classe, e tm conseqncias importantes em vrios
         acontecimentos, como poltica de estado, mudanas sociais, etc.
         No  possvel uma explicao completa que no inclua esses
         fatores, mas no h uma presuno terica de que tenham prima-
         zia sobre outras causas, numa circunstncia em que somente dois
         tipos de varivel esto sob considerao, como por exemplo:
         a) fatores centrados no estado, como o grau de centralizao
         Burocrtica;
         b) fatores centrados na classe, como estrutura ou coalizes de
         classe, interesses de agentes classistas, propriedades organiza-
         cionais e instituies baseadas em classe, etc.
            Em tal caso, essa verso defende a posio de que no 
         possvel uma explicao completa do resultado dessas polticas
         sem referncia a fatores centrados no estado. Estes nunca sero
         suficientes, por si ss, para explicar as polticas do estado.
            Segundo Wright, essa verso poderia ser consistente com um
         modelo baseado na classe se fossem os fatores estruturais de
         classe que limitassem os resultados e os fatores ligados ao estado
         apenas selecionassem esses efeitos-resultados.
#
         





         
         2. Verso radical
         
            Esta verso argumenta que os fatores centrados no estado
         no so apenas irredutveis a fatores de classe, mas em geral so
         os determinantes mais importantes das diferenciaes nos resul-
         tados polticos.
            Os efeitos de classe, no campo poltico, geralmente tm
         importncia ocasional e secundria. E so, praticamente em
         todos os casos, fortemente mediados por processos polticos
         independentes. So os determinantes polticos que colocam limi-
         tes nas polticas do estado.
         3. Verso intermdia
         ~3/4
            Para esta verso, os fatores centrados ou no estado ou na
         classe teriam peso explicativo somente num nvel mais baixo de
         abstrao. Ela afirma que so os fatores histrico-conjunturais
         os que influenciam e medeiam tanto os fatores de classe como
         de estado. O que determinaria a importncia maior ou menor da
         classe, ou do estado, seriam os fatores histricos.
            Em certo sentido, a verso historicizada do modelo centrado
         no estado  bastante atrativa, pois deixa aberta a questo do peso
         relativo dos fatores estado ou classe e coloca um desafio para a
         pesquisa emprica concreta: verificar se os resultados so deter-
         minados por um ou por outro.
         
         4. Problema: qual  a dinmica interna do estado?
         
            H uma objeo sria ao modelo centrado no estado, que
         pode ser resumida assim:
         
         
         
                          144                                                   145
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            Embora o estado possa ter uma base autnoma de poder
         (controle sobre um territrio, aparemos repressivos, etc.), e os
         administradores do estado possam ter interesses ao menos par-
         cialmente autnomos, o estado no possui nenhuma dinmica
         interna e sistemtica de desenvolvimento. Bem ao contrrio das
         estruturas de classes, que se baseiam nas relaes antagnicas e
         assimtricas de dominao e explorao. Isso significa que, em
         termos de anlise dos efeitos histricos gerais, as estruturas de
         classe levam enorme vantagem.
            Os defensores da teoria centrada no estado dizem que tal
         dinmica existe:  o sistema geopoltico interestadual que forne-
         ce a lgica dinmica para a formao e construo do estado. As
         funes da guerra se comparam  competio capitalista, e a
         construo do estado,  acumulao. Juntas, elas forneceriam
         uma dinmica prpria aos fatores centrados no estado,juntamen-
         te com suas bases prprias de poder.
            Poder-se-ia perguntar: Possuem os administradores do esta-
         do interesses polticos especficos na guerra? Existiria essa po-
         derosa dinmica interestatal de competio, conquista de
         territrio, etc.?
            O que se percebe, ao menos pela constatao emprica,  que
         tanto o militarismo como a expanso territorial so motivados
         mais sistematicamente por imperativos econmicos do que por
         motivos unicamente territoriais, geogrficos:  o imserialisrno a
         fora motora sistmica que existe por trs das guerras. Ocasio-
         nalmente, a dinmica geopoltica poder ser preponderante, mas
         no poderia, de maneira alguma, generalizar tal hiptese.
         
         Concluso
         
            O debate sobre o modelo centrado no estado est em plena
         atualidade, e talvez a verso historicizada (intermdia) seja a
         mais apropriada como orientao de pesquisa, pois deixa a porta
         aberta s vrias possibilidades. Acontece, contudo, que em geral:
         a) As polticas que o estado persegue so fortemente matizadas
         por interesses de classe em seus aspectos instrumentais: os
         agentes de classe intervm na formao dessas polticas, direta
         e indiretamente.
         
         
         
         
                                                        146
         b) As estruturas de estado incorporam, de fato, mecanismos
         seletivos especficos de uma determinada classe; estes carregam
#
         





         consigo discriminaes de classe, nos processos de formao
         dessas polticas.
         c) Os interesses dos administradores do estado os levam, como
         regra geral, a cortejar os membros da classe economicamente
         dominante de tal modo que somente diante de circunstncias
         muito excepcionais esses administradores tentariam contrariar o
         poder e os interesses dessa classe.
         d) Ocasionalmente, conflitos de classe escolhero, como objeto
         de luta, as estruturas de estado, modelando os contet~dos e formas
         bsicas dessas estruturas e mecanismos.
         
         Apndice - Uma grande sntese?
         
            Houve, ultimamente, uma tetfl~~tiva de sintetizar as princi-
         pais teorias que tratam do estado: teoria pluralista, a webe-
         riana (administrativa) e a marxista.10
            Essa tentativa de sntese trabalha, na anlise do estado, com
         trs perspectivas tericas amplas: a teoria pluralista, a teoria
         administrativa e a teoria de classe, Cada uma dessas perspectivas
         tdricas emprega, nas explanaes, seu potencial terico de
         anlise particular, especfico, onde ela mais poderia "explicar".
         A essa forma mais prxima e particular de poder de anlise, eles
                              102
         chamaram de "poder domstico
            Nessa perspectiva, a teoria de classe analisaria o poder
         sistmico a nvel da sociedade como um todo. A teoria adminis-
         trativa analisaria o poder institucional (organizacional), a nvel
         das organizaes. E a teoria pluralista analisaria o poder situa-
         cional, a nvel dos indivduos. Alm disso, cada uma dessas
         teorias tambm se centraria num tipo particular de processo
         causal: a teoria de classe, nos fatores econmicos; a teoria
         administrativa, nos fatores polticos; e a teoria pluralista, nos
         fatores culturais, psicolgicos.
            Cada nia dssas perspectivas, conforme a proposta, teria
         mais poder e mais coerncia em seu domnio "domstico",
         especfico. O que muitas vezes acontecia, porm, era que algu-
         mas se lanavam a teorizar os outros nveis de anlise, e, com
         
         
         
                                                        147
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         isso, por no possurem os conceitos e instrumental apropriados
         para esses nveis, produziam explicaes parciais e insatisfat-
         nas.
         Alguns comentrios sobre a sntese
                103
            Wright, ao discutir essa proposta de sntese, argumenta
         qu$ttffo apresentada pelos autores,  possvel descobrir nela
         elementos bsicos para um referencial terico que se reduz a um
         modelo de primazia da classe, dentro do qual, fatores centrados
         nos estados podem ter ainda efeitos autnomos. E argumenta a
         favor disso a partir dos prprios autores.
            Segundo Wright, o esquema dos autores de baseia em duas
         teses principais:
         a) Qs trs "nveis" de anlise sociolgica (individual, organiza-
         cional e societal) podem ser ordenados numa espcie de hierar-
         quia causal, em que o nvel societal impe limites aos nveis
         organizacional e individual; e o organizacional impe limites ao
         nvel individual. Os prprios autores fazem entender isso expli-
         citamente:
            "Nossa posio  que interesses individuais, motivaes e
         percepes nunca podem explicar adequadamente o comporta-
         mento individual. Tanto o nvel de anlise organizacional como
         o societal devem ser tomados em conta na explicao das varia-
         es do grau de comportamento individual, que ocorrem em
         diferentes tipos de situao. Mas o contrrio no  possvel - no
         se podem explicar os processos organizacionais e societais com
         as teorias de comportamento individual ou de interao social.
         Nem as relaes og~pnizacionais podem explicara totalidade das
         relaes socias
         t' Dentro de cada nvel de anlise (societal, organizacional,
         individual), diferentes processos causais possuem primazia ex-
         planatria, conforme especificados individualmente pelos trs
         paradigmas. Dentro do nvel societal, os fatores econmicos,
         como especificados dentro da perspectiva de classe, impem os
         limites bsicos de variao nos outros processos societrios.
         Dentro do nvel organizacional, os fatores polticos impem
         esses limites bsicos. E dentro do nvel individual, os fatores
         culturais impem os limites centrais.
         
         
         
         
                                                        148
            Se essas duas teses forem aceitas, ento os processos centra-
         dos na classe possuem uma primazia na teoria geral da poltica
         e do estado, pois fatores de classe possuem uma primazia expla-
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         natria dentro do nvel societal de anlise, e os mecanismos
         societais impem limites bsicos de possibilidades aos nveis
         organizacional e individual. Seria uma soluo elegante e origi-
         nal ao problema de mapear abstratamente a interconexo entre
         classe e estado.
            O nome que Wright d a esse modelo  de "modelo de
         mediao sistmica de classe", pois os fatores de classe no
         impem diretamente limites nos processos individual e organi-
         zacional. Antes, o nvel societal de anlise, ou, no dizer dos
         autores, a anlise do poder sistmico, impe limites nos proces-
         sos causais que operam nos nveis "inferiores" de anlise. A
         classe assume sua primazia em virtude de sua primazia dentro
         do prprio nvel societal de anlise, e no devido a alguma
         primazia causal direta sobre os mecanismos organizacional ou
         individual. E esse carter de mediao dos efeitos de classe que
         faz esse esquema consistente com a tese geral de quase todos os
         tericos, de que os mecanismos centrados no estado - os aspectos
         polticos do nvel organizacional de anlise, segundo os autores
         - possuem certo grau de autonomia e eficcia.
            Nesse sentido, esse modelo d ao estado uma autonomia
         causal maior do que no modelo centrado no estado (a verso
         moderada), pois, dentro do nvel organizacional de anlise, ele
         afirma a primazia causal dos processos polticos. O nvel orga-
         nizacional  o nvel de anlise em que a maioria dos processos
         propostos pelos tericos do modelo centrado no estado so
         estudados: processos de tomada de deciso organizacional, Lgi-
         ca burocrtica, capacidades estruturais dos aparelhos do estado,
         mecanismos de recrutamento profissional, etc. Embora, pois,
         esse modelo de teoria do estado endosse um tipo de primazia de
         mediao sistmica de classe, ele tambm apresenta argumentos
         e fortes razes para a agenda de pesquisa adotada pelos tericos
         do modelo centrado no estado,
         
            Algumas objees podem ser levadas contra esse modelo de
         mediao sistmica da classe.
         
         
         
         
         
                                                        149
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            Alguns, por exemplo, rejeitariam a hierarquia dos nveis, no
         aceitando a argumentao de que o societal impe limites ao
         organizacional e ao individual, no eitando, com isso, que o
         todo (a sociedade) imponha limites sobre as partes (os processos
         organizacional e individual). Dentro dos que objetariam, esta-
         riam os que dv&sndem o que se chama de "individualismo
         metodolgico". A sociedade, para eles, no  nada mais do
         que as aes e interaes dos indivduos. A discusso passa,
         ento, ao campo da filosofia da cincia, e passa a ser a discusso
         sobre a hierarquia das explicaes causais.
         
            Outra objeo poderia ser a de que, mesmo aceitando a
         hierarquia de causas, no seria necessrio aceitar tambm que a
         classe e/ou os processos econmicos tenham primazia causal
         dentro do nvel societal de anlise.
         
            Essa  aposio deAnthony Giddens.1~ argumentaque,
         a nvel societal de anlise, h duas fontes principais de poder,
         implicadas na reproduo dos sistemas sociais:
         a) poder baseado no que ele chama de "recursos alocativos", isto
         , recursos que modelam a capacidade de controlar e transformar
         a natureza;
         b) recursos "autoritrios", isto , recursos que modelam a capa-
         cidade das pessoas de controlar e transformar a atividade huma-
         na.
            Para ele, os recursos alocativos no possuem nenhuma pri-
         mazia na "constituio da sociedade e na explicao da mudana
         social". Ao nvel societal de anlise, as relaes sociais ligadas
         a recursos alocativos e autoritrios co-determinam os limites
         sistmicos bsicos da ao organizacional ou individual: aqui
         no h primazia.
            A resposta que se poderia dar a Giddens  esta: mesmo que
         no se d s classes uma primazia explanatria, deve-se dar a
         elas certo tipo de primazia dinmica. Assim, as relaes de classe
         ligadas a recursos alocativos diferem das relaes polticas dos
         recursos autoritrios, no sentido fundamental deque as relaes
         de classe possuem um mecanismo endgeno de transformao,
         ao passo que as relaes polticas no possuem. E a mesma crtica
         que se faz  verso radical do modelo centrado no estado.
         
         
         
         
                                                        150
            A concluso geral a que se chega : toma-se difcil separar
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         o estado da classe, principalmente nas sociedades capitalistas,
         pois  dos capitalistas (da produo) que o estado retira seus
         recursos, principalmente fiscais, para sobreviver:  por isso que
         ele  to dependente da acumulao do capital privado, e seu
         desenvolvimento interno, como seus projetos,  profundamente
         limitado pela existncia das relaes capitalistas de propriedade.
                                                        151
         , na determinao do porque as pessoas se organizam em grupos
         diferentes.
            Para se compreender por que as pessoas votam  necessrio,
         pois, compreender a lgica e a dinmica das estruturas sociais
         dentro das quais esta atividade se d. Uma teoria do comporta-
         mento eleitoral  uma teoria das maneiras em que as estruturas
         sociais modelam e determinam as aes possveis de partidos e
         de pessoas, e como essas aes, por sua vez, reestruturam essas
         determinaes em eleies subseqentes.
            A estratgia mais acertada para lidar com esse problema
         parece ser tentar identificar as complexas condies econmico-
         polticas, dentro das quais se processa uma integrao.
            - Condies econmicas - a explorao  condio neces-
         sria para se consguir qualquer objetivo a curto prazo, dentro
         do capitalismo.
            - Condies polticas - a democracia burguesa contm um
         mecanismo de retribuio da mais-valia j extrada, e os trabal-
         hadores, como cidados, podem receber de volta parte de sua
         explorao.
            - Condies ideolgicas - os interesses burgueses sempre
         juntam interesses imediatos e fundamentais, e colocam a concre-
         tizao desses interesses como pr-condio de todo o resto: seus
         interesses se tomam ''universais''.
         b) Os dilemas de um partido de base trabalhadora
            Dentro das condies estruturais de uma sociedade capita-
         lista, trs dilemas se colocam, de maneira contraditria, aos
         partidos de trabalhadores, ou baseados na classe trabalhadora. A
         escolha  contraditria, pois no h outra alternativa possvel:
            - Primeiro dilema: Participar, ou no, das instituies pol-
         ticas burguesas.
            Numa sociedade capitalista,  somente atravs da participa-
         o nesse processo poltico que se pode recuperar parte da
         explorao. A busca de interesses imediatos e de curto prazo
         fora a participao da poltica, correndo sempre o risco de
         perder, ou enfraquecer, interesses fundamentais de longo prazo.
            Se um partido opta por se manter fora, ele est optando por
         no interferir em assuntos imediatos e possveis, e com isso se
         
         
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                                                        156
         marginaliza. O fato de participar, contudo, pode neutralizar
         conseqncias malignas imediatas, como por exemplo:
         *  Pode neutralizar leis que atinjam os interesses dos trabalha-
            dores.
         
         *  Os parlamentares conseguem iseno e privilgios parla-
            mentares, e podem, com isso, colocar-se numa situao
            melhor para defender os trabalhadores em ocasies de risco.
            Por outro lado, para ganhar as eleies, os candidatos tm de
            fazer promessas que, muitas vezes, no podem cumprir.
            Uma vez dentro, tm de negociar com outros partidos, cor-
            rendo at o risco da cooptao. Mas no entrando, as orga-
            nizaes de trabalhadores correm o risco de completa
            marginalizao.
         
            - Segundo dilema: Uma vez decidida a participao, o
         dilema  procurar, ou no, alianas com outros partidos (classes).
            O ncleo central de trabalhadores de um determinado partido
         - as pessoas ligadas ao trabalho manual no setor produtivo, por
         exemplo - no  geralmente a maioria da populao de um pais.
         Isso faz com que o partido tenha de fazer apelos e alianas com
         outros partidos (classes), se quiser vencer as eleies. Essas
         alianas, se por um lado vo trazer mais votos, por outro lado
         vo desgostar a classe trabalhadora (o ncleo central), fazendo
         com que retire, s vezes, seu apoio incondicional. O dilema :
         como conseguir vencer sem diluir o partido."5
            - Terceiro dilema: Uma vez no poder, caminhar por mudan-
         as estruturais (reformas revolucionrias) ou reformas que forti-
         fiquem o capitalismo?
            Falar desse dilema  falar das estratgias dos governos
         socialistas, mais do que da poltica eleitoral. Estamos aqui numa
         instncia em que os partidos de trabalhadores j decidiram dar
         os dois primeiros passos: entrar no processo eleitoral e fazer
         determinadas alianas para chegar ao poder. Supomos que te-
         nham chegado a alguma instncia de poder: municipal, estadual
         ou federal.
            Tentaremos, pois, fazer aqui uma sntese do que se tentou
         principalmente nos primeiros trinta anos, como alternativas so-
         cialistas, em vrias partes do mundo. Afinal, se discutimos tanto
         
         
         
                                                        157
         
         
         o estado como as teorias que tentam compreende-lo, em parte 
         porque queremos tambm ver a possibilidade de mudana do
         estado capitalista e de implantao de um modelo socialista.
         c) Modelos polticos socialistas (ltimos trinta anos)
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         No mapa poltico socialista, a partir do final dos anos ses-
         senta at hoje, podem-se identificar quatro modelos estratgicos:
         trs com experincias concretas e um em seus primrdios (trata-
         remos o ltimo sob a letra e).
           Modelo socialdemocrtico
            A socialdemocracia  um estado da sociedade capitalista,
         no um estado capitalista. H limites, nas polticas por ele
         adotadas, que provem da natureza capitalista da economia, mas
         no da forma de estado como tal.
            Implicaes principais de tal modelo:
            - Estratgias eleitorais para colocar pessoas com idias,
         motivaes e objetivos socialistas em posies de poder.
            - Fazer reformas econmicas estruturais que respondam s
         conseqncias negativas do capitalismo. Exemplo de um proble-
         ma negativo seria o "estado assistencial" (welfare state).
            - Reformar progressivamente a prpria estrutura capitalista,
         de tal modo que as presses contra polticas socialistas sejam
         subvertidas: co-participao dos trabalha-dores, nacionaliza-
         es, etc.
            At que ponto uma sociedade pode se tornar socialista,  um
         assunto contingente e pragmtico: os limites de possibilidade no
         podem ser conhecidos de antemo.
           Modelo leninista
            A forma de estado no tem contradies sistemticas, mas
         tem efeitos de classe sistmicos, isto , reproduz a dominao da
         classe dominante.
             um estado capitalista mais monoliticamente capitalista. Os
         limites de compatibilidade funcional e de possibilidade estrutural
         se fundem.116
            Implicaes principais:
            - A escolha de pessoas para os aparelhos do estado no  to
         importante, com exceo, talvez, para tomar as aes do estado
         
         
                                                        158
         1
         "neutras", em condies de crise. Assim, por exemplo, se h
         comunistas no exrcito ou na polcia, eles se responsabilizariam,
         e o estado aparentaria neutralidade.
            - Reformas estruturais que tratam de aspectos externos
         negativos do capitalismo so bem-vindas, mas elas tm de ser
         conseguidas atravs da luta, no atravs da iniciativa do estado.
         Caso contrrio, elas simplesmente mistificariam o carter de
         classe do estado. Vitrias das classes populares devem ser vistas
         e apresentadas como derrotas da burguesia.
            -  impossvel subverter o poder da burguesia atravs da
         iniciativa do estado, porque o aparato estatal  estruturado de tal
         modo que ele mesmo ocuparia o lugar da burguesia e reproduzi-
         ria a dominao, excluindo reformas radicais.
            - Reformas na estrutura do estado so, pois, cruciais, mas
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         impossveis de se conseguir, desde que o poder da burguesia
         permanea intacto. E esse poder ficar intacto at que a estrutura
         de estado fique intacta. Resultado:  necessrio um ataque ao
         aparelho de estado que leve  destruio desta estrutura.
           Modelo socialista democrtico
            A forma de estado tem efeitos de classe sistmicos, mas eles
         so contraditrios. E um estado capitalista, mas a unidade mo-
         noltica desse estado  sempre problemtica, nunca dada uma vez
         por todas. Os limites de compatibilidade funcional e de possibi-
         lidade estrutural so distintos, e no precisam coincidir.
            Dois tipos de contradio, no estado capitalista, abrem as
         portas para reformas radicais, isto , reformas do estado que
         minam as funes reprodutivas do prprio estado:
            - Contradies entre as funes de legitimao - que criam
         a crena na justia e legitimidade tanto do estado como da ordem
         social geral - e de acumulao - aes que expandem e repro-
         duzem as condies de acumulao lucrativa, como apoio 
         infra-estrutura, educao e comrcio.
            - Contradies entre a forma do estado, que  fixa, e suas
         funes que variam.
            Essas contradies podem, potencialmente, criar pontos de
         penetrao para mudanas mais profundas; o problema  saber
         
         
         
         
                                                        159
         
         
         
         
         
         
         como efetivamente us-las, e o grande perigo  que o prprio uso
         de tais oportunidades muitas vezes as inviabiliza.
            Implicaes:
            - A escolha de pessoas pode interessarem certas circunstfln-
         cias. Por exemplo: onde reformas estruturais do estado mesmo
         tomam-se possveis.
            - Reformas que mudem os efeitos negativos do capitalismo
         so desejveis, mas a diferena com o modelo leninista  que a
         forma de administrar tais conquistas (no apenas o processo de
         consegui-las) , ela tambm, objeto da luta, e abre assim possi-
         bilidades para reformas radicais. Exemplo: a luta pela moradia,
         mas as casas so planejadas e construdas por cooperativas
         comunitrias.
            - Como no modelo leninista, reconhece-se que o poder da
         burguesia permanece, em parte, na estrutura do estado, pois 
         constitutivo deste poder; mas no se aceita que a forma do estado
         seja imutvel. So possveis reformas estruturais que minem o
#
         





         poder da burguesia dentro do estado, e possibilitem, do mesmo
         modo, sua eroso social, levando a reformas radicais, que am-
         pliem os limites de alternativas histricas possveis.
            - O ponto crucial da luta de classe poltica se d ao redor da
         forma do estado, e vitrias dessas lutas so possveis tambm em
         sociedades capitalistas. Em outras palavras, esta  uma estratgia
         dupla de poder: centro do estado e contr o estado.
           Comentrio: Ruptura ou reforma gradual?
            Antes de passar adiante,  interessante discutir um ponto
         importante a respeito desses trs modelos:
            A diferena crtica entre o modelo leninista e o modelo
         socialdemocrata est na questo da necessidade de uma ruptura
         qualitativa com as instituies capitalistas: os socialdemocratas
         acreditam que essa ruptura no seria necessria, podendo-se,
         pois, adotar um caminho gradual para o socialismo. Os leninistas,
         em que uma mudana qualitativa  essencial: a expresso "es-
         magar o estado" significa exatamente essa ruptura.
            A estratgia do modelo socialista democrtico  ambgua,
         nessa questo da ruptura. E essa ambigidade se baseia no
         entendimento de que a forma de estado impe limites contradi-
         trios. no monolticos. A questo agora  saber como so
         contraditrios: Eles so contraditrios ao ponto de conter a
         possibilidade de dissoluo do prprio estado, gerada interna-
         mente? Ou eles so contraditrios dentro dos limites mais am-
         plos, que conseguem impor, monoliticamente, um limite de
         classe nas atividades do estado?
            Aresposta mais comum, nessa discusso,  reconhecer ainda
         a eventual necessidade de uma ruptura qualitativa, mas assegurar
         que as pr-condies de tal ruptura podem acontecer dentro dos
         prprios aparelhos de est~ido (na realidade devem acontecer ali);
         e que por ocasio da ruptura, muitas das formas institucionais
         necessrias para uma nova estrutura de estado, com novos limi-
         tes, j estejam asseguradas e estabelecidas. Haveria entao uma
         combinao da tese gradualista com a tese da ruptura. Mas a
         lgica e a estrutura de tal ruptura permanecem ainda sem espe-
         cificao. e isso pode gerar crticas, como veremos a seguir.
           Crtica ao modelo socialista democrtico
            A crtica principal feita a esse modelo  a ingenuidade quanto
         ao problema da represso. Sendo que a burguesia nao e estupida
         e aprende dahistria, sede fato tais reformas radicais comearem
         a acontecer em alguma ocasio e comearem a minar a base do
         seu poder de classe (isto , a reproduo da dominao de classe)
         no estado, certamente a burguesia, ela mesma, vai destruir seu
         prprio aparelho de estado. Antes que se chegue a uma mudana
         radical, a burguesia comear a colocar em ao, e a sabotar,
         projetos de mudana, $avs~ por exemplo, da fuga de capital,
         de investimentos, etc. O poder do capital, externo ao estado,
         mina a reproduo do prprio estado. Assim, pois, mesmo que
         reformas radicais do estado fossem possveis em princpio (sen-
         do que isso  geralmente negado tambm), na prtica isso sim-
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         plesmente precipitaria o colapso do estado burgus.
            Poder-se-ia responder a essa crtica dizendo que, se essa
         terceira via  possvel, ento um projeto socialista  tambm
         impossvel. Pode ser um caminho improvvel, mas  o nico
         imaginvel. No h condies de um assalto armado ao estado
         nos dias de hoje, tendo-se em considerao as condies concre-
         tas do capitalismo e do estado capitalista de nossos dias.
                                                             161
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            Os crticos dessa teoria dizem que h uma sada, e essa sada
          a guerra (civil), que seria o processo de desintegrao do
         aparelho de estado. Desse modo, os socialistas deveriam estar
         preparados pp~ tomar o poder de estado, aps uma guerca
         generalizada. Se eles no prepararem as condies para tal
         tomada agora, eles no tero capacidade de ao quando chegar
         o momento decisivo. Isso poder ser uma perspectiva que espan-
         te, mas para esses analistas  o nico futuro possvel dentro do
         qual o socialismo poder tornar-se uma possibilidade real.
         d) Comportamento dos partidos nos trs modelos
            Os trs modelos que foram discutidos acima tambm tm
         implicaes importantes no que se refere  reforma de organiza-
         o poltica, que eles adotam para sua luta contra o capitalismo.
            Os partidos socialdemocratas assumem tipicamente a forma
         de aparelhos partidrios convencionais de representao parla-
         mentar (partidos polticos normais), com a importante diferena
         dos partidos burgueses, no fato de eles estarem, em geral, inti-
         mamente ligados a movimentos sindicais.
            Os partidos leninistas, por outra parte, tomam, em princpio,
         a forma de partidos de vanguarda, partidos de revolucionrios
         profissionais, organizados como quadros, de uma maneira forte-
         mente estruturada e coordenada, mas no recrutando "massas"
         (a populao em geral).
            Os partidos do modelo socialista democrtico no tm uma
         teoria coerentemente estruturada com respeito aos partidos, co-
         mo os modelos tradicionais. A tendncia emergente, contudo, 
         ver os partidos como instituies intimamente ligadas aos movi-
         mentos sociais, enraizadas em suas lutas cotidianas. Os partidos,
         na verdade, tomam-se representantes dos movimentos organiza-
         dos (como movimento ecolgico, dos sem-terra, associaes de
         bairro, movimentos feministas, etc.) ao nvel poltico, coorde-
         nando essas lutas e formando, ao mesmo tempo, determinado
         tipo de representao parlamentar. Essa estratgia  ainda vaga,
         mas difere, como modelo de organizao, tanto dos partidos
         parlamentares convencionais como dos partidos de vanguarda.
            Como se v, os problemas discutidos giram em torno da
         capacidade repressiva ou disruptiva de burguesia. O caso do
         Chile  um exemplo recente e doloroso. E possvel uma mudana.
         
         
         
                                                        162
         contemporizando com a burguesia? Ou que, aos poucos, consiga
         minar, ou neutralizar, o poder destrutivo da burguesia?
         e)   Um novo modelo: dualismo societrio radical
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            Diante do declnio das foras de esquerda como foras
         polticas organizadas e do desencanto geral com o socialismo
         dirigido pelo estado, que se seguiu  crise do bloco sovitico,
         uma quarta perspectiva estratgica, para mudanas progressivas.
         est ganhando influncia.
            A idia bsica dessa perspectiva  explorar possibilidades de
         construir formas alternativas institucionais dentro do capitalis-
         mo, gerando uma espcie de estrutura dualstica ao desenvolvi-
         mento da sociedade, que abranja a coexistncia de lgicas e
         princpios alternativos.
            Uma imagem de tal estratgia teria sido a reao da contra-
         cultura  poltica: a comunidade hippie nas florestas, a comuni-
         dade utpica, etc.
            Outra perspectiva ~a1~e foi chamada de "Caminho capita-
         lista para o comunismo
            A proposta  que as caractersticas essenciais comunistas
         podem ser construdas dentro das sociedades capitalistas avan-
         adas, a5~vs da criao de uma espcie de "titulo de renda
         bsica", universal e incondicional, garantindo mais-valia so-
         cial, sem a necessidade de uma ruptura poltica ou de uma ruptura
         nas relaes de propriedade capitalista. Concretamente, esse
         "ttulo de renda bsica" implicaria no seguinte:
            - Todos receberiam, pelo fato de serem cidados, um crdito
         de subsistncia suficientemente alto para que pudessem ter um
         nvel decente de vida - chamado por Marx de nvel de vida
         histrico e moral.
            - Esse fato tomaria o trabalho genuinamente voluntrio, no
         sentido marxista: os trabalhadores no necessitariam mais ven-
         der sua fora de trabalho. Isso quebraria o lao entre a proprie-
         dade dos meios de produo e a possibilidade de sobrevivncia.
            - Isso significaria que as pessoas seriam livres em assumir
         atividades voluntrias, com base na livre associao para a
         produo de projetos sociais com princpios comunistas de dis-
         tribuio/contribuio.
         
         
         
                                                        163
         
         
         
         
         
            - Porm, as pessoas tambm seriam livres para se engajarem
         em relaes capitalistas, se elas estivessem de acordo.
            - Capitalismo e comunismo coexistiriam, pois, sem a inter-
         mediao do socialismo.
            Em termos das teorias do estado, esta perspectiva parece
         compartilhar de muitos dos pressupostos da viso socialdemo-
         crata tradicional, pois as propriedades institucionais do estado,
#
         





         como tais, no parecem possuir um carter de classe, e o gradua-
         lismo seria assumido. Compartilha tambm com o modelo socia-
         lista democrtico a viso de reformas radicais, abrindo espao
         para possibilidades de mudanas qualitativas dentro das institui-
         es existentes.
            Contudo, a grande limitao dessa perspectiva  que ela
         somente poderia se darem sociedades de um capitalismo muito
         avanado, onde a mais-valia social fosse suficientemente grande
         e garantida, em grande parte, atravs da automao industrial e
         de lucros provindos de fontes bastante seguras, como recursos
         naturais em grande quantidade e longa durao, ou reciclveis.
         Alm disso, num mundo cada vez mais interdependente,  difcil
         conceber uma sociedade que seja auto-suficiente em si mesma e
         no tenha de se relacionar, em quase todos os nveis, com outras
         sociedades. Alm de tudo, como ficaram suas relaes com
         sociedades em que existam nveis de pobreza extremos?
           Mas, por que no sonhar?
            Nesta segunda parte, na inspirao e no exame das muitas
         tentativas - algumas com mais, outras com menos xito - pude-
         mos entrever vrios caminhos possveis, alguns j tentados,
         outros em experincia, outros ainda no experimentados.
            Nosso entendimento  que no se pode fechar nenhuma
         porta. A realidade  muito mais contraditria e muito mais rica
         do que podemos imaginar. Ningum sabe o que pode nascer das
         contradies histricas. O novo nasce sempre do velho. Porque,
         ento, no podem coexistir, o novo e o velho, ao menos por
         determinado tempo, at que o velho d lugar a novas possibili-
         dades de convivncia humana?
            A criatividade do povo, principalmente dos pobres e oprimi-
         dos,  infinita e inesgotvel. Eles sabero, na luta, esperana e
         
         
         
                                                        164
         solidariedade, descobrir novas maneiras de existncia, superan-
         do as mil dominaes, tanto da parte do estado como das diversas
         organizaes.
            As possibilidades, com suas limitaes intrnsecas, esto
         sempre presentes. Os homens fazem a histria;  importante que
         se organizem e lutem... Mas no exatamente como querem; h
         limites que se colocam em seus projetos, que podem modificar,
         em pane, suas lutas, mas que no os impediro de construir uma
         histria diferente da que est a.
                                                        165


                       Terceira parte  IDEOLOGIA

                    Das quatro partes que compem o nosso estudo, certamente
                  esta  a mais complexa e, talvez, a mais importante. Isso porque
                  cada vez mais a dominao. em nossos tempos, vai se transfor-
                  mando e tomando formas mais "imateriais", psicolgicas, repre-
                  sentacionais, mas nem por isso menos objetivas e concretas.

                    Esta terceira parte comea com um esforo intenso e srio
                  de tentar construir uma definio de ideologia, a partir das muitas
                  dimenses e teorias existentes sobre o assunto. Vai ser a matria
                  do captulo XI.
         
                    Nos trs captulos seguintes vamos discutir trs dimenses
                  de ideologia:
                    No captulo XII vamos discutir a "Ideologia como mistifica-
                  o", como distoro da realidade. Nesse captulo aproveitare-
                  mos para fazer uma discusso epistemolgica da relao entre
                  ideologia e cincia.
                    No captulo XIII examinaremos a "Ideologia como legitima-
                  o", e aprofundaremos a dimenso normativa da ideologia,
                  enfocando tambm a problemtica dos interesses.
                    Finalmente, no captulo XIV vamos analisar a "Ideologia
                  como begemonia", o que  possvel/impossvel.
         
         
         
         
         
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                                         XI- Ideologia: conceito e relaes
         
         
         
         
            Talvez no exista conceito mais complexo, escorregadio e
         equivoco no campo das cincias sociais do que o de ideologia.
         Embora o nome, como tal, "ideologia", somente tenha aparecido
         h pouco mais de um sculo, sua realidade j estava presente
         desde que se comeou a pensar a vida social, com diferentes
         nomes, mas querendo designar a mesma realidade.
            Assim, por exemplo, a ideologia j era discutida nas culturas
         grega e romana. Mas foi sobretudo a partir dos sculos XV e XVI
         que estudos mais pertinentes comearam a ser feitos sobre o
         assunto, apesar de ainda no empregarem o nome. Machiave-
         1h, ao discutir as prticas dos prncipes, principalmente o uso
         da fora e da fraude para conseguir o poder, refere-se a estrat-
         gias que no se diferenciam das usadas hoje pelos poderes
         dominantes para se legitimar.
                                                        122
            Mas 6 principalmente Bacon quem desenvolve um estudo
         extremamente prximo ao que hoje se usa de ideologia, atravs
         de sua teoria sobre as quatro classes de dolos, que nos dificultam
         chegar mais prximos da verdade. Esses dolos so os da caver-
         na: nossas idiossincrasias, carter; da tribo: supersties, pai-
         xes; da praa: as inter-relaes humanas, principalmente
         atravs da linguagem; e os dolos do teatro: a transmisso das
         tradies e doutrinas dogmticas e autoritrias, atravs do teatro,
         que seriam, hoje, os Meios de Comunicao Social.
            A crescente importncia da ideologia hoje, deve-se certa-
         mente ao fato de nossa sociedade e nosso mundo tomarem-se, a
         cada dia, mais "imateriais", sempre mais sustentados numa
         comunicao verbal e simblica.
            H inmeros enfoques tericos que do diferentes significa-
         dos e funes ao conceito de ideologia, sem falar das fortes
         conotaes, polticas e valorativas, que o conceito carrega em si.
         Questes sociolgicas, psicossociais, epistemolgicas, at mes-
         mo filosficas, bastante complexas, esto ligadas  realidade da
         ideologia. Por isso  relativamente difcil querer tratar esse
         assunto de uma maneira clara e inteligvel. Numa tarefa verda-
         deiramente arriscada, tentaremos entrar por esse terreno aciden-
         tado, tentando, enquanto possvel, mostrar as semelhanas,
         diferenas, sobreposes e relaes dos vrios aspectos presen-
         tes, em geral, na realidade da ideologia.
#
         





         
         1. Diferentes dimenses da ideologia
         
            Dimenses bastante diversas poderiam ser enfocadas na
         tentativa de compreenso da problemtica da ideologia:
         a)   Num eixo valorativo - Ideologia no sentido positivo, isto ,
         como acosmoviso de uma pessoa, ou de um grupo; ou ideologia
         no sentido negativo, como uma falsa conscincia, tanto indivi-
         dual como social, com o propsito de iludir as pessoas e encobrir
         a realidade.
         b)   No eixo subjetivo X objetivo - Ideologia como sendo um
         carter subjetivo, ou psicolgico, que pode ser tanto uma defor-
         mao da conscincia como simplesmente o contedo dessa
         conscincia; ou ideologia como tendo um carter objetivo, de-
         pendente de fatores objetivos, e impregnando a estrutura bsica
         da sociedade.
         c)   No eixo particular X geral - Ideologia como sendo um
         fenmeno particular, especfico, do grande conjunto de fenme-
         nos estruturais; ou ideologia como a prpria superestrutura,
         incluindo todas as formas de conscincia social, inclusive a
         cultura.
         d)   No eixo cincia X ideologia - Ideologia como anttese da
         cincia, como pr-concepes ou elementos irracionais que im-
         pedem as pessoas de conhecerem a verdade; ou ideologia como
         tendo uma base comum com a cincia, nas cosmovises dos

                           170                                               171
         indivduos e classes, no podendo, nesse caso, a cincia superar
         a ideologia, mas tornando-se, ela prpria, ideolgica.
         
         e)   No eixo contedo Xprdtica - Ideologia como um conjunto,
         um sistema de crenas, normas, etc.; ou ideologia como prtica,
         isto , como um processo de produo, reproduo e transforma-
         o de experincias vivenciais que constroem a subjetividade.
         
            Outras dimenses ainda poderiam ser lembradas.123
         
            Algumas dessas dimenses se relacionam estreitamente, s
         vezes quase se sobrepem; h, contudo, um espao de especifi-
         cidade para cada uma delas.
         
            Diante disso, por onde comear? Onde se situar, nesse ema-
         ranhado de diferenas e distines?
         
            Podemos, com cuidado, ir clareando o campo, tentando
         achar um caminho por onde se possa seguir adiante. Fica claro
         que se trata aqui de uma questo de opo, e vamos nos guiar,
         nessa opo, por critrios que nos ajudem a ver mais claro a
         realidade, nos ajudem na prtica e sejam teis aos que mais
                                       124
         sofrem devido a essa realidade: os trabalhadores.
         
         2. Ideologia: contedo e prtica
         
            Optamos, em nossa anlise, por assumir ideologia como
         abrangendo duas dimenses:
         
         a)   uma dimenso esttica, onde ideologia  vista em seu conte-
         do, constitudo por um conjunto de crenas, valores, normas,
         motivaes, etc. de pessoas e coletividades;
         
         b)   uma dimenso dinmica, onde ideologia  vista como uma
         determinada prtica, cuja funo principal  a produo, repro-
         duo e transformao das experincias vitai~ga construo da
         subjetividade, em seus aspectos conscientes.
         
            Qual a razo dessas duas dimenses?
            O motivo principal  que o estudo da ideologia  o prprio
         estudo de sua constituio; h uma re-flexo automtica quando
#
         





         se estuda ideologia: estuda-se a ela, com ela. Pois a ideologia,
         como tentaremos mostrar melhor mais tarde,  o prprio estudo
         de nossa conscincia, de um lado, isto , de quem somos, por que
         somos o que somos, por que pensamos o que pensamos; de outro
         
         
         
                                                        172
         1
         lado,  o exame de nossa prtica, como nos constitumos, como
         mudamos (ou no mudamos) e por que mudamos. Se definsse-
         mos ideologia apenas como o "resultado", o produto final, que-
         bradamos e reduziramos o seu prprio significado.
         
            Therborn (1980:2), ao definir ideologia, diz que "a operao
         da ideologia na vida humana envolve, fundamentalmente, a
         constituio e a padronizao de como os seres humanos vivem
         suas vidas como iniciadores conscientes e reflexivos de aes
         num universo de significados... Nesse sentido, ideologia consti-
         tui os seres humanoscomo sujeitos". E logo aps ele afirma que
         estudar o aspecto ideolgico de uma prtica  "deter-se na
         maneira pela qual ela j~gra na formao e transformao da
         subjetividade humana".
         
         3. Ideologia como prtica consciente
         
            Uma das decises mais difceis ao estudar ideologia  optar
         se ela ser tratada em sua dimenso consciente ou inconsciente.
         Wright, como Therbom, ao discutir a prtica e o contedo da
         ideologia, restringem-se a seus aspectos conscientes. E a posio
         que assumiremos aqui, sem deixar de mencionar, em vrias
         circunstncias, a importncia e as interferncias do inconsciente
         (como no captulo XIII, ao tratarmos da legitimao). Ideologia
         refere-se, assim, s dimenses conscientes da subjetividade.
         
            Podem-se distinguir ao menos duas dimenses de nossa
         subjetividade:
         
         a) A dimenso inconsciente, que chamaremos aqui de personali-
         dade ou estrutura de carter, seria o resultado de processos
         psicodinmicos, estudados pela psicanlise e outras teorias psi-
         colgicas. Esses processos operam sobre um material especfico:
         as energias libidinais e os desejos do recm-nascido, atravs de
         mecanismos biolgicos, e/ou basicamente inconscientes. Esses
         mecanismos vo desenvolvendo e criando disposies, traos de
         carter, constituindo personalidades e vo se materializar, social-
         mente falando, no que vamos chamar de cultura. A psicologia
         da personalidade estudaria a formao e desenvolvimento dessas
         disposies e traos.
         
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         b) A dimenso consciente, que chamaramos aqui de conscincia,
         e que seda o conjunto de nossas crenas, valores, idias, cogni-
         es, etc. A psicologia cognitiva estudaria o processo de cons-
         truo dessas crenas e cognies. Ao conteddo dessa dimenso
         consciente chamaramos de ideologia. Aqui se estudariam as
         diferentes dimenses da realidade: o que existe/no existe; o que
          bom/mau; o que  possvel/impossvel. A ideologia, tomada
         subjetivamente, faria parte de nossa conscincia. Mas a ideologia
         pode ter tambm uma dimenso social, que corresponderia ao
         que  a cultura, na dimenso inconsciente. A ideologia seria
         estudada pela psicologia social.
         
            A deciso de distinguir, na subjetividade, a personalida-
         de/cultura da conscincia/ideologia, pode parecer radical. Mas
         h razes para isso. Um exemplo nos poderia ajudar a mostrar a
         viabilidade dessas distines: o exame dos aspectos de gnero
         das prticas ideolgicas versus prticas culturais.
         
            A ideologia patriarcal seria constituda pelas crenas na
         "naturalidade" da diviso social do trabalho, na aceitao de
         desiderabilidade de os homens desempenharem trabalhos com-
         petitivos e agressivos, e as mulheres se dedicarem mais a trabal-
         hos domsticos, educativos, afetivos. A cultura patriarcal, por
         sua vez, seria a existncia, Uda como natural e indiscutvel,
         arraigada j no carter de um povo (por isso inconsciente), de
         uma socializao diferenciada dos atributos de personalidade
         masculinos e femininos, em homens de mulheres, de tal modo
         que os homens adquiram disposies, traos de carter, etc. mais
         agressivos, e as mulheres, mais afetivos e temos, mostrando,
         assim, comportamentos diferentes.
         
            Nesse sentido, pode-se dizer que a ideologia questiona as
         bases de uma cultura, podendo provocar sua transformao: traz
         o inconsciente ao consciente. Se pudermos chegar a compreen-
         der por que somos dominados, por que existem diferenas entre
         homens e mulheres, etc., poderemos tentar transformar essas
         estruturas e instituies que se construram historicamente, mas
         que so tidas como "naturais", "eternas".
         
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            H, tambm,  claro, o caminho oposto, isto , quando uma
         ideologia se transforma em cultura. Tomemos, como exemplo,
         a acirrada discusso sobre a maior ou menor importncia da
         ideologia, ou da cultura, no que se refere s lutas pela construo
         de uma sociedade socialista.
         
            Alguns argumentam que uma prtica ideolgica, conscien-
         temente desejada, pode construir uma cultura (socialista), formar
         determinado tipo de povo. A contra-argumentao diz que, sem
         determinados traos culturais, ser difcil, ou mesmo impossvel,
         at mesmo desejar ou ter tais prticas ideolgicas.
         
            Poder-se-ia dizer que h aqui um processo dialtico entre
         essas duas realidades. A melhor e mais profunda compreenso
         desse processo certamente  de extrema importncia nas lutas
         revoluci ynrias que pensam uma mudana qualitativa a longo
         prazo.12 Se enfatizamos mais, pois, nas discusses posteriores,
         o papel da ideologia, isso no quer absolutamente significar que
         a personalidade e cultura no tenham influncia e importflncia
         na formao e sustentao das ideologias.
         
            Tome-se como exemplo o caso da "legitimao". H tipos
         de personalidade que sustentam determinadas crenas. H nor-
         mas que so estveis e estruturadas porque correspondem 
         estrutura da personalidade. Este tipo de anlise tem uma impor-
         tncia muito grande na explicao, por exemplo, da ideologia
         fascista, onde, atravs de vrios estudos,j se tentou mostrar que
          a estrutura subjacente  nossa personalidade - a estrutura do
                                  128
         carter autoritrio, no estudo de Adorno - que subjaz a essas
         crenas.
            Outro exemplo, nessa dimenso,  o do racismo, onde muitas
         vezes se faz a distino entre racistas que so organicamente
         racistas, devido a sua personalidade, e racistas que so conven-
         cionalmente racistas, unicamente porque  a norma, e se as
         condies mudarem, facilmente deixariam seu racismo.
         
         4. O processo de produo da ideologia
         
            Como se d o funcionamento da ideologia? O que acontece
         nessa relao entre a ideologia e a pessoa (o sujeito)?
            Picou famosa a expresso de Althusser, de que a ideologia
         "interpela" os indivduos como sujeitos. Isso significa que a
         ideologia chama, acena, dirige-se a algum, tornando-o, com
         essa ao, um "sujeito". Essa pessoa sai, por assim dizer, do
         
         
         
                          174                                                 175
         
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         anonimato, do meio da multido, e passa a ser algum individua-
         lizado.  claro que isso se d, inicialmente, quando algum 
         capaz de se ver distinto dos outros, e vai se dando durante toda
         a vida, todos os dias da vida de algum, enquanto esse algum
         consegue ouvir um chamado.
         
            Como vimos acima, referimo-nos aqui apenas  dimenso
         dos chamados, das interpelaes que se do de maneira conscien-
         te. Fica para outros o estudo, sem dvida muito interessante, dos
         apelos e interpelaes inconscientes que as pessoas recebem
         durante toda sua vida.
            D-se, porm, nessa interpelao, um fenmeno contradit-
         rio: esse chamado nos "toma sujeitos", isto , nos determina de
         duas maneiras bastante distintas:
         a) Diz que ns somos algum que pode ser "sujeito" de uma ao,
         autor de uma ao; em outras palavras, que temos qualificao,
         capacidade, poder, autoridade de fazer alguma coisa (Therbom
         chama a isso de "qualificao"). Assumimos, pois, uma posio
         e um papel na sociedade. Somos inseridos na vida social, e nos
         tornamos agentes, inclusive de mudanas.
         b) Diz que ns somos "sujeitos", isto , subjugados, dominados,
         oprimidos, que temos de obedecer a determinadas ordens, que
         temos de ocupar tal lugar, que no devemos reclamar (Therborn
         chama a isso de "sujeio").
            A palavra "sujeito" contm, pois, em si mesma essa dimen-
         so dialtica: a dimenso de agente-autor e a dimenso de pa-
         ciente-dominado.
             claro que sempre existe a possibilidade do surgimento de
         contradies entre esses dois papis: algum pode se opor,
         resistir  sujeio, agir diferentemente. Reside aqui a possibili-
         dade de mudana, que analisaremos mais adiante.
         
         5. O contedo da interpelao
         
            O que diz a ideologia a seus "sujeitos", tanto ao qualific-los
         (tomando-os agentes) como ao desqualific-los (tomando-os
         subjugados)?
            Ela lhes diz, os faz reconhecer, e os coloca dentro de trs
         dimenses centrais da realidade:
         
         
         
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         1
         
         
         1
         a)   A realidade do que existe/no existe - Diz-lhes o que  a
         realidade, como se conhece a realidade, quem  o ser humano, o
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         que  a sociedade, o que  real e verdadeiro, como  estruturado
         o mundo, etc. D-lhe a definio do que  e como se conhece a
         realidade (dimenso ontolgica e epistemolgica).
         b) O que  bom/mau- O que  justo. desejvel, direito, honrado,
         e seus contrrios. E daqui que ns formamos nossos padres
         ticos e morais, e onde se estruturam nossos desejos, onde
         construmos nossas normas de ao (dimenso tica).
         c)   O que  possvel/impossvel - A dimenso de mudana e de
         nossas possibilidades de construir algo diferente: nossas ambi-
         es, conquistas, esperanas esto condicionadas pela definio
         do que  "possvel".
             dentro dessas trs dimenses que se trava a luta ideolgica:
         quem tem o poder de definir esses trs espaos tem o poder sobre
         todo o resto. E essa luta se trava entre o mundo que nos rodeia
         (escola, famlia, religio, meios de comunicao, mundo do
         trabalho, companhias) e nossa subjetividade. Se deixarmos que
         outros dem as definies para ns, seremos definitivamente
         "objetos" deles, seremos sujeitados a eles. Mas se ns procurar-
         mos manter nossa autonomia, nossa capacidade de questiona-
         mento, de crtica, de luta, de insubordinao, de resistncia, ento
         poderemos ser sujeitos-atores de nosso prprio destino.
            Essas trs dimenses esto intimamente relacionadas e for-
         mam uma estrutura lgica de significncia. Elas abrangem di-
         menses de espao e tempo: aqui e em qualquer lugar, agora e
         sempre. Podem ter diferentes pesos numa situao ou noutra,
         mas sempre conservam uma lgica entre si.
            Essas trs dimenses vo constituir os trs contedos cen-
         trais da ideologia que estudaremos nos trs captulos seguintes:
         a mistificao, a legitimao-justificao e a hegemonia.
             curioso examinar o processo articulado que se monta, a
         partir dessas trs dimenses, para a defesa do status quo, e para
         a expulso imediata das possibilidades de mudana que por acaso
         se apresentam numa determinada situao social. Por exemplo:
            Se uma caracterstica diversa da presente  proposta, o
         primeiro passo  negar sua existncia: "No, isso no existe,
         
         
         
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         jamais se ouviu falar nisso, onde voc arranjou isso?" Assim,
         tudo o que  positivo  mostrado, como o progresso, as obras, a
         riqueza, a liberdade. E tudo o que  contraditrio dessa ordem 
         escondido ou negado, como a explorao, a pobreza, o crime, a
         dominao, a opresso.
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            Mas, muitas vezes  impossvel negar a evidncia e  preciso
         admitir a existncia de contradies. O recurso , ento, aceitA-
         las. Elas existem, de fato, mas devem ser aceitas assim, pois 
         assim que  o justo, o correto, o melhor, assim Deus quer. Se
         algum est numa situao de misria, de pobreza, isso se deve
         ou a ele mesmo, que no procurou sair dessa situao, ou so
         problemas inerentes  prpria ordem estabelecida e querida por
         Deus:  bom que seja assim.
            Finalmente, mesmo que se admitam determinadas qualida-
         des, e que estas realidades sejam injustas e inaceitveis, argu-
         menta-se que isso pode ser diferente, que  possvel mudar, ao
         menos nas circunstncias presentes. Esse terceiro ponto  crucial,
         e  aqui que se coloca toda a inteligente anlise de Gramsci com
         respeito  contra-hegemonia, que seria mostrar a possibilidade
         de alternativas, negando que existe apenas um caminho possvel:
         o definido e designado pelo poder dominante.129
            Todas as trs dimenses de interpelao so importantes.
         Acontecia, muitas vezes, que o estudo da ideologia se restringia
         apenas  segunda delas -  legitimao/justificao: o que  bom,
         justo, etc. O enfoque liberal desenvolveu muito as questes
         relacionadas  legitimao, consenso, esquecendo questes rela-
         cionadas ao conhecimento da realidade e  possibilidade de
         mudana. J o enfoque histrico-crtico desenvolveu principal-
         mente os dois primeiros: uma conscincia apurada da realidade
         e o que  justo, sem, muitas vezes, uma estratgia de ao e de
         mudana concreta.
         
         6. Ego e altero-ideologia: identidade e conscincia social
         
            Qual seria a relao entre ideologia e identidade, e ideologia
         e conscincia social (de classe)?
            A definio mais simples que se d ao que seria identidade
         : identidade  a resposta dada  pergunta: "Quem sou eu?"
         
         
         
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         1
         .t
            Pode-se logo perceber que toda pessoa possui inmeras
         identidades, conforme a resposta que dar a essa pergunta.
         Assim, algum pode responder: sou homem/mulher; sou brasi-
         leiro(a); sou negro(a); sou professor(a), etc.
            Como se relacionam a identidade e a subjetividade?
             possvel fazer aqui uma distino: pode-se dizer que h,
         na subjetividade de uma pessoa, duas dimenses: a dimenso
         individual, que se pode chamar de ego-ideologia; ~~dimenso
         social, que poderia se chamar de altero-ideologia. Assim, a
         interpelao da ideologia ao sujeito se daria em duas direes:
         interpelao com respeito  posio do sujeito como tal, ao papel
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         que ele desempenha: identidade, conscincia de si, ego-ideolo-
         gia; e interpelao com respeito aos outros da posio: conscin-
         cia social, de classe, altero-ideologia.
            A segunda dimenso implica uma relao intrnseca com
         outras identidades. Refere-se  forma em que algum serelaciona
         com os "outros":  percepo do outro e s relaes com esse
         outro. Em relaes de poder-dominao, a altero-ideologia das
         pessoas dominadoras  traduzida em tentativas de moldar os
         dominados de acordo com a imagem que os dominadores tm
         deles, destruindo neles a capacidade cj~~esistncia a essa domi-
         nao. Exemplo disso  o que Freire discute na anlise que
         faz do processo em que os oprimidos "introjetam a imagem do
         opressor", e como a ideologia (valores, crenas) dos opressores
         se toma "hspede" na conscincia do oprimido.
            A altero-ideologia dos dominados, por sua vez, embora
         tambm envolvendo uma percepo e avaliao das diferenas
         entre ego e altero, tende em direo  "resistncia aos outros". O
         ponto crucial, central da altero-ideologia, no que se refere s
         classes, no modo de produo capitalista,  ver se a orientao
         subjetiva dos trabalhadores, no que se refere aos capitalistas, est
         baseada e tem como plo de luta a cosmoviso capitalista (isto
         , o mundo e os valores dos dominadores) ou a perspectiva dos
         oprimidos (isto , os valores de solidariedade, resistncia, orga-
         nizao comunitria e coletiva).
         
         
         
         
         
         
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         7. Ideologia e conscincia de classe
         
            Aproveitamos aqui para ampliar a discusso sobre conscin-
         cia de classe, que definimos no captulo III.
            A conscincia de classe  um tipo de conscincia,  uma
         subjetividade, e como tal se constitui numa ideologia, apesar de
         no se poder dizer que ela constitui toda a ideologia.
            H ao menos duas maneiras distintas de se entender cons-
         cincia de classe:
         a) A primeira, ainda bastante usada,  a discutida por Lukcs:
            "... conscincia de classe consiste, de fato, nas reaes
         especficas e racionais 'imputadas' a uma posio particular
         tpica, no processo de produo. Essa conscincia no  a soma,
#
         





         nem a mdia, do que  pensado ou sentido pelos indivduos
         singulares que compem a classe. E, contudo, as aes histori-
         camente significativas da classe como um todo so, em ltima
         instncia, determinadas por essa conscincia, e no pelo pensa-
         mento do indivduo - e essas aes ~2podem ser compreendidas
         por referncia a essa conscincia
            Pelo que se pode concluir dessa citao, v-se que Lukcs
         define conscincia de classe de uma maneira hipottica, ideal, ou
         imaginria: o que as pessoas, como ocupantes de um lugar
         especfico, dentro do processo de produo, sentiriam e acredi-
         tariam se elas fossem racionais. Nesse sentido, no se distancia
         muito de um construto parecido com um "tipo ideal" dc Weber.
         que poderia ser emprega~3como potencialmente til para estu-
         dar sociedades de classe.
            O que se pode questionar, nessa definio,  o passo seguin-
         te: essa conscincia, sendo imputada, no corresponde  cons-
         cincia real das pessoas; mas , contudo, para Lukcs
         causalmente eficaz. E tratada como um mecanismo real, operan-
         do causalmente com respeito s classes como um todo. Isso
         mostra que Lukcs assume uma espcie de "teologia objetiva da
         histria", o que implicaria no pressuposto de que existe um final
         objetivamente certo da histria, ou um fim objetivo distinto dos
         fins e objetivos das pessoas humanas, que determinaria a traje-
         tria real do desenvolvimento histrico; uma espcie de determi-
         nismo histrico. E isso pode ser seriamente questionado.
         
         
         
                                                        180
         b) O segundo emprego da expresso conscincia de classe seria
         o que nos interessaria aqui: um atributo concreto das pessoas
         como membros de uma classe; um aspecto particular da subjeti-
         vidade concreta dos seres humanos. Quando o termo  usado em
         explicaes macro-sociais, tem o objetivo de ajudar a explicar
         escolhas e aes individuais. Seria assim uma distribuio pa-
         dronizada da conscincia individual, dentro de tal grupo. Mas
         essas entidades no teriam "conscincia" no sentido literal do
         termo, como algum que tem crebro, que pensa, etc.
            Quando se encontra o termo "consciencia de classe", ele 
         usado num desses dois sentidos vistos acima: como um instru-
         mento erstico para avaliar (comparativamente) a conscincia
         real das pessoas (tipo-ideal de Weber); ou como explicao de
         aes e escolhas individuais.
         
         8. Conscincia de classe, capacidade de classe, prtica de
         classe
         
            Mas pode-se ir mais a fundo nessa anlise e dizer que haveria
         outra dimenso em que se poderia usar legitimamente o termo
         conscincia de classe, mas num sentido mais amplo: quando o
#
         





         termo conscincia de classe for usado para descrever as prprias
         prticas, e no apenas as formas de subjetividade que organizam
         as escolhas individuais dessas prticas; nesse sentido conscincia
         no seria mais um atributo exclusivo dos indivduos.
            Para ser mais preciso, se poderia usar "conscincia" para
         designar as dimenses subjetivas do problema; o termo "capaci-
         dades" para descrever os recursos coletivamente organizados
         que se empregam nas lutas; e o termo "prticas" para descrever
         as atividades individuais e coletivas, que resultam da li~~o
         entre a conscincia individual e as capacidades coletivas.
            Tendo isso em considerao, pode-se definir conscincia de
         classe como os aspectos da conscincia, como um contedo
         distintivo de classe. Esse contedo significaria tanto as conclu-
         ses lgicas de aspectos da conscincia, tirados de uma anlise
         de classe (por exemplo, crena na competio, na solidariedade),
         como tambm contedos de conscincia que esto implicados
         nas intenes, escolhas e prticas que tenham efeitos de classe
         implcitos na realidade: efeitos de como as pessoas agem dentro
         
         
         
                                                        181
                                                                    -r
         
         
         
         de determinadas estruturas de classe, e efeitos nessas prprias
         relaes de classe.
            Assim, a conscincia de classe  um tipo especial de cons-
         cincia, de ideologia, em que os sujeitos tm uma compreenso
         relativamente correta e consistente de seus interesses. Mas ela
         continua sempre geral. Para cada caso especfico, deve vir acom-
         panhada por um adjetivo: revolucionria, anticapitalista, pr-
         classe trabalhadora, etc.
            Ainda se poderia perguntar: De onde surge a conscincia de
         classe?
            O que se pode ver pela anlise histrica,  que a emergncia
         de uma altero-ideologia (conscincia de classe), distintivamente
         proletria, de resistncia ao capitalismo, foi sempre resultado de
         lutas concretas dos trabalhadores, na base de orientaes subje-
         tivas especificas. Aqui se coloca um ponto crucial: assim como
         as ideologias interpelam as pessoas como tipos especficos de
         "sujeitos", com subjetividades especficas, as prticas das pes-
         soas e classes transformam essas ideologias/interpelaes atra-
         vs da experincia concreta de vitrias e derrotas.
            A grande fora de negociao dos trabalhadores depende
         fundamentalmente de sua grande superioridade numrica. A
         grande dificuldade que enfrentam  conseguirem se reunir e se
         organizar. Um componente central, pois, da ideologia proletria
          a solidariedade que se ope diretamente ao individualismo
#
         





         competitivo, componente central da ideologia capitalista.
            A situao dual do mercado de trabalho tende a gerar cons-
         cincia de classe, no sentido de uma compreenso da diferencia-
         o econmica e do conflito entre diferentes classes. Esta
         compreenso traz consigo a tendncia para a ao poltica de
         classe, e inclusive para ~grmao de partidos polticos baseados
         na classe trabalhadora.
         
         9. Ideologia e teoria do papel
         
            Vale lembrar alguns pontos com respeito  relao entre
         ideologia e teoria do papel. A definio mais comum de papel se
         refere ao comportamento normalmente esperado de pessoas que
         
         
         
         
                                                        182
         ocupam determinadas posies na sociedade. Na ~ggiologia par-
         soniana e ps-parsoniana,  um conceito central.
            O enfoque psicossocial do comportamento pessoal e das
         relaes interpessoais em termos de definies de papis e de
         desempenho de papis geralmente  tratado sob o nome de teoria
         de papel. Muitas pessoas e muitos estudiosos estariam inclinados
         a dizer que ideologia no  mais o papel que uma pessoa
         desempenha.
            O que estaria faltando aqui?
             imprescindvel ter-se em considerao que o conceito de
         "papel" (como o de "posio") est embebido numa concepo
         particular de sociedade, uma viso descritiva apenas, idealista e
         individualizante, em que o comportamento social  visto como
         definido de uma maneira exclusivamente normalizante, e as
         relaes sociais definidas apenas como relaes interpessoais.
         Os tericos do "papel" falam em ocupaes, mas no em classes.
         No existe nem a relao intrnseca entre as vrias pessoas que
         ocupam uma posio nem entre essas vrias posies.
            Ainda mais: a problemtica do "papel"  uma problemtica
         de indivduos particulares, isolados, respondendo a necessidades
         e exigncias sociais dadas: a orientao  basicamente esttica.
            Finalmente, na noo de "papel" est totalmente ausente a
         idia de conflito e de dialtica. Fala-se de definies de papel,
         aprendizado de papel, desempenho de papel, etc. e conflitos
         externos: entre personalidade e expectativas de papel, ou entre
         diferentes papis possveis do mesmo indivduo. Esquece-se que
         a problemtica do sujeito, e das formas de subjetividade, contm
         em si uma dialtica e um conflito permanente entre os processos
         de "sujeio", de um lado, e de "autonomia/liberdade", de outro;
         e isso j dentro da mesma pessoa, constituindo uma mesma
         unidade.
            Na perspectiva da teoria do papel, nunca seria possvel
#
         





         pensar numa "consciencia de classe", por exemplo. A formao
         ideolgica do trabalhador envolveria, isso sim, um relaciona-
         mento com o trabalho, que incluiria habilidades especiais, per-
         sistfincia, destreza, etc., exatamente o que interessa  classe do
         capital.
         
         
         
         
                                                        183
         
         
         
         
         
         10. Ligando ideologia  base material
         
            A impresso que muitas discusses do de ideologia  que
         nela tudo se passa como se fosse um campo de idias, de
         discursos, de conversa bem bolada. Indo, porm, mais a fundo,
         podemos ver que a realidade  outra. A interpelao da ideologia,
         na formao e transformao de subjetividades,  o resultado de
         um processo sistemtico de recompensas e castigos. As prticas
         ideolgicas no so apenas discursivas, mas tambm materiais,
         nao-discursivas. As ameaas verbais so acompanhadas ou de
         castigos ou de recompensas. Nada funciona apenas  base do
         discurso.
         
            Pode-se dizer, mesmo, que a dicotomia consenso/coero
         nunca se apresenta em termos absolutos. Toda coero supe um
         consentimento, ao menos no sentido de legitimao, que faz que
         seja possvel a aplicao da fora efetiva, como no caso do direito
         que apia e justifica a guerra, as prises, torturas, etc. Em
         contrapartida, todo consenso, isto , toda forma de interpelao
         ideolgica, supe um sistema de punies-recompensas que
         incluem elementos matenais.
         
         11. Ideologia e mudana
         
            Como muda, como se transforma uma ideologia?
         
            Para se poder compreender a transformao,  preciso terem
         mente que na prpria interpelao da ideologia est contida uma
         contradio: a ideologia nos tomar sujeitos-subjugados, versus
         sujeitos-autores. Essa contradio  a matriz, a origem de todas
         as mudanas possveis.
            Vimos tambm que a ideologia no existe no ar: ela tem uma
         base material, no  apenas discurso. Essa base material, as
         experincias cotidianas, vitais, tambm esto cheias de contradi-
         es e em contnua mudana. As pessoas tm, pois, de ir se
#
         





         adaptando, conformando suas subjetividades, buscando razes
         de pensaram assim, de terem tais crenas, atitudes.
         
            Imaginemos, como exemplo, uma mulher que tenha sido
         educada numa famlia burguesa, onde os valores so patriarcais
         no que se refere ao papel que as mulheres devem desempenhar:
         cuidar dos filhos, permanecerem casa, etc. De repente, ela entra
         numa universidade, onde os valores tradicionais de passividade,
         gentileza e submisso das mulheres so ridicularizados, e onde
         os valores de igualdade, competio, etc, entre homens e mulhe-
         res so enfatizados. Essas diferentes experincias cotidianas
         obrigam a pessoa a se re-situar, fazendo com que se firme nas
         crenas (ideologias) antigas ou passe a reformul-las, a mud-
         las.
         
            A viso idealista da ideologia supe que unicamente atravs
         do poder, da imaginao criadora, novas geraes de pessoas
         podem se libertar de uma determinada estrutura ideolgica. Mas
         o processo  um pouco mais complexo e profundo. O que d
         sustentao a uma ideologia  um processo sistemtico de recom-
         pensas e castigos, que compe. concretamente, a estrutura social
         onde vivemos, inclusive as instituies mais diversas, que tm
         como funo codificar, defender, propagar ou bloquear a difuso
         de crenas e valores, que Althusser chamou de aparelhos ideo-
         lgicos e repressivos. A mudana desses mecanismos de sanes
         ou legitimaes ir levar  mudana de ideologias. No s, mas
         inclusive a prpria mudana estrutural nos modos de produo
         mudar a matriz de recompensas e castigo.
         
            Ao analisar os modos de interpelao ideolgica,j fizemos
         meno s trs dimenses da realidade que a ideologia convoca:
         o que existe, o que  bom, o que  possvel. Essas trs dimenses
         constituem, por assim dizer, o "reino" da ideologia.
         
            A discusso dessas trs dimenses em separado, assunto dos
         trs prximos captulos, nos coloca em contato com vrios
         pontos especficos onde a ideologia trabalha, como ela se com-
         porta e os efeitos concretos que produz.
         184                                                 185
         
         
                                                      1
                                           XII - Ideologia e mistificao
         
         
         
         
            Essa discusso  das mais fascinantes, mas das mais sutis e
         complexas. O grande desafio  poder se aproximar de maneira
         clara dessa "realidade" da mistificao. Isso porque mistificao
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          entendida aqui como sendo um conjunto de distores da
         realidade, que encobrem, obscurecem essa mesma realidade.
         
            A discusso da mistificao nos leva, de imediato, para um
         problema central: se ns afirmamos que a conscincia das pes-
         soas  falsa, ou que suas idias sobre a realidade so distorcidas,
         incorretas, etc., ns temos, logicamente, de possuir certos crit-
         rios do que  uma conscincia certa ou errada, ou o que  uma
         percepo da realidade certa ou errada.
         
            Isso nos conduz, coerentemente,  discusso de "como se
         conhece a realidade" - teoria do conhecimento, que  a episte-
         mologia. A discusso que travamos aqui  a prpria discusso da
         relao entre ideologia e cincia. Toda cincia  ideologia? E
         possvel uma cincia pura, incontaminada?
         
            Iniciamos, pois, com a discusso entre ideologia e cincia,
         passp~do depois a ver alguns exemplos concretos de mistifica-
         ao.
         
         Ideologia e cincia: conceitos bsicos
         
            Comecemos por dar a noo de alguns conceitos bsicos que
         definimos de maneira extremamente simples e nos acompanha-
         ro por toda a discusso:
         
         
         
         
         
                                                        186
            Ontologia - trata das teorias sobre a natureza do mundo,
         sobre o que existe (campo da filosofia).
         
            Epistemologia - trata das teorias de como se pode conhecer
         o mundo, a realidade (campo da filosofia do conhecimento).
         
            Realismo - uma teoria que diz que as coisas existem "l
         fora", independentemente das pessoas (campo da filosofia).
         
            Idealismo - uma teoria que diz que as coisas no existem "l
         fora", mas apenas na nossa mente (campo da filosofia).
         
            Com estas quatro definies podemos comear a trabalhar.
         E raro encontrar, hoje em dia, gente que negue que existam coisas
         "l fora". E conhecida a resposta de Maa e Engels sobre o
         assunto: ns comemos o pudim, logo ele existe. Nesse sentido,
         no campo filosfico, a maioria adota o realismo filosfico. O
         problema comea quando ns perguntarmos: Como conhecemos
         a realidade l fora? A realidade que est "l fora"  assim mesmo,
#
         





         como ns a vemos (ou parece que a vemos), ou se ela  diferente?
         
            E ao redor desse problema que se coloca toda a discusso
         com respeito  "mistificao", e  isso que precisamos abordar
         aqui. No d para negar que sempre h coisas l fora, mesmo que
         estejamos enganados sobre como elas so: vemos, ento, as
         coisas l fora, mas as coisas l fora no so como parecem ser,
         e por isso somos enganados, por isso h mistificaes, pois as
         mistificaes tambm "trabalham", tambm "funcionam", tam-
         bm "esto l fora"...
         
            No campo do conhecimento (teoria do conhecimento, epis-
         temologia) podem-se identificar ao menos trs enfoques tericos
         diferentes. Mas para entender isso  preciso, antes de tudo, ter
         claro o seguinte:
         
            Estamos no campo do conhecimento. E quando falamos em
         "conhecimento", automaticamente entra em jogo o "ser huma-
         no", e entrando o ser humano, entra a conscincia, o intelecto, as
         faculdades mentais. E essa conscincia e minha", pessoal, de
         um lado; de outro lado, esta conscincia  diferente da coisa l
         fora. Isso significa que h, ento, no conhecimento, um a relao
         entre a pessoa que conhece e a coisa l fora. E disso que trata a
         epistemologia, ou a teoria do conhecimento: como ns conhece-
         mos as coisas, e qual o "resultado" daquilo que ns conhecemos.

                                                        187
                                           XII  Ideologia e mistificao

            Essa discusso  das mais fascinantes, mas das mais sutis e
         complexas. O grande desafio  poder se aproximar de maneira
         clara dessa "realidade" da mistificao. Isso porque mistificao
          entendida aqui como sendo um conjunto de distores da
         realidade, que encobrem, obscurecem essa mesma realidade.
            A discusso da mistificao nos leva, de imediato, para um
         problema central: se ns afirmamos que a conscincia das pes-
         soas  falsa, ou que suas idias sobre a realidade so distorcidas,
         incorretas, etc., ns temos, logicamente, de possuir certos crit-
         dos do que  uma conscincia certa ou errada, ou o que  uma
         percepo da realidade certa ou errada.
            Isso nos conduz, coerentemente,  discusso de "como se
         conhece a realidade" - teoria do conhecimento, que  a episte-
         mologia. A discusso que travamos aqui  a prpria discusso da
         relao entre ideologia e cincia. Toda cincia  ideologia? E
         possvel uma cincia pura, incontaminada?
            Iniciamos, pois, com a discusso entre ideologia e cincia,
         passando depois a ver alguns exemplos concretos de mistifica-
          - 137
         ao.
         
         Ideologia e cincia: conceitos bsicos
         
            Comecemos por dar a noo de alguns conceitos bsicos que
         definimos de maneira extremamente simples e nos acompanha-
         ro por toda a discusso:
         
         
         
         
         
                                                        186
            Ontologia - trata das teorias sobre a natureza do mundo,
         sobre o que existe (campo da filosofia).
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            Epistemologia - trata das teorias de como se pode conhecer
         o mundo, a realidade (campo da filosofia do conhecimento).
            Realismo - uma teoria que diz que as coisas existem "l
         fora", independentemente das pessoas (campo da filosofia).
            idealismo - uma teoria que diz que as coisas no existem "l
         fora", mas apenas na nossa mente (campo da filosofia).
          Com estas quatro definies podemos comear a trabalhar.
           raro encontrar, hoje em dia, gente que negue que existam coisas
         "l fora". E conhecida a resposta de Marx e Engels sobre o
         assunto: ns comemos o pudim, logo ele existe. Nesse sentido,
         no campo filosfico, a maioria adota o realismo filosfico, O
         problema comea quando ns perguntarmos: Como conhecemos
         a realidade l fora? A realidade que est "l fora"  assim mesmo,
         como ns a vemos (ou parece que a vemos), ouse ela  diferente?
             ao redor desse problema que se coloca toda a discusso
         com respeito  "mistificao", e  isso que precisamos abordar
         aqui. No d para negar que sempre h coisas l fora, mesmo que
         estejamos enganados sobre como elas so: vemos, ento, as
         coisas l fora, mas as coisas l fora no so como parecem ser,
         e por isso somos enganados, por isso h mistificaes, pois as
         mistificaes tambm "trabalham", tambm "funcionam", tam-
         bm "esto l fora"...
            No campo do conhecimento (teoria do conhecimento, epis-
         temologia) podem-se identificar ao menos trs enfoques tericos
         diferentes. Mas para entender isso  preciso, antes de tudo, ter
         claro o seguinte:
            Estamos no campo do conhecimento. E quando falamos em
         "conhecimento", automaticamente entra em jogo o "ser huma-
         no", e entrando o ser humano, entra a conscincia, o intelecto, as
         faculdades mentais. E essa conscincia e minha", pessoal, de
         um lado; de outro lado, esta conscincia  diferente da coisa l
         fora. Isso significa que h. ento, no conhecimento, uma relao
         entre a pessoa que conhece e a coisa l fora. E disso que trata a
         epistemologia, ou a teoria do conhecimento: como ns conhece-
         mos as coisas, e qual o "resultado" daquilo que ns conhecemos.
         
         
         
         
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         A esse "resultado" ns vamos, de agora em diante, chamar de
         "experincias", a experincia do conhecimento, ou tambm de
         "fatos observados", ou os "fatos empricos".'38
            Os nomes que damos aos conceitos que definimos acima no
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         so criao nossa. Muitos tericos i~wbm se utilizam deles,
         como por exemplo Wright e Bhaskar. A experincia emprica,
         ou o fato emprico, , pois, resultado de duas coisas: as condies
         de observao (percepo, conceitos, teorias) e o real "l fora"
         (os mecanismos da realidade, que se mostram atravs dos acon-
         tecimentos). O quadro seguinte nos ajudar a entender melhor o
         que queremos dizer:
         Condies de observaflo:
         percepo, conceitos,
         teorias, modelos
         Mecanismos
         da realidade: o
         "l fora"
         Acontecimentos:
         "o corrente", O
         potencial, atual
         1
         Experiancia em-
         prica: o fato em-
         prico, o emprico
            O que ns podemos e queremos conhecer  o "fato empri-
         ~ a "experincia emprica". Colocam-se aqui, agora, as trs
         teorias centrais que comeamos a discutir acima, antes de expli-
         carmos o quadro:
         a) O realismo emprico, tambm chamado, s vezes, de empiris-
         mo - Afirma que h uma identidade entre os mecanismos da
         realidade, o que est "l fora", e os fatos empiricos, que eu
         observo. Mais: h uma idntidade entre as trs coisas: os meca-
         nismos da realidade, como se mostram esses mecanismos (os
         acontecimentos) e a experincia ou o fato emprico observado.
         A cincia consiste em isolar, em identificar regularidades emp-
         ricas que so diretamente "dadas" no mundo. A tarefa da cincia
          "limpar a poeira", "tirar o rudo" dessas regularidades, o que
         se faz atravs da experimentao. O cientista , essencialmente,
         algum passivo.
         1
         1
         b) O idealismo radical, transcendental (viso neokantiana da
         cincia) - Afirma que os "fatos observados" so totalmente
         produzidos por discursos, teorias, conceitos, em suma, pela nossa
         cabea. Os fatos so totalmente constitudos pelas teorias. Somos
         ns que construmos esses fatos, e isso por trs razes principais:
         -  Nossas teorias determinam que questes perguntar.
         
         -  Nossos esquemas conceituais determinam as categorias
                          com as quais ns fazemos nossas observaes, e por isso deter-
                          '' ,,
         minam o que ns podemos ver
            - No existem, por isso, tais coisas como fatos "reais", "l
         fora", independentes de teorias ou de conceitos.
#
         





            O que essa teoria defende, pois,  que os conceitos, teorias,
         determinam o que ns podemos ver, isto , o raio de nossas
         possveis observaes. A cincia inventa modelos, cria catego-
         rias e as transforma em teorias, totalmente dentro do pensamento.
         Esses modelos podem ser motivados por regularidades observa-
         das, mas sendo que essas mesmas regularidades pressupem as
         categorias dos modelos (pois a observao  sempre filtrada,
         estruturada conceitualmente), aqueles so sempre construdos
         puramente imaginrios. No final das contas, os modelos so
         imposies de ordem cognitiva, colocadas pelas pessoas huma-
         nas no mundo: imposies essas essencialmente arbitrrias.
         c) Realismo transcendental - Essa teoria afirma que dentro de
         um raio de fatos possveis, determinados por nossos conceitos e
         teorias, os mecanismos reais do mundo "l fora", mecanismos
         que existem independentemente de nossas teorias, tambm de-
         terminam nossas observaes concretas. Assim, os "fatos emp-
         ricos", as "experincias empricas" so influenciados pelo
         mundo "l fora", e tambm por nossas teorias e conceitos.
            A atividade cientfica deve ser vista como um processo de
         produo, e o resultado final dessa produo  o conhecimento.
         O conhecimento possui, pois, duas dimenses:  um produto
         social; e  conhecimento de coisas que esto e existem "lfora",
         objetivamente, independentemente de ns mesmos. Tenta recon-
         ciliar dois aspectos: a dimenso histrica do conhecimento e a
         dimenso de existncia, independente de mecanismos reais no
         mundo.
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            Mas, o que tem tudo isso a ver com a mistificao?
            Estamos a caminho. Para podermos discutir depois as misti-
         ficaes concretas, precisamos ainda dar mais uns passos. E o
         passo seguinte  a discusso das explicaes que so dadas pelas
         diversas teorias de conhecimento.  isso que nos vai ajudar,
         depois, a ver se as "explicaes" que encontramos dos problemas
         sociais so mesmo explicaes, ou se so mistificaes.
         
         1. Explicaes do empirismo
         
            O empirismo , s vezes, chamado tambm de positivismo
         empirista, pois o positivismo, na cincia, geralmente adota posi-
         es epistemolgicas empiristas.
            Para o empirismo, ou positivismo, um fenmeno est satis-
         fatoriamente explicado quando pode ser catalogado, colocado
         dentro de uma lei geral e abrangente; quando se pode dizer que
         ele  um fato, ou um elemento, um exemplo de uma determinada
         lei geral. Uma lei geral, nesse contexto,  entendida como uma
         generalizao emprica, como uma proposio geral sobre "con-
         junes constantes dos fatos". O conhecimento das leis  enten-
         dido em termos empricos; essas leis so, ento, aplicadas a
         situaes concretas para fornecer explicaes. O ponto central 
         o descobrimento de uma "lei" geradora de explicaes dessas
         generalizaes baseadas em conjunes-correlaes constantes.
            Faamos logo uma crtica dessa teoria de explicao:
            O fato de eu descobrir uma correlao, uma conjuno
         constante de eventos, no quer dizer que eu descobri um meca-
         nismo que gere tais eventos. A verdadeira explicao est na
         identificao dos "mecanismos" geradores, no nas aparncias,
         isto , nas correlaes constantes. Mesmo quando se faz um
         experimento, no se descobre qual o mecanismo gerador, apenas
         se cria um "sistema fechado" artificial, onde as coisas acontecem
         de modo parecido, no igual. Isso porque o mundo  um "sistema
         aberto", e no um sistema fechado. H muitos e diferentes
         mecanismos causais operando simultaneamente, com relaes
         mdtuas apenas contingentes e acidentais. Na natureza h apenas
         tendncias, probabilidades, dependendo das contingncias da
         multiplicidade de mecanismos. O que os experimentos fazem,
         quando so bons experimentos,  apenas criar um sistema fecha-
         do artificial. Mas esse sistema no pode ser simplesmente e
         univocamente identificado com o funcionamento do mundo l
         fora.
         
         2. Explicaes do realismo (transcendental)
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            As explicaes do realismo comeam por fazer uma distin-
         o entre as regularidades observadas e os mecanismos subja-
         centes que produzem essas regularidades. As teorias so sobre
         esses mecanismos, mesmo as teorias sociais.
            A "realidade" , ento, composta por trs nveis: mecanis-
         mos (os processos causais eficazes), os acontecimentos, aparn-
         cias (conseqncias ou efeitos dos mecanismos) e as
         experincias (os aspectos subjetivamente percebidos dos even-
         tos-aparncias). Veja o grfico acima para visualizar melhor.
            A teoria explicativa do realismo no assume um isomorfis-
         mo, uma identidade total entre as experincias e os eventos.
         Nossas percepes do mundo podem fazer com que falsaxnente
         vejamos, ou juntemos, eventos diferentes numa mesma percep-
         o; ou podemos, mesmo, separar eventos iguais em experin-
         cias diferentes. A experincia no  o acontecimento nem muito
         menos o mecanismo.
            Essa distino  a mesma que se faz, muitas vezes, entre
         essncia e aparncia. Com a diferena de que as aparncias, aqui,
         no so meros epifenmenos, mas tambm fazem parte da reali-
         dade.  verdade que essas experincias, como veremos, muitas
         vezes podem se transformar em mistificaes (que estamos
         discutindo aqui); mas essas mistificaes e os mecanismos que
         impedem a produo de explicaes concretas devem ser con-
         cretamente mostrados.
            O processo de explicao do realismo caminha, pois, pelos
         seguintes passos:
         a) Identificamse regularidades, correlaes, semelhanas entre
         fenmenos.
         b) Levanta-se a hiptese da presena de um mecanismo na
         imaginao: ele  inventado pela atividade criativa do cientista,
         tendo em considerao explicaes e teorias j existentes. Esse
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         mecanismo  uma hiptese (uma proposio) sobre o que deve
         ser verdadeiro "l fora", para que essas regularidades existam,
         aconteam.
         c) Atravs da investigao emprica (experimentos. quase-expe-
         rimentos ou outros procedimentos) testa-se a realidade dessas
         entidades e desses processos hipotticos, postulados.
            Se fssemos resumir, brevemente, como as trs teorias en-
         caram o processo explicativo, poderamos dizer:
            - O empirismo v a prpria regularidade como a descoberta.
            - O idealismo v o processo como terminado na criao do
         modelo.
            - O realismo (transcendental) implica diferentes passos, o
         processo inteiro.
         
         3. Comentrios possveis e necessrios
         
            Sobre o idealismo, podemos dizer: Ns percebemos que as
         "teorias" mudam. V-se, com isso, que teorias preexistentes no
         podem "construir" os fatos, pois, se assim fosse, elas nunca
         mudariam... Se elas mudam,  sinal deque "elas" tambm sofrem
         influncia dos fatos.
            Sobre o positivismo: se o que vemos (fatos empricos) rep-
         resenta de fato os mecanismos reais, como explicar o caso de
         Galileu? At hoje ns vemos que o "sol desce", o "sol se levanta":
          nossa experincia emprica. Mas at h algum tempo se dizia
         (a teoria dizia) que o sol se mexia; agora se diz que quem se
         movimenta  a terra. E houve at gente que foi para a fogueira
         por causa de fatos assim. Isso vem mostrar, entAo, que o positi-
         vismo empirista no  seguro, pois podemos nos enganar.
            H sada para isso?
             conhecida a metfora da caverna. Imaginemos uma caver-
         na, completamente escura, onde no se v absolutamente nada
         sem o auxlio de um foco de luz. Voc entra na caverna, ilumina
         as paredes e v algo parecido com um morcego.
            O idealista vai lhe dizer:
            - Voc no pode distinguir entre uma situao em que o foco
         de luz pode estar apenas iluminando algo que est, de fato, na
         
         
         
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         parede, ou se h um dispositivo no foco de luz funcionando
         apenas como um projetor, que mostra na parede apenas a imagem
         do dispositivo.
            E mais: suponha que os morcegos sejam vermelhos, as
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         paredes brancas e seu projetor tenha um filtro de luz vermelho.
         Voc iria concluir que no h morcego algum nas paredes...
            O empirista vai lhe dizer que no primeiro caso h um
         morcego na parede, sem nenhuma ddvida. E, no segundo caso,
         que no existe morcego ali. H uma sada entre essas duas
         alternativas?
            Cremos que sim. Ns podemos, por exemplo, desenvolver
         uma compreenso maior e mais completa (uma teoria) do foco
         de luz, de tal modo que possamos saber se l existe um disposi-
         tivo ou se h um filtro vermelho. Porque todo o problema est
         com o foco de luz, que aqui representa nosso conhecimento, a
         epistemologia,asteoriasdeconhecimento. Issovemmostraresta
         realidade; o que mais nos falta  prestar ateno ao que ns
         somos, como conhecemos, que limites nos so impostos, quem
         coloca tais limites, etc. E isso tem tudo a ver com o assunto que
         queramos discutir no incio desse captulo: a mistificao.
            Uma concluso, por assim dizer aceitvel, poderia ser a
         seguinte: o conhecimento  um processo contnuo, infinito. Nun-
         ca podemos dizer que chegamos ao seu fim. Mas tambm no
         podemos cair num ceticismo, dizendo que no  possvel conhe-
         cer coisa alguma (idealismo); ou num dogmatismo ingnuo e
         fundamentalista, que diz: as coisas so exatamente como as
         vemos (positivismo empirista). Temos de reconhecer que exis-
         tem, como existiram, idias e teorias erradas, mistificadas, ba-
         seadas em interesses, escusos at. Talvez seja aqui que se deva
         colocar a necessidade e a importncia imprescindvel da teoria
         crtica, isto , da teoria que comea a ser crtica dela mesma em
         primeiro lugar, para que se d conta de suas limitaes.
         
         4. Passando a limpo a mistificao
         
            A discusso anterior teve como finalidade embasar as dis-
         cusses que faremos agora. Dentro dos pressupostos anteriores,
         agora podemos ver alguns exemplos prticos de como funciona
         
         
         
         
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         a mistificao. Apesar de os exemplos serem muitos, queremos
         chamar a ateno ao menos para alguns, para que, com isso, se
         crie uma prtica crtica para posteriores anlises e descobertas.
         a)   Explicaes individualistas, psicologizantes de problemas
         sociais
            Um caso muito comum de mistificao  a explicao da
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         pobreza como sendo um caso singular, particular, prprio de
         determinadas pessoas: h pessoas pobres porque no trabalham,
         porque so preguiosas, porque bebem, porque no poupam, etc.
            Atrs dessa explicao est o pressuposto que, na nossa
         sociedade capitalista, todos os que querem podem vencer, ser
         ricos, conseguircasa, emprego. Everdadeque, s vezes, algumas
         pessoas poderiam estar numa situao melhor do que a em que
         esto, por motivos pessoais. Mas querer explicar o fenmeno
         social da pobreza, da falta de habitao, emprego, sade, educa-
         o atravs de motivos pessoais,  esquecer que existe uma
         engrenagem (um mecanismo) na mquina social, que  a respon-
         svel central pela produo bsica desses fenmenos. Essa en-
         grenagem  constituda pelas prprias relaes de produo,
         onde os que possuem os meios de produo levam vantagem
         automtica sobre os que no os possuem (relao de dominao);
         e onde os que trabalham no ficam com tudo o que produzem,
         mas com parte apenas, e o resto do trabalho  transferido, em
         forma de mais-valia, aos que possuem o capital (relao de
         ex~8rao). Isso ns j vimos detalhadamente na primeira par-
         te.
            Outro exemplo semelhante  o da criminalidade. O que
         normalmente se "acredita"  que as pessoas individuais cometem
         crimes. Elas, concretamente, fazem uma opo pelo crime, e
         agem assim. A diferena entre os que cometem e no cometem
         crimes  particular, psicolgica.
            Mas o que no se v  que o raio de possibilidades de escolha,
         aberto s pessoas,  estruturado socialmente e independe de suas
         vontades; e que  esse raio de possibilidades de escolhas, social-
         mente estruturado, que determina o nmero de crimes. Assim,
         h muito mais crimes onde se permite o uso de armas do que
         onde no se permite. H muito mais crime entre pessoas que no
         tm o que comer, e onde viver, do que entre pessoas que tm
         casa, comida, lazer, etc. H muito mais crime contra o patrim-
         nio, por exemplo, onde apenas alguns possuem os meios de
         produo (5% no caso do Brasil) e a grande maioria vive apenas
         de um trabalho explorado, ou no tem o que comer.
            O caso do desemprego  semelhante. Muitos pensam que as
         pessoas que no trabalham, os desempregados, so vagabundos
         e se quisessem poderiam ter emprego. Outros, menos ingnuos,
         colocam a explicao em causas intermedirias, como a meca-
         nizao, a automao, que seriam as responsveis pela diminui-
         o ou perda de emprego. Mas poucos vem as relaes
         capitalistas de produo como as "condies de possibilidade"
         desses efeitos todos. Em vez de a mecanizao e a automao
         tornarem o trabalho mais humano e suportvel, elas tambm (e
         na maioria das vezes) tornam as pessoas desempregadas.
         b) O fetichismo da mercadoria e do capital
            O exemplo mais importante e central da mistificao 
         certamente o que se costuma chamar de "fetichismo da merca-
         doria".
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            No  to complicado de se entender. Os objetos (mercado-
         rias produzidas) adquirem valor atravs de um processo de
         trabalho social que  inserido neles, isto , em virtude de serem
         produzidos como "mercadorias" dentro do processo capitalista
         de trabalho. Mas eles "se mostram~~, "parecem" ter essa proprie-
         dade devido somente ao fato de poderem ser trocados com
         outros, isto , por sua relao com outro objeto fsico. A relao
         social entre produtores toma, pois, a forma de uma relao entre
         coisas. Assim, parece que as pessoas trabalham porque seus
         produtos tm valor, quando, de fato, eles tm valor porque um
         trabalho foi inserido neles. As mercadorias parecem, ento, ter
         um poder prprio, autnomo, independente de quem as produziu.
            O mesmo fenmeno se d com o capital. O capital parece ter
         poder prprio, independente das condies que permitiram sua
         existncia. Sendo que o capital  necessrio para movimentar os
         meios de produo, tem-se a impresso que ele tambm  pro-
         dutivo. Mais: parece que o prprio capital produz lucros. Isso
         leva as pessoas, em geral (e at economistas), a verem o capital
         co trabalho como dois fatores de produo, cada um recebendo,
         conseqentemente, seus prprios benefcios.
         c) O "natural" e o "cultural"
            A conseqncia mais sria da mistificao talvez seja a
         confuso que  estabelecida entre a esfera do natural, a natureza,
         onde ainda no houve a interveno humana, e o cultural, o
         social, onde est sempre presente a relao humana, principal-
         mente atravs do trabalho. As pessoas no se do conta de que o
         mundo social existente, com suas propriedades, estruturas, im-
         posies, no  inevitvel, natural, eterno. Quando o capital
         assume o carter de um poder independente, como uma condio
         necessria para a produo, ento "parece" s pessoas que sem
         capital no haveria produo. O capitalismo toma-se, assim, a
         nica forma de organizao social capaz de organizar a produo
         de valores de uso industriais. Isso  de suma importncia, pois
         se as pessoas pensam e aceitam que no  possvel outra forma
         de sociedade, ento, mesmo que elas vejam que esta sociedade
          criminosa e exploradora, no faro nada para mud-la ou para
         lutar por uma outra, pois isso seria uma espcie de suicdio.
            Fica evidente a importncia crucial de se lutar por modelos
         alternativos, seja atravs de revolues, seja atravs de projetos
         libertadores, transformadores, com relao s estruturas existen-
         tes. A produo social de alternativas  uma das maneiras bsicas
         de lutar contra a mistificao de uma sociedade existente, que se
         coloca como a nica sociedade possvel.
         
         5. Uma precauo
         
             necessrio ter presente que mistificaes so distores da
         realidade, mas no so alucinaes. Elas representam relaes
         reais. Pessoas pobres podem ter caractersticas diferentes das
         no-pobres; criminosos podem ter traos de personalidade espe-
         cficos, prprios; a mecanizao e a automao diminuem, de
         fato, os empregos; as mercadorias assumem, de fato, um poder
         autnomo, que domina a relao de troca; e o capital recebe, de
         fato, um lucro proporcional a seu tamanho. Estes so, na verdade,
         efeitos concretos. A mistificao, contudo, est na distoro da
         compreenso do carter desses efeitos, de suas causas ou deter-
         minaes verdadeiras, das condies de sua existncia ou possi-
         bilidade. Se a mistificao fosse pura alucinao, seria muito
         fcil combat-la.
#
         





                                          XIII - Ideologia como legitimao
         
         
         
         
            Legitimao geralmente  tomada como a dimenso norma-
         tiva da ideologia. E, pode-se dizer, a noo mais comum de
         ideologia: ideologia como um "ismo", uma cosmoviso sistem-
         tica contendo valores, normas, noes do que  bom/mau, jus-
         to/injusto, desejvel/indesejvel.
            A legitimao (s vezes usa-se tambm a palavra justifica-
         o, mais ou menos no mesmo sentido) est intimamente ligada
          mistificao. Se eu digo que uma coisa  boa, que o capitalismo
          um sistema bom, por exemplo, eu posso facilmente justificar
         que se algum  pobre, no tem casa nem emprego, isso  devido
         a problemas particulares dele. A doutrinao, socializao, pro-
         paganda, etc. trabalham, na maioria das vezes, para fortalecer os
         suportes ideolgicos normativos de uma sociedade ou grupo;
         essa prtica funciona reativamente, bloqueando as lutas contra a
         mistificao.
            No captulo anterior lanamos as bases para a compreenso
         da mistificao, procurando mostrar as maneiras como ela se
         produz. Exploramos, para entender esses mecanismos, a relao
         entre ideologia e cincia.
         
            Nesse captulo queremos abordar outra dimenso, tambm
         provocante, relacionada, em geral,  legitimidade e  ideologia:
         a problemtica dos interesses. Como chegar a compreender as
         preferncias das pessoas? Como chegam a desejar e querer
         determinadas alternativas?
            Temos conscincia que estamos entrando aqui num terreno
         extremamente minado, cheio de percalos, onde no h solues
         
         
         
                           196                                              197
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         definitivas. No ser possvel chegar a uma concluso final. Mas,
         pelo fato de a discusso ficar em aberto, isso no quer dizer que
         no seja importante, e no nos possa ajudar nos objetivos a que
         nos propusemos.
            A dificuldade maior dessa aproximao reside no fato de que
         as motivaes, desejos, preferncias tm dimenses mltiplas:
         sociais, materiais, psicolgicas, etc. E alm disso, como tentare-
         mos explicar melhor adiante, muitas motivaes, desejos, justi-
         ficaes podem ter sua origem em mecanismos inconscientes de
         nosso ser. Apesar de, em nossas discusses de ideologia, enfati-
         zannos os aspectos conscientes, faremos referncia, de passa-
         gem, a alguns pontos ligados ao inconsciente, por ser
         praticamente impossvel evitar essa aproximao. 141
         
         1. Discutindo interesses
         
            Que so interesses? Como distinguir entre interesses reais,
         objetivos, verdadeiros, em contraste com interesses meramente
         aparentes, fenomnicos, supostos, percebidos?
            Essa realidade  delicada. Para incio de conversa, acontece,
         s vezes, que muitas pessoas nem conseguem dizer claro o que
         querem. Depois, h desejos e vontades que so ocultos, incons-
         cientes. Terceiro, as pessoas podem negar, conscientemente ou
         no, seus desejos e necessidades. Quarto, alm de afirmar ou
         negar, podem dizer uma coisa e mostrar outra pelo seu compor-
         tamento.
            As preferncias, interesses, desejos so obscuros e difceis,
         justamente porque esto includas aqui duas dimenses: a dimen-
         so do desejo-necessidade-vontade e a dimenso da razo-co-
         nhecimento. Desse modo, algum pode ter desejos-interesses-
         necessidades dos quais no est consciente e no conhece, e pode
         ter conhecimentos-conscincia de interesses-desejos-vontades
         que no tm, e passar, com isso, a desej-los. Ainda, como vimos
         acima, pode estar enganado a respeito tanto de seu conhecimento
         como de seus interesses. E isso se mostra pela prtica: posso
         confessar um conhecimento e interesse que meu comportamento
         nega ou repudiar um interesse e conhecimento que minha con-
         duta apresenta. Todos ns j vimos casos ou de uma ou de outra
         dessas possibilidades.
            Toda essa complexidade pode sugerir, talvez, que essa pro-
         blemtica no possa ser discutida. Cremos que no. Mesmo que
         no se possa chegar a deslindar a questo, podemos, ao menos,
         nos aproximar mais de seu entendimento, e, com isso, ao menos
         sugerir possibilidades de superar diversas contradies e impas-
         ses.
#
         





            Pode-se dizer que h duas maneiras, relacionadas, em que se
         pode dizer que as pessoas tm um entendimento distorcido
         (obscurecido) de seus verdadeiros interesses.
            A primeira e mais simples  quando o que a pessoa "real-
         mente quer"  bloqueado psicologicamente atravs de distintos
         mecanismos. Esse bloqueio  um mecanismo real que obstrui a
         tomada de conscincia das preferncias-desejos que existem, de
         fato, na subjetividade da pessoa. Caso se compreenda a operao
         de tais obstrues psicolgicas, pode-se, ento, dizer algo sobre
         o carter dessas distores. Nesse sentido, as preferncias reais
         (no distorcidas) esto presentes na subjetividade das pessoas,
         esperando apenas serem desveladas.
            A segunda maneira tem a ver com a prpria formao de
         nossas preferncias: tem, pois, um carter histrico. A anlise
         ter de ser sobre que tipo de preferncias a pessoa teria desen-
         volvido caso no estivessem presentes esses mecanismos hist-
         ricos de distoro.
            A Escola de Frankfurt resume isso dizendo que interesses
         "verdadeiros" so os que as pessoas teriam, caso suas subjetivi-
         dades tivessem sido desenvolvidas sob condies de "conheci-
         mento perfeito" e "condies timas" (no-privao e
         no-coero).
            O enfoque "conhecimento perfeito" se refere  situao em
         que uma pessoa no tem um verdadeiro interesse, pois no tem
         as condies de "sabe?' as verdadeiras razes de por que tem (ou
         no tem) tais e tais desejos, vontades, etc. Ignorante das causas
         e conseqncias de seus atos , por exemplo, um alcolico que
         no sabe nem as razes de por que bebe, nem as conseqncias
         de beber. Como se v, esse enfoque traz consigo todos os
         problemas vistos no capftulo anterior referentes  mistificao,
         isto , s dificuldades inerentes ao conhecimento.
         
         
         
                           198                                              199
         
         
         
         
         
         
            No enfoque das "condies timas", uma pessoa no tem
         interesses verdadeiros, objetivos e reais porque esses desejos
         provm de circunstncias especficas; e essas circunstncias
         impossibilitam a criao de interesses verdadej~s. criando, ao
         contrrio, interesses diferentes, e at selvagens. As condies
         de privao, subnutrio ou mesmo de coero vo influir na
         criao de interesses distorcidos, que a longo prazo prejudicam
         a todos.
            Essa segunda maneira  a mais complexa, e  por este
#
         





         caminho que podemos comear a lanar alguma luz, ape?21 de
         termos conscincia de outros fatores que aqui interferem.
         
         2. Interesses objetivos e verdadeiros
         
            Podemos comear a falar de interesses objetivos e verdadei-
         ros de uma pessoa a partir do fato de essa pessoa pertencer a
         determinado grupo ou a determinada classe. E. correspondente-
         mente, podemos falar de "distores" desses interesses quando
         ela no se d conta deles.
            Por exemplo: pode-se supor que as pessoas, em geral, tm
         determinadas preferncias-interesses, mesmo que no estejam
         conscientes disso. Ningum pode negar que ns temos interesse
         em aumentar nossa capacidade de fazer escolhas e de concreti-
         z-las. Esses interesses-preferncias podem estar bloqueados,
         mas "l no fundo" as pessoas, na sua maioria, tm um desejo de
         liberdade e autonomia. Liberdade  entendida aqui no somente
         como ausncia de coero (liberdade de), mas tambm como
         capacidade de agir (liberdade para). Ento, na medida em que a
         capacidade real que as pessoas possuem para fazer e concretizar
         escolhas - sua verdadeira liberdade -  conformada, limitada,
         reduzida sistematicamente pela sua posio dentro da estrutura
         de classe, elas passam a construir interesses de classe objetivos,
         baseados nesses interesses concretos de liberdade. E na medida
         em que as preferncias, conscientes ou inconscientes, das pes-
         soas, as levam a fazer escolhas que reduzem essa capacidade, ou
         bloqueiam seu crescimento, pode-se dizer que essas pessoas
         esto agindo contra seus interesses de classe verdadeiros, ou
         objetivos.
            Andrew Levine 1~i um argumento muito interessan-
         te, onde ele mostra que interesses materiais concretos para maior
         renda, ou mais possibilidade de consumo, fazem parte do inte-
         resse maior de liberdade. Por isso, ser explorado  restrio de
         liberdade, pois reduz a capacidade das pessoas de agir, na medida
         em que os recursos materiais so parte crucial dessa capacidade
         de poder agir. Nesse sentido, Levine mostra claramente que
         igualdade no  realmente um valor diferente da liberdade, pois
         as desigualdades so um impedimento fundamental para a liber-
         dade mesma.
            Reconhecendo, pois, que no se pode chegar sempre  com-
         preenso profunda e total de como se constroem os desejos,
         preferncias, interesses, etc., nem por isso devemos abandonar a
         tentativa de tentar descobrir, tanto em ns mesmos como nos
         grupos em que trabalhamos, como se constroem esses interesses
         (enfoque histrico) e como podemos desvel-los, mostrar que
         esto dentro de ns mesmos, mas obscurecidos. Todos ns temos
         determinados interesses. Alguns so indiscutveis, inegveis,
         como maior liberdade, menos sofrimento, mais autonomia. Mas
         podem existir distores que provenham da informao falsa
         (mistificao) ou do falso convencimento (legitimao). O pres-
#
         





         suposto da Escola de Frankfurt  de que pessoas e grupos tero
         interesses verdadeiros no momento em que puderem refletir e
         agir em condies de liberdade (no coero) e pleno conheci-
         mento (informao).
         
         3. Tipologia e evoluo de determinados interesses
         
            No contexto amplo e ambivalente dos interesses podemos
         apontar para possveis distines entre alguns de seus tipos e
         como se processa, em geral, determinada evoluo na satisfao
         desses interesses. Essa tipologia se refere tanto a interesses
         pessoais como coletivos (de classe).
            Inicialmente podemos distinguir entre interesses intrnsecos
         e instrumentais.
         
            Intrnsecos - so os interesses referentes  finalidade princi-
         pal, ao objetivo ltimo que as pessoas ou atores perseguem.
         
         
         
         
                           200                                             201
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            Instrumentais - so os interesses referentes aos meios que
         as pessoas ou grupos possuem para conseguir e realizar os
         interesses intrnsecos.
            Tambm podemos fazer distino entre interesses imediatos
         efundamentais.
         
            imediatos - so os interesses primeiros que derivam auto-
         maticamente de uma determinada situao, caso essa seja aceita.
         Por exemplo: o sindicalismo "de resultados" aceita o jogo, as
         normas impostas pelos outros, e se interessa, de imediato, pelo
         aumento dos salrios.
            Fundamentais - so os interesses referentes ao prprio jogo,
         por assim dizer, e chegam mais prximos  estrutura interna do
         fenmeno. No caso do jogo. no se restringem apenas  discusso
         da deciso sobre maneiras de jogar, mas querem analisar as
         regras do jogo, pois pode ser que estas faam com que algum
         automaticamente sempre perca.
            Ao relacionar esses quatro diferentes tipos de interesses,
         pode-se perceber tendencialmente uma trajetria, uma evoluao
         entre esses diversos grupos relacionados, iniciando no nmero 1
         e dirigindo-se ao nmero 4, conforme o quadro a seguir:
         
         
         Quadro 5- Tipologia e trajetria de interesses relacionados
                       Interesses instrumentais  Interesses intrnsecos
                       2. Salrios mais altos:   1. Sobrevivncia: comer,
           Interesses  menos explorao,    beber, ter sade, bem-
           imediatos   menos sofrimento;    estar; o mnimo fsico e
                       alvio das doenas, etc,  psicolgico.
                       3. Mudana das estru-     4. O tipo de sociedade
           Interesses  turas da sociedade, das   que se deseja: tipo
           fundamentais   relaes estruturais   de comunidade, de
                       (mudana das regras do    cidade, estado; que
                       jogo).  estilo devida.
         
         
            Comentando o quadro
            H interesses intrnsecos e imediatos, como por exemplo a
         sobrevivncia, o desejo de felicidade, um mnimo de tranqili-
         dade psicolgica (n. 1). Esses interesses intrnsecos e imediatos
         nos levam, de maneira geral, a procurar os meios mais prximos
         possveis para concretiz-los: salrios justos, dtninuio da ex-
#
         





         plorao, superao do sofrimento psquico e fsico (n. 2). Uma
         vez conseguidos o 1 e o 2, e  medida que as pessoas vo
         percebendo as verdadeiras razes por que esto nessas situaes,
         elas tendem a caminhar numa linha de transformao das estru-
         turas dessa sociedade, atravs dos meios que so mais acessveis
         (n. 3). J  uma caminhada bem mais difcil e complexa: geral-
         mente demora muito tempo e as resistncias a ela so muito
         grandes. E ainda maior quando a consecuo desses interesses
         fundamentais-instrumentais vm conflitar ou dificultar os inte-
         resses primrios, tanto intrnsecos como imediatos, O maior
         nmero de lutas polticas se coloca aqui, como por exemplo as
         lutas populares de participao, projetos alternativos, etc.
            As lutas travadas no n. 3j contm, em germe, as perguntas:
         Quais os interesses fundamentais e intrnsecos de uma socieda-
         de? Que tipo de sociedade ns desejamos e queremos? Que
         valores, que tipo de convivncia social ns desejamos? (n. 4).
         Esse j  um projeto nacional e sempre ter complementao,
         pois nunca um grupo humano poder conseguir e realizar, em
         plenitude, todos os seus interesses fundamentais e intrnsecos. E
         sempre uma luta por uma sociedade utpica, ideal, mas que pode
         inspirar as lutas que se travam nos estgios anteriores.
            A tipologia-trajetria pode ser aplicada tanto a interesses
         particulares, pessoais, como a interesses coletivos, sociais. Po-
         de-se dar, pois, que uma pessoa ou uma pequena comunidade,
         um pequeno grupo,j estejam no estgio 3. refletindo e discutin-
         do interesses do estgio 4. As Comunidades Eclesiais de Base,
         determinados grupos de ativistas, sindicatos mais maduros e
         coerentes certamente j se colocaram interesses bem mais avan-
         ados. Esses grupos vo sofrer, conseqentemente, presses e
         coeres bem mais fortes,  medida que a "mquina" do sistema,
         como um todo, ainda se localize em estgios inferiores. A luta
         mais difcil coloca-se, em geral, entre os estgios 2 e 3, pois o n.
         1  dado como indiscutvel (apesar de no estar dignamente
         concretizado em muitas sociedades), e o n. 4 coloca-se mais
         numa dimenso terica e filosfica.
         
         
         
                             "A,,                                            'A,
         
         
         
         
         
         4. Os mecanismos de criao de interesses-normas
         
            Uma palavra deve ser dita sobre os mecanismos mais co-
         muns de criao de legitimaes: interesses, normas, desejos,
         justificaes, preferncias. Comoj vimos, em pane, no decorrer
         das discusses anteriores, so vrios os elementos que entram na
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         possvel explicao de nossas legitimaes. Podemos, talvez,
         resumi-los em trs grupos principais:
         a)   Os mecanismos inconscientes - Como a psicanlise ajudou a
         desvelar,  fundamental, na compreenso das legitimaes e
         justificaes, compreender no tanto a estrutura dessas legitima-
         es, mas a formao do necessrio tipo de estrutura de perso-
         nalidade que d apoio e sustentao a tais legitimaes. Vimos
         anteriormente, ao analisarmos a ideologia, como h tipos de
         racismos, de fascismos que subjazem a um tipo de estrutura da
                                                        '45
         personalidade. Esses mecanismos so os mais difceis de
         detectar, pois no se consegue ter conhecimento de tudo o que
         se passou na histria de uma pessoa, que venha a influenciar na
         formao de sua personalidade e de seu carter. E importante,
         contudo, que se preste ateno a essa dimenso, que muitas vezes
         pode ser a decisiva.
         b) Os mecanismos cognitivos - Discutimos isso no incio do
         captulo, ao analisarmos a relao entre justificao e mistifica-
         o. Humainflunciarecprocamuitointensaentreumaeoutra.
         A dissonncia cognitiva, isto , o processo pelo qual as pessoas
         so levadas a mudar suas crenas em determinado objeto para
         no sofrer ou terem de suportar certas contradies, pode ser
         aplicada a esse caso: As pessoas vem ou so informadas de que
         determinadas prticas, aes, lutas so impossveis, difceis, e
         com isso elas no se animam a enfrent-las, passam a julg-las
         impossveis, idealistas. E se algum julga uma coisa impossvel,
         inatingvel, automaticamente passar a desvaloriz-la e a no
         desej-la.
         c)   As prticas sociais (socializao, doutrina do) - Aqui se
         coloca, com certeza, o mecanismo mais importante de criao de
         legitimaes, justificaes, normas, interesses. As pessoas, des-
         de sua tenra idade, so ensinadas e socializadas atravs de
         modelos valorativos, normativos, atravs da televiso, escola,
         educao moral e cvica, religio, etc. Muitas vezes, os processos
         usados so de manipulao simblica e propaganda. E essas
         prticas so sustentadas e reproduzidas atravs de sanes ou
         recompensas (prticas afirmativas ou negativas). As normas e
         interesses se tomam to "normais" e "comuns" que ser neces-
         sria uma outra prtica ativa e consciente de resistncia para
         minar sua fora. Ao se entrar na escola, por exemplo, micro-pr-
         ticas so impostas, como os processos de avaliao que criam e
         reproduzem o individualismo, a competio, a concorrncia.
            Nunca  demais insistir na importncia das prticas.  atra-
         vs da prtica que se pode compreender melhor o problema da
         relao entre conscincia e realidade. A prtica no  apenas uma
         atividade intencional que produz a vida material, transforma a
         natureza, mas  a transformao dos prprios homens. A prtica
          a maneira especfica de os homens serem.
            Mas h ao menos dois tipos diferentes de prtica:
            - Prtica reprodutiva, que  o processo pelo qual os homens
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         criam sua existncia material.  a fixao da atividade social, a
         consolidao do que ns mesmos produzimos, num poder obje-
         tivo sobre ns, escapando de nosso controle, ameaando nossos
         planos, destruindo nossos clculos. Ela reproduz relaes de
         dominao.
            - Prtica emancipadora ou revolucionria, que leva  trans-
         formao das relaes sociais de tal modo que a atividade se
         coloque, e se d, em relaes sociais que no sejam mais de
         dominao. Essa prtica de transformao das relaes sociais
         coincide com a transformao dos homens mesmos.
            Pode-se ver que essas diversas prticas esto interligadas. E
         essas prticas sociais so as decisivas na formao de normas e
         interesses. Aquelas influenciam inclusive na formao de uma
         estrutura de personalidade. E pode-se tambm dizer que a estru-
         tura de carter, em parte, pode apresentar limitaes, pode me-
         diar os efeitos das prticas sociais na formao de interesses e
         normas.
         
         
         
             conhecido o tratamento que Max Weber146 d  realidade
         da legitimao. Embora ele no chegue a referir, ou relacionar,
         
         
         
                           204                                             205
         5. Legitimao versus dominao
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         a legitimao  ideologia,  a isso que ele se refere ao falar das
         formas de legitimao da autoridade.
            Weber distingue trs tipos de legitimao: a carismtica,
         baseada em qualidades especiais e excepcionais de um lder: a
         tradicional, baseada no respeito  autoridade e  tradio; e a
         racional-legal, baseada na adeso a procedimentos racionais de
         processos tidos como necessrios.
            Ivan Szelenyi,'47 partindo dessa lgica weberiana, tenta
         construir uma tipologia de sistemas de classe, tendo como prin-
         cpio bsico o conceito de legitimao. Em cada sistema, segun-
         do ele, a classe dominante seria a que tivesse o mais alto poder
         de legitimao: no capitalismo, a propriedade privada; numa
         sociedade de economia racional-distributiva, seriam os que te-
         riam poder de planejamento racional, tcnico: os "intelectuais"
         seriam, ento, a "nova classe".
            Pode-se apontar facilmente a precariedade dessas explica-
         es. Se  verdade que esses princpios de legitimao ajudam a
         "reproduzi?' sistemas de dominao e explorao, eles, sem
         dvida, no os constituem, no os "produzem"; quem os constri
         so os mecanismos especficos, atravs dos quais os bens e a
         mais-valia so apropriados e distribudos. Se existe uma "nova-
         classe", no  pelo fato de que o princpio de legitimao seja
         diferente do princpio do capitalismo, mas  porque o mecanismo
         empregado  outro: a apropriao dos lucros se d agora atravs
         do planejamento estatal, planejamento tcnico ou coisa semel-
         hante.
            Apesar de,  primeira vista, no parecer, profundas diferen-
         as tericas e metodolgicas subjazem a essas posies. O que
         se esconde, ento, por trs da tentativa de querer explicar a
         histria atravs de princpios de legitimao ou pelas diferentes
         relaes de produo?
            Entre os pontos principais podem-se colocar os seguintes:
         a) Idealismo versus materialismo - Se algum cr que as idias
         tm uma lgica autnoma de desenvolvimento, ento tipologias
         de idias/sistemas de pensamento podem constituir uma base
         apropriada de tipologias para a sociedade. Se, porm, a lgica
         cumulativa do desenvolvimento est enraizada nas condies
         materiais (desenvolvimento e contradio das foras e relaes
         de produo), ento a periodizao no se far ao redor de
         princpios normativos.
         b) Determinantes individuais versus detenninantes sociais - Se
         a sociedade  entendida como consistindo de atores individuais
         engajados numa "interao significativa", e todos os detenninan-
         tes sociais tm seus efeitos somente em virtude das maneiras
         como eles constroem sistemas de significao, ento novamente
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         uma tipologia de sociedade baseada em sistemas de significao
         ou normas ser apropriada. O "individualismo metodolgico"
         apoiar a centralidade de categorias de subjetividade, constituin-
         do a base para distinguir formas de sociedade, pois sociedades
         iro se diferenciar somente pelo fato de consistirem de diferentes
         agregados de sistemas-de-ao-significativa.
            Por outro lado, se as relaes sociais so reais e possuem
         efeitos reais irredutveis aos significados/subjetividades das pes-
         soas dentro dessas relaes, ento uma tipologia baseada direta-
         mente na forma daquelas parece ser a melhor.
            Weber, quer nos parecer, supe uma epistemologia idealista
         e uma metodologia individualista, embora fale, muitas vezes, de
         fenmenos sociais agregados. Os marxistas, por sua vez, geral-
         mente usam uma epistemologia que se apia num realismo
         transcendental e uma metodologia estrutural, ou ao menos uma
         metodologia dialtica que permite uma lgica autnoma das
         relaes sociais estruturadas. Esses princpios subjazem s dife-
         rentes maneiras de ligar normas  histria.
                 148   -
            Habermas propoe uma terceira alternativa, espcie de
         lgica de sistemas duais, que prope um desenvolvimento para-
         lelo das condies materiais e das estruturas normativas, e assim
         argumenta em favor de uma genuna reciprocidade simtrica
         entre os dois: haveria uma trajetria histrica endgena de nor-
         mas, baseada numa crescente complexidade moral, seguindo
         paralelamente a trajetria dinmica das foras e relaes de
         produo.
         
         
         
                           206                                              207
         
         
         
         
         
                                           XIV - Ideologia como hegemonia
         
         
         
         
            Na discusso da ideologia, nos dias de hoje, o conceito de
         hegemonia est entre os mais mencionados e discutidos. As
         idias de Gramsci, filsofo, poltico, lder sindical e ativista
         italiano, que trabalhou este conceito, esto bastante em voga, e
         parece indicarem alternativas bastante interessantes e inovadoras
         para a luta popular.
            Embora seus escritos no pudessem ser totalmente transpa-
         rentes e diretos devido a problemas estratgicos de represso, a
         exegese de seus textos, nos ltimos anos, est trazendo sempre
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         mais iluminao para a compreenso das prticas pop~lares,
         principalmente no que se refere s prticas ideolgicas.
            Embora hegemonia seja usada em muitos sentidos diferentes
         e est principalmente ligada a prticas dominativas (como por
         exemplo: dominao ideolgica ou dominao hegemnica co-
         mo sinnimo de ideologia dominante ou dominadora), seu sig-
         nificado, no pensamento de Gramsci, parece ser um pouco
         diferente. Gramsci usa o termo hegemonia fundamentalmente
         para designar a capacidade de um grupo, de uma classe, para
         exercer o que ele chamou de "liderana moral e intelectual".
            Assim, hegemonia seria um tipo de liderana. E o aspecto
         moral e intelectual seria o aspecto ideolgico da hegemonia. O
         intelectual corresponderia aos aspectos cognitivos da ideologia,
         vistos no captulo da mist jficao. E o moral corresponderia aos
         aspectos normativos-justificativos da ideologia, discutidos no
         captulo da legitimao. O conceito de hegemonia como "lide-
         rana moral e intelectual" incorporaria os vrios aspectos discu-
         tidos at aqui.
            Mas h um aspecto novo que surge dessas relaes, que
         parece globalizar e aprofundar mais a compreenso da ideologia:
          a combinao de todos esses fatores (liderana, aspecto inte-
         lectual e aspecto moral) que faz surgir a dimenso do "possvel',
         do que passa a ser a esfera correta, razovel e realizvel de uma
         determinada situao social. A hegemonia definiria, assim, os
         limites do "possvel", do que pode e deve ser.
            Nesse captulo discutiremos primeiramente os aspectos liga-
         dos  liderana, para depois examinar o que significa liderana
         intelectual e moral.
         
         1. Hegemonia como liderana
         
            Hegemonia , antes demais nada, uma liderana. Mas no 
         uma liderana dominadora baseada na coero, na fora, na
         imposio. E uma liderana baseada no consenso. Um lder,
         nesse sentido,  algum que induz uma pessoa a fazer as coisas
         em virtude de garantias que essa pessoa tem de que aquele est
         interessado em promover seu bem-estar e interesses.
            Falando em termos de classe, uma classe dominante tem
         capacidade de liderana (hegemnica) quando pode ligar, de
         certo modo, os interesses das classes subalternas aos seus pr-
         prios interesses, na consecuo de um projeto social que ao final
         ir reproduzir a sua prpria posio dominante. Liderana, nesse
         sentido, implicaacapacidade de imprimiruma direo especfica
         ao desenvolvimento social, de estabelecer o projeto da classe
         dominante como um projeto universal, ligando e inserindo os
         interesses das classes subalternas nesse projeto.
            Uma classe hegemnica no , pois, apenas uma classe
         dominante, mas uma classe dominante que consegue dominar de
         uma maneira especial: ligando os interesses das classes subalter-
         nas e dos outros grupos ao seu prprio interesse. Veremos, no
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         captulo seguinte, um exemplo bem claro de como isso se d,
         hoje em dia, nas fbricas: e como patres. ou mesmo governos,
         conseguem incentivar e desenvolver prticas extremamente in-
         teligentes e eficazes para poder manter a dominao. Quando um
         
         
         
         
                           208                                               209
         
         
         
         
         
         
         pas, por exemplo, est em fase de acumulao estvel e de
         expanso, a burguesia tem mais possibilidades de gerar uma base
         material para garantir uma hegemonia atravs de polticas redis-
         tributivistas (estado Keynesiano).
         
         2. Hegemonia como liderana moral
         
            Mas hegemonia  uma liderana moraL Aqui  necessrio
         distinguir claramente entre duas maneiras diferentes das "ideo-
         logias normativas" se oporem; ento comea a aparecer o "novo'~
         de Gramsci:
         a) Ideologias normativas podem se oporem termos antagnicos,
         onde cada tpico de uma ideologia (proletri, por exemplo), se
         ope, ponto por ponto,  ideologia burguesa:  a luta ideo)g~ica
         como "confrontao de duas ideologias paradigmticas
         b) Ideologias podem ser vistas como contendo muitos elementos
         idnticos, mas organizados dentro de uma "matriz" diferente. Por
         exemplo: a crena na liberdade individual  um elemento tanto
         da ideologia burguesa como da ideologia proletria. Mas o
         sentido da liberdade muda totalmente quando ela  ligada 
         "matriz" da propriedade privada, no sentido burgus (isto , que
         para se ter liberdade  preciso ter propriedade privada); ou
         quando  ligada  "matriz" da autodeterminao coletiva, na
         ideologia proletria. Para a ideologia burguesa, liberdade  "cada
         um fazer o que quer": na prtica, somente os que possuem
         propriedade e bens conseguem fazer o que querem, e a maioria
         no consegue fazer nem o que precisa para poder sobreviver. J
         numa viso comunitria e solidria, liberdade  uma deciso
         conjunta do que  necessrio a cada um, dentro das limitaes
         objetivas das possibilidades concretas, de tal modo que todos
         possam fazer o que desejam, limitados pelas exigncias do bem
         comum.
            Nessa nova viso de hegemonia, a luta ideolgica se d na
         apropriao ou reapropriao de determinados elementos, dentro
         de matrizes especficas, mais do que na confrontao de dois
#
         





         paradigmas opostos. A luta ideolgica  uma luta dentro do
         terreno da ideologia, mais do que entre ideologias.
         
         
         
         
         
                                                        210
            A hegemonia ideolgica como liderana moral  entendida
         dentro do segundo aspecto da ideologia normativa. Podem-se
         notar, nesse contexto, inmeras situaes onde se travam lutas
         ideolgicas renhidas, e muitas vezes os grupos no se do conta
         da importncia decisiva dessas lutas. Dessa maneira, aspectos de
         princpios normativos e bandeiras de luta que esto enraizadas
         nas reivindicaes populares, na conscincia e cultura populares,
         so apropriados pela burguesia e ligados a outros elementos
         ideolgico-morais, de tal modo que passam a servir ao projeto
         burgus. Exemplo disso so, entre outros:
         a) A luta pela Reforma Agrria  transformada numa luta em
         favor do comunismo, atravs de um sutil mecanismo que chega
         a transformar completamente o sentido das coisas. Os burgueses
         argumentam que a luta dos "sem-terra"  uma luta "contra a
         propriedade privada", contra o desenvolvimento da produo,
         uma luta que leva ao comunismo. Poucos se do conta de que
         lutar pela reforma agrria  lutar exatamente em favor de uma
         propriedade para cada pessoa. Se a propriedade privada  coisa
         assim to excelente, por que no estender esse benefcio para o
         maior nmero de pessoas possvel, ao menos 50% das famlias,
         em vez de 5%, como  agora? Mais: se lutar pela reforma agrria
          lutar pelo comunismo, ser difcil entender que comunismo 
         esse, em que a maioria das pessoas ter uma propriedade priva-
         da...
            A grande armadilha que se coloca aos ativistas  que uma
         luta para que todos tenham propriedade e para que todos sejam
         livres passa a significar oposio da liberdade individual ao
         direito de propriedade. E muitos, sem se darem conta, passam a
         aceitar os termos da luta impostos pela burguesia, a "matriz"
         ideolgica burguesa. A medida que a burguesia  capaz de definir
         a forma de luta ideolgica, ela efetivamente afasta a ideologia
         revolucionria da classe trabalhadora, pois muitos desses ele-
         mentos esto organicamente relacionados com esta classe.
         b) Outro exemplo de "apropriao ideolgica" ou de transposi-
         o de elementos e princpios normativos de grupos populares
         para a burguesia  a "recuperao" (roubo) de determinados
         conceitos que so significativos dentro de uma matriz ideolgica
         de grupos populares, como "comunidade", "opo pelos pobres"
         
         
         
         
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                                                        211
         
         
         
         
         
         e sua colocao dentro de um contexto capitalista e burgus.
         "Comunidade", "ao comunitria" passam a significar a parti-
         cipao em projetos definidos e planejados unicamente pelo
         poder pblico, sem a colaborao das comunidades. Elas so
         apenas convidadas, posteriormente, a "fazer~~, "executar" os
         projetos. Os resultados e benefcios serviro, na maioria das
         vezes, como arma e argumento eleitoral dos diferentes polticos.
         Nesse sentido, o termo "participao"  totalmente mistificado,
         pois a participao das comunidades, como dos operrios de uma
         fbrica, se restringe apenas  execuo (trabalho), sendo eles
         privados tanto do planejamento (deciso) como dos frutos (lu-
         cros) que permanecem no domnio exclusivo da burguesia.
            O mesmo se d com a assim chamada "opo pelos pobres".
         Como o conceito traz em si alto poder de comprometimento
         social numa linha de mudanas,  necessrio "recuper-lo",
         resgat-lo, inserindo-o numa "matriz" nova, pensada e planejada
         por grupos receosos de uma possvel exploso das massas mar-
         ginalizadas.  transformado, assim, num conjunto de aes
         paternalistas de governos totalmente comprometidos com os
         projetos capitalistas, mas que necessitam de uma legitimao
         diante de uma ingente populao de pobres e miserveis.
         
         3. Hegemonia como liderana intelectual
         
            Finalmente, a hegemonia  uma liderana intelectual:  a
         dimenso cognitiva da ideologia. Para ser hegemnica, a ideolo-
         gia burguesa no pode negar a experincia concreta e cotidiana
         dos trabalhadores, desprezar as categorias cognitivas surgidas do
         dia-a-dia das pessoas que vivem numa sociedade capitalista. 
         necessrio apropriar-se dessas categorias, integr-las numa es-
         trutura intelectual que seja coerente e atuante. Mas essas catego-
         rias devem estar dependentes da lgica que sustenta a dominao
         da classe dominante,
            Esse  o trabalho especfico e indispensvel da propaganda.
         Isso  o que uma ideologia terica e eficiente deve fazer. E a esse
         trabalho que se dedicam os intelectuais burgueses, muitas vezes
         inconscientemente, pois no se do conta ou no querem ver a
         possibilidade de projetos e propostas de mudana real. Recorren-
         do ainda  analogia do jogo, no perguntam a respeito do tipo de
         
         
         
                                                        212
         jogo: apenas comeam a negociar a possvel mudana das regras,
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         mas tudo dentro do intocvel sistema capitalista
         
         4. Contra-hegemonia: requisito da luta ideolgica
         
            O que se depreende da discusso acima  que se toma
         necessrio um trabalho concreto de construo de uma nova
         hegemonia, contrria  hegemonia da classe dominante. Aqui se
         coloca todo o trabalho de Oramsci e a importncia que ele dedica
         aos intelectuais.  necessrio uma organizao, uma articulao
         das estruturas normativas e cognitivas que sustentem um projeto
         diferente de sociedade e de prticas sociais diversas.
            Como vimos antes, smbolos, normas, crenas, bandeiras de
         luta, propostos pelos grupos subalternos, so sistematicamente
         re-apropriados e incorporados no projeto dominante da burgue-
         sia. A proposta alternativa dos hippies, a luta pela igualdade e
         liberdade da mulher, a luta pela terra, pela ecologia, aos poucos
         vo sendo incorporadas pelo projeto dominante, que passa a usar
         seus smbolos, colocados dentro de uma nova matriz hegemni-
         ca. Assim, liberdade, para a mulher, fica sendo competir com o
         homem por um emprego no mercado de trabalho; as empresas
         mais poluidoras passam a ser campes de defesa da ecologia,
         com o emprego de macias propagandas atravs dos meios de
         comunicao; os governos colocam a reforma agrria dentro de
         seus projetos prioritrios, para garantir sua no-execuo, pois
         ningum vai levantar mais essa bandeira; a produo hippie
         passa a ser a reafirmao da produo capitalista e do livre
         mercado.
            O grande trabalho do cientista social  detectar os mecanis-
         mos dessa hegemonia e analisar as estratgias de luta emprega-
         das pela burguesia para frustrar o surgimento de uma
         contra-hegemonia. E aqui que se trava a luta mais concreta e mais
         difcil nas sociedades capitalistas burguesas. A guerra no  de
         assalto ao poder~ "guerra de manobra, mas uma "guerra de
         posiao cujo objetivo  a eroso do poder hegemnico da
         burguesia. Tais lutas requerem instituies alternativas, meios
         de comunicao alternativos, projetos culturais que desenvol-
         vam as prticas populares, enfim, a criao do que muitas vezes
         se chama de "esfera pblica proletria" ou "popular", onde a
         
         
         
                                                        213
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         cultura das classes populares  articulada e desenvolvida. Essa
         luta  demorada, exige muito mais tempo, exige prticas diferen-
         tes e intelectuais diferentes.
            A hegemonia  a luta para mostrar que h outro projeto
         "possvel". O que a ideologia hegemnica burguesa tenta fazer
         , de um lado, incorporar sistematicamente possveis dimenses
         do projeto popular que possam apresentar contradies; de otro
         lado, tornar os projetos alternativos irreais, idealistas, sonhado-
         res. E isso no  feito apenas com palavras, mas principalmente
         com aes concretas.
            Coloca-se aqui o grande dilema dos grupos e das foras
         populares: com medo de serem absorvidos pelo projeto domi-
         nante, polarizam suas posies, isolam-se polemicamente, com
         medo da ideologia hegemnica. O esforo de no se deixarem
         contaminar pode marginaliz-los e isol-los da prpria classe
         trabalhadora. Um projeto hegemnico trazem si esse perigo, mas
         , ao mesmo tempo, uma fora potencial. Engajar-se na luta,
         dentro do terreno do adversrio, criar um partido e concorrer s
         eleies para o parlamento, significa correr o risco da absoro
         e da cooptao. Recusar engajar-se na luta nesse terreno pode
         significar, por outro lado, aprofundar o isolamento e a margina-
         lizao. Uma luta hegemnica que tenha sucesso significa em
         ltima anlise, a mudana do prprio terreno (outro jogo).I~2
            Uma palavra final sobre o mecanismo da dominao na
         hegemonia: ao contrrio das prticas dos aparelhos repressivos,
         a dominao burguesa, na hegemonia, opera atravs do que
         Gramsci chamou de "consenso~~. Esse consenso ao sistema he-
         gemnico  gerado atravs da operao dupla da marginalizao
         das alternativas, de um lado, e da parcial recuperao, absoro
         dos interesses materiais e exigncias normativas, de outro. Ape-
         sar de o consenso no se opor totalmente e no excluir a coero,
         ele subordina e incorpora a subjetividade individual de uma
         maneira diversa da coero, usando mais mecanismos de persua-
         so, sugesto, presso moral, etc.


                  QUARTA PARTE:   ALGUMAS APLICAES


                     Muita coisa foi discutida nas trs primeiras partes de nosso
                  estudo.  medida do possvel, tentvamos dar exemplos concre-
                  tos para no corrermos o risco de nos tomar demasiadamente
                  tericos. Mas de qualquer modo, sempre tnhamos de ficar mais
                  em esquemas gerais, dentro dos trs grandes tpicos.
         
                     Permanece presente a questo: Como se poderia aplicar toda
                  a discusso anterior a alguns pontos especficos, e de uma
                  maneira mais prtica?
                     Isso constitui sempre um desafio. Um desafio a que cada um
                  deve responder a partir de sua realidade especfica. No quere-
                  mos, contudo, fugir da provocao. Vamos arriscar fazer algu-
                  mas aplicaes a partir dos pontos discutidos. E vamos tomar,
                  como exemplos, trs situaes muito atuais e importantes: o
                  exemplo da empresa (fbrica), o problema do patriarcalismo
                  (feminismo) e o problema do racismo. Vamos relacionar esses
                  fenmenos s diversas dimenses em que viemos desenvolvendo
                  nosso trabalho: classe, estado e ideologia.
                 No desenrolar de nossa caminhada, vnhamos privilegiando




                                     sempre os aspectos de classe, dentro das diversas prticas. As-




                                     sim, quando analisamos as prticas econmicas, detivemo-nos




                                     especificamente na anlise dos mecanismos de explorao do
#
         





                                     



                                     trabalho. Ao analisar as prticas polticas, nossa preocupao




                                     central foi com a reproduo das relaes de classe, e como o




                                     estado interfere nesse campo, implcita ou explicitamente. Na




                                     anlise das prticas ideolgicas, enfatizamos a maneira como a




                                     ideologia constri sujeitos aptos para uma determinada socieda-




                                     217
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         de, no caso capitalista, controlando-os atravs da mistificao,
         legitimao e hegemonia.
            Porm, como se dariam essas prticas, em outras circunstn-
         cias? Como seriam, no caso, as prticas no patriarcalismo e no
         racismo? E sendo que toda prtica tem produtos especficos - o
         valor de uso, na prtica econmica; as relaes, na prtica
         poltica; a subjetividade, na prtica ideolgica - podemos per-
         guntar: Quais so esses produtos no patriarcalismo e no racismo?
         O quadro a seguir ilustra esta problemtica e nos ajuda no seu
         entendimento:
                              Quadro 6 - D(ferentes prticas e produtos nas reta es de
                                                classe, gnero e raa
         PRTICAS        PRODUTOS       DIMENSO DIMENSO  DIMENSO
                         DE CLASSE      DE GNERO       RACIAL
         Econmica       Valor de uso   Explora~o    Exploraflo    Opresso
                         material       domstica
         Poltica        1       Relaes   Patriarcalis-  Racismo:
                         assimtricas   mo: subordinao
                         de classe:     subordinao  racial
                         DominaAo      da mulher
         Ideolgica      Subjetividade  Identidade de Identidade     Identidade
                         classe e       de genero e   racial e
                         subjetividade  subjetividade subjetividade
         
         
            Nos captulos que se seguem vamos ter sempre presente esse
         quadro para que nos orientemos melhor. Insistiremos sempre -
         pois esse  o nosso objetivo - na questo das prticas, que se
         mostram nas diversas relaes. Estas constituem a alma de um
         grupo social. E essas relaes se concretizam nas prticas, que
         constroem determinado produto.
         
            Entre as relaes, porm, nosso objetivo  mostrar principal-
         mente as que mais se ocultam, mais se escondem. O que 
         aparente no  tanto nosso interesse. A perspectiva histrico-cr-
         tica procura ver sempre o subjacente, o oculto, que, em geral, 
         o essencial. Precisamos descobrir os verdadeiros mecanismos
         que so os responsveis mais centrais de todo o processo. Pode-
         ramos, assim, traar tambm um "mapa" das relaes, para
         podermos nos situar nas discusses que enfrentaremos a segulr.
            Uma estrutura social  constituda, pois, em e atravs de
         relaes. Mas essas relaes so milhares: de classe, de gnero,
         raciais, tnicas, culturais, religiosas, etc. Elas se definem pela
         natureza das prticas que organizam; e isso implica que elas se
         distingam pelos tipos de interesses que modelam e constroem.
#
         





         Tentando especificar os pontos que iremos discutir, no que se
         refere s relaes de opresso, podemos fazer as seguintes dis-
         tines:
         Simtricas
        Relaes sociais
            Assimtricas
         
         m
         Complementares
            Opressivas
         
         m
        Gnero Raa Classe
         
         m
            Feudalismo Capitalismo Ps-capitalismo
            O captulo XV tomar, como situao de anlise, uma inds-
         tria (fbrica), que  a unidade de produo central no modo de
         produo capitalista. Tentaremos ir um pouco mais a fundo na
         compreenso das relaes que a se estabelecem. As relaes de
         produo so, em geral, tidas como "naturais~~, "normais", e so
         responsveis, em grande parte, pela reproduo das relaes em
         geral. Enfatizaremos, nesse captulo, principalmente a parte
         ideolgica, e, na ideologia, a dimenso da hegemonia.
         
            O captulo XVI discutir o problema do patriarcalismo.
         Examinaremos como se formam e como se do as relaes de
         gnero dentro de uma sociedade capitalista, relacionando gnero,
         estado e ideologia.
         
            O captulo XVII, finalmente, discutir o problema do racis-
         mo. Aps tentar uma conceituao, examinaremos que hipteses
         nos ajudariam a compreend-lo melhor. Em relao  classe,
         veremos os problemas que traz para a construo da solidarieda-
         de; e, na dimenso da ideologia, aprofundaremos a questo da
         identidade, lugar privilegiado para o incio de conflitos raclals.
         
         
         
                                    2t8                                              219
         
         
         
         
         
         
            XV - O mundo secreto de uma fbrica
         
         
         
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            Ao nos aproximarmos do final do nosso jogo, podemos
         arriscar algumas aplicaes a partir de tudo o que viemos discu-
         tindo at aqui. Voltamos, inicialmente, ao trabalho,  produo.
         para vero que nossas discusses,principalmente sobre ideologia,
         tm a ver com ele. Este captulo tem a ver principalmente com
         os trabalhadores cm geral, que constroem, dia a dia, a sociedade,
         e nesse dia a dia vo construindo sua histria, tanto pessoal como
         social.
         
             medida que a sociedade evolui, ela se torna sempre mais
         complexa, e novos incentivos so necessrios para fazer com que
         se reproduza. A descoberta desses sempre novos mecanismos de
         reproduo  tarefa primordial dos cientistas sociais no sentido
         de colaborarem com as pessoas na consecuo de uma conscin-
         cia sempre mais clara do mundo e da realidade em que vivem.
         
            A discusso que enfrentamos aqui refere-se  maneira como
         se vo transformando, nos dias de hoje, os mecanismos que
         fazem com que as pessoas trabalhem, sejam felizes no trabalho,
         aceitem as normas e regulamentaes impostas unilateralmente;
         em poucas palavras, como se d em nossos dias a fabricao do
         consenso, atravs de mecanismos de explorao bem mais sofis-
         ticados. Cremos que a revelao desses mecanismos levar a
         novas possibilidades de transformao, e viabilizar situaes
         mais concretas dejustia.153
         
         
         
         
         
         
         
                                                        220
         1. Novos tempos, novas estratgias
         
            Havia um tempo, e isso  ainda realidade em locais onde
         vigora um "capitalismo selvagem", onde o trabalho era basica-
         mente apropriado  base da fora, da coero. O regime de
         escravido, o feudal e as prticas do capitalismo primitivo so
         exemplos dessa situao.
            Mas  medida que os trabalhadores foram tomando cons-
         cincia de sua dignidade e do valor de seu trabalho, as relaes
         principiaram a mudar, e negociaes mais justas entre capital e
         trabalho comearam a se processar. De uma maneira ou outra,
         essas negociaes perduram at hoje, mas sob distintas caracte-
         rsticas.
         
            Apesar de muitos economistas, principalmente os neoclssi-
         cos, no se darem conta (ou no querem se dar conta, por outros
#
         





         motivos, talvez at inconscientes), a funo da produo no 
         simplesmente transformar "inputs" (trabalho e capital na forma
         de matria-prima e meios de produo) em "outputs" (produtos
         fabricados). Existe, alm disso, um componente que  geralmen-
         te esquecido, que se chama "funo de extrao do trabalho".
         Essa funo  um componente adicional que nos diz quanto
         trabalho concreto se consegue de um trabalho total (geral). Por
         que isso? Porque o contrato de trabaih2 deve ser assegurado, e
         garantir esse trabalho custa dinheiro.
         
            Essa "garantia" de que algum realmente trabalhe deve ser
         assegurada de uma maneira ou outra, para que o sistema capita-
         lista continue. Sendo que o capitalismo depende essencialmente
         para sua sobrevivncia, do trabalho das pessoas, e seu lucro 
         conseqentemente a quantia de trabalho que  apropriada pelo
         capital, so necessrios mecanismos que faam com que esse
         trabalhador realmente produza.
         
            A reao imediata a essa questo, provinda dos mais ing-
         nuos, ser:  evidente que o trabalhador vai trabalhar, porque ele
         receber um salrio. Isso certamente  verdade, mas apenas em
         parte. O salrio constitui a razo principal, mas no a nica, de
         milhes de trabalhadores se dirigirem diariamente ao trabalho.
         
            Entram aqui, porm, outros fatores, e  precisamente isso
         que passamos a discutir agora. Algum pode trabalhar ou no
         
         
         
                                                        221
         
         
         
         
         
         
         trabalhar. Outro pode estar presente no local de trabalho e no
         executar tarefa alguma. Outro pode ir trabalhar e produzir mais,
         ou menos. E isso pode acontecer mais em alguns lugares, e, em
         outros, menos. Finalmente, isso depende muito do tipo de trabal-
         ho que algum executa.
         
            O que fazer, pois, para que o trabalhador realmente "traba-
         lhe" e renda o mximo possvel?
         
            Muitos elementos entram nessa discusso. Poderamos tra-
         ar um quadro, talvez um pouco complexo inicialmente, mas que
         nos ajudar a esclarecer essa problemtica sumamente importan-
         te. Ele nos orientar na anlise de inmeros pontos, que ajudaro
         a esclarecer como funciona o trabalho capitalista hoje, e quais as
#
         





         contradies que dai podem surgir.155
         Quadro 7- Mecanismos psicoSsociais e relaes De trabalho
         Mecanismos     Estratgias
         psicOSsOCiaiS  racionais

                   Normas pessoais

                   Normas sociais
                                                Relaes de Trabalho
           Vigilncia/  Hegemonia/
           Coer ~o  Persuas~o
         1) Submissfio/ 4) Consenso/
          (Despotismo)  (Coopera~o
              oportunista)
         2) Obedincia  5) Responsabi-
                    lidade
         
      3) Legitimidade 6) ReciprocidadeJ
                    Lealdade,
                    "eqidade"
            Vamos examinar o quadro por partes.
            Mecanismos psicossociais
            Vrios mecanismos psicossociais esto presentes, de uma
         maneira ou outra, na garantia da execuo do trabalho (coluna
         vertical  esquerda):
         a) Estratgias racionais - so o processo psicossocial em que as
         aes so resultado de uma avaliao de custos e benefcios feita
         pela pessoa, ou grupo, a partir da opo entre diferentes alterna-
         tivas.
         
         
         
         
                                                        222
         b)   Normas pessoais - so as crenas e valores que uma pessoa
         possui em razo de sua educao, socializao, religio, etc. E a
         legitimao ideolgica.
         c)   Normas sociais - so os valores, crenas, etc. tidos como
         corretos e aceitos numa determinada sociedade, num determina-
         do grupo.
         
            Reta es no trabalho
            Olhando-se a situao de trabalho nas empresas capitalistas
         em geral, pode-se dizer que existem dois padres principais de
         relaes que se desenvolvem, entre capital e trabalho, no dia-a-
         dia de uma empresa (linha horizontal acima):
         
         a) Relaes de vigilncia do capital (ou de pessoas a servio do
         capital) sobre os que trabalham; caso as aes no forem execu-
         tadas, recorre-se a medidas de coero.
#
         





         
         b)   Relaes de hegemonia (conforme definida no captulo ante-
         rior, como "liderana moral e intelectual", que procuram se
         tomar efetivas atravs do consenso despertado entre os que
         trabalham.
         
            E importante assinalar, desde logo, que estamos falando aqui
         de relaes na produo entre capital e trabalho, e no entre
         trabalhadores apenas. Como veremos logo em seguida,  muito
         diferente o tipo de relao que pode (ou no) se processar apenas
         entre trabalhadores.
            A primeira dessas relaes (vigilncia-coero) produz di-
         versas situaes especficas, s vezes contraditrias, numa situa-
         o de trabalho. A vigilncia sempre vai custar dinheiro, e pode
         chegar ao ponto extremo de se ter de gastar mais dinheiro com
         vigilncia do que com a prpria remunerao do trabalhador,
         Chega-se a uma situao, pois, em que  preciso se decidir pela
         paralisao ou no-paralisao.
            Ampliando esse caso de uma situao de empresa para uma
         situao de estado-nao, pode dar-se o caso, no muito inco-
         mum, de determinados regimes, principalmente os baseados na
         fora ou coero, gastarem mais dinheiro na manuteno dos
         aparelhos repressivos (exrcito, vrios tipos de polcias, prises,
         etc.) do que no desenvolvimento e apoio a processos produtivos,
         como reforma agrria, educao, sade.
         
         
         
                                                        223
         
         
         
         
         
            Outra contradio que surge com relao  vigilncia-coer-
         o  a contnua ateno ao problema da lealdade, que os respon-
         sveis pela vigilncia devem manter com seus patres. Esses
         esbirros e guardies da ordem se colocam, com isso, numa
         posio de mais condies de barganha, pois se tornaram condi-
         ao indispensvel de existncia e reproduo do trabalho e
         produo, podendo, com isso, exigir determinados privilgios e
         recompensas.
         
            Com respeito  coero, apresentam-se tambm vrias situa-
         es contraditrias. O principal castigo que um trabalhador pode
         ter  ser despedido do emprego. Isso se toma bastante srio numa
         sociedade de alto ndice de desemprego, onde dificilmente al-
         gum poder encontrar novo trabalho. Mas se toma uma punio
         at desejvel se h fcil oportunidade de bons empregos, princi-
         palmente se o ser despedido trouxer algum benefcio colateral,
#
         





         como no caso de poder resgatar o Fundo de Garantia por Tempo
         de Servio (caso brasileiro) ou no caso de poder ter um seguro
         desemprego, s vezes comparvel com o que recebia no seu
         trabalho anterior. H ainda possibilidades de poder participar de
         outros benefcios, como no caso do estado assistencial (welfare
         state).
            Passemos a analisar as clulas desse primeiro tipo de rela-
         es:
         1) Submisso
            Essa submisso  reacional. Os trabalhadores se do conta
         de que no h outro jeito, e para terum salrio tm de se submeter.
         Aqui a vigilncia  a mais alta possvel. Alis, pode-se saber o
         grau de submisso imposto pelas empresas - no oramento -
         atravs da quantia que ela destina  vigilncia: h uma correlao
         inversa entre gastos com vigilncia e uma pretensa "liberdade"
         e eqidade no trabalho (clula 6). Apesar de Burawoy chamar a
         esse tipo de relao de "despotismo de mercado", pode-se dizer
         que ainda est presente, nessa situao, determinado grau de
         racionalidade (contrato de trabalho, mesmo que um tanto fora-
         do, s vezes). No caso da ausncia at mesmo dessa racionalida-
         de, teramos uma situao de puro despotismo, como no caso da
         escravido.
         
         
         
         
                                                        224
            Apesar de poderem ser distinguidos de acordo com a malor
         influncia de fatores internos (obedincia) ou externos  pessoa
         (legitimidade), podemos trat-los aqui conjuntamente. Entram
         em jogo, em tal situao, mecanismos ideolgicos. Os trabalha-
         dores se dispem a trabalhar mais ativa e docilmente, e com mais
         disposio, se perceberem que a autoridade  legitimamente
         constituda (legitimidade, reconhecida externa e socialmente) e
         se tiverem sido ensinados, na escola e na famlia, que devem
         obedincia e respeito aos patres, e que o trabalho, em qualquer
         circunstncia,  algo necessrio, bom e desejvel (normas inter-
         nalizadas pela educao e socializao).156
            O que entra em jogo nas situaes de obedincia e legitimi-
         dade no so tanto os clculos racionais dos custos e benefcios
         de se sujeitar ou no. O que  criada  a crena e a norma de que
         as pessoas tm uma obrigao moral de se esforar, que isso 
         bom e necessrio, tanto para estarem em paz consigo mesmas
         como para satisfazer s exigncias sociais. Apesarde colocarmos
         aqui obedinciaelegitimidadejuntas, elas se distinguem tambm
         em outros aspectos: algum pode, por exemplo, obedecer 
         autoridade, mesmo que veja que no  legtima. Mas, na maioria
         das vezes, a obedincia se d porque as pessoas consideram as
         autoridades legtimas.
         
#
         





            Aprimorando os mecanismos
            Os trs mecanismos discutidos at aqui so, contudo, apenas
         alguns entre os possveis mecanismos empregados. H muitos
         outros que podem ser usados para garantir o desempenho do
         trabalho, com menos custos e at com mais eficincia. So os
         mecanismos baseados na hegemonia-consenso. Esses so, com
         certeza, os mais importantes em situaes de um capitalismo
         mais esclarecido, e onde alguns sinais de democracia comeam
         a ser vistos e sentidos, em determinados pases. Alm disso,
         pode-se dizer que o uso de mecanismos baseados na vigilncia
         e coero, em situaes onde os trabalhadores so altamente
         especializados (professores, gerentes, tcnicos), e onde o proces-
         so de trabalho  intimamente interdependente, tem pouca chance
         e menor possibilidade de ser eficiente, podendo, ao contrrio,
         acarretar srios problemas.
         
         
         
         
                                                        225
         2) e 3) Obedincia e Legitimidade
#
         





#
         





         
         
         
         
         
            Os mecanismos mais comuns, nas situaes atuais, em so-
         ciedades e empresas que se dizem abertas, participativas e de-
         mocrticas, so os seguintes:
         
            4) Consenso
            O consenso  um mecanismo baseado numa estratgia racio-
         nal que supe, ao menos em parte, certo dilogo entre capital e
         trabalho, e onde o capital ao menos d mostras de estar interes-
         sado no bem-estar do trabalhador. O tipo de liderana que o
         capital usa  o descrito quando analisamos o conceito de hege-
         monia.
         
            5) Responsabilidade
            Esse mecanismo  formado atravs da educao-socializa-
         o. E uma qualidade pessoal, presente na subjetividade da
         pessoa, chegando mesmo a fazer parte de sua personalidade. O
         trabalhador se sente, at certo ponto, "parte" da empresa. E a
         situao expressa por muitos, como "vestir a camisa"; achar que
         a empresa  tanto do patro como do empregado, que os prejuzos
         da empresa sero tambm os prejuzos do trabalhador. Forma-se
         o sentimento de fidelidade.
            6) Reciprocidade-lealdade-eqidade
            O trabalhador sente que  um dever de eqidade, de justia,
         por assim dizer, colaborar com o capital, pois "tudo" o que ele
         tem foi concedido pelo patro. A pessoa passa a trabalhar porque
         v que o patro merece isso, e que  sua vez de retribuir pelo
         que recebeu. A nfase da motivao para o trabalho est na
         relao social de reciprocidade, equiparao, eqidade: "eu tra-
         balho e voc me paga". O trabalhador sente que tem de ser leal
         para com seu patro (Veja adiante como essa situao  bastante
         diversa quando existe apenas entre trabalhadores).
            Alguns comentrios gerais:
     a)    No se pode afirmar que esses dois grupos de mecanismos,



                            baseados na relao de vigilncia ou hegemonia, sejam exclusi-



                            vos. Eles podem coexistir, numa mesma empresa, com maior ou



                            menor peso. E provvel, e nota-se isso atravs da investigao
#
         





                            


                            emprica, que haja uma evoluo dos trs primeiros para os trs



                            ltimos, dependendo, em grande parte, da abertura dos patres e



                            dos tcnicos ligados ao departamento do pessoal. No est mes-



                            226
         b) Tambm no se pode afirmar que no existam conflitos dentro
         de relaes baseadas na reciprocidade-lealdade. O conflito e o
         consenso no so antagnicos. mas complementares. Podem-se
         dar mudanas srias no momento em que o consenso seja que-
         brado por alguma das partes.
         
            A presena do conflito vem nos mostrar que os interesses
         dos trabalhadores no so monolticos, no so polarizados.
            Eles podem estar de acordo, por exemplo, em preferir o
         socialismo ao capitalismo, se o conflito fosse centralizado apenas
         nesses dois plos. Mas no  isso o que geralmente acontece. Os
         trabalhadores podem aceitar um regime de trabalho capitalista,
         caso possam receber um salrio suficiente. Alm disso, se per-
         ceberem que no haver possibilidade de trabalho, no caso de
         serem despedidos, iro pensar muito antes de exigirem determi-
         nados benefcios. Mesmo a previso de que, talvez, a fbrica
         (empresa) tenha de fechar,  um argumento fone que vir refrear
         as pretenses dos sindicatos. Isso mostra a existncia de muitas
         contradies, e conseqentemente de nveis de reivindicaes
         diversos dentro de uma fbrica. Mesmo dentro de situaes de
         consenso, h conflitos, h reivindicaes, h negociaes e h
         possibilidades de mudanas.
         
         c) Ateno importante deve ser dada ao mecanismo de integra-
         lizao de normas (2 e 4). No momento em que houver um tipo
         de pessoa com um sentido profundo de obedincia ou responsa-
         bilidade, a vigilncia pode ser mnima, ou mesmo inexistente, e
         no precisa haver preocupao com a reciprocidade (participa-
         o do capital) por parte do patro. Mais e mais buscam-se
         trabalhadores que sejam dceis e responsveis. H um enorme
         interesse de muitos gerentes, e at mesmo de donas-de-casa, por
         trabalhadores "crentes", isto , ligados a igrejas e movimentos
         religiosos independentes que enfatizam comportamentos morais
         baseados na obedincia, responsabilidade, no-participao po-
#
         





         ltica ou sindical, etc. Esses trabalhadores revelam, com isso,
         baixo nvel de solidariedade de classe. Suas preocupaes so
         apenas em desempenhar o trabalho com exatido, alm de de-
         senvolverem comportamentos morais extremamente teis aos
         
         
         
                                                        227
         mo excluda a hiptese de, em casos extremos, dar-se um retro-
         cessO da hegemonia para a vigilncia.
         
         
         
         
         
         donos das empresas, como no tomar bebidas alcolicas, no
         discutir com outros empregados, no reivindicar aumento de
         salrio, no roubar, etc. Tais prticas poupam muito dinheiro ao
         capital que teria, de outra maneira, de empregar mais recursos
         no controle e vigilncia do trabalho. Alm disso, essas prticas
         de comportamento individualista suprimem dificuldades ocasio-
         nadas por necessidades de negociaes sindicais, reclamaes
         trabalhistas e outras exigncias legais.
         
         d) Os "planos de carreira". O caso dos "planos de carreira" deve
         ser considerado sob diferentes ngulos:
         
            - Do ngulo do trabalhador, o plano de carreira  um proces-
         so de justia que recupera, em parte, a perda de seu trabalho
         durante os diversos anos em que esteve empregado.
         
            Em geral, os planos de carreira incorporam o tempo de
         servio, a qualidade e habilidade do trabalhador, o risco presente
         no trabalho, etc.
         
            - Mas o plano de carreira, quando sob o controle quase
         exclusivo do empregador - que decide quando uma pessoa deve
         ser promovida, atravs de critrios mais subjetivos que objetivos,
         definindo, ele mesmo, quais os mritos a serem compensados -
         pode transformar-se num instrumento muito eficiente de gerao
         de consenso, quando no de submisso.
            Ele passa a ligar os interesses dos trabalhadores aos da
         empresa; os trabalhadores passam a esforar-se sobremaneira
         para demonstrar aos superiores seu desempenho, sua lealdade, e
         assimangariarmaismritosparasuapromoo: os trabalhadores
         se transformam em autopromotores, eles prprios se automoni-
         torando.
         
         2. As contradies do trabalhador "intelectual"
         
#
         





            No se pode deixar de acenar aqui para a contradio que
         devem enfrentar os assim chamados "trabalhadores intelec-
         tuais", especificamente os que numa empresa ou em outras
         situaes semelhantes de trabalho so colocados em cargos cuja
         funo  criar e promover o consenso.
         
            Diferentemente do caso da represso, onde os trabalhadores
         assumem um trabalho direto de controle, nossos "intelectuais"
         caso.
         se colocam mais em funes de coordenao, gerncia, treina-
         mento, controle, administrao, etc. No chegam a ocupar altos
         cargos, mas se colocam mais num escalo intermdio, a assim
         chamada "classe mdia contraditria", ou "posies contradit-
         rias de classe".
         
            So vrias as atitudes assumidas por eles, dependendo do
         
         
            Alguns se identificam completamente com os donos da
         empresa. Seu interesse  fazer carreira, subir na vida, conseguir
         um bom currculo. Por isso o plano de carreira  essencial.
         Abstraem-se totalmente de razes ticas ou sociais, e dedicam-se
         exclusivamente  "sua tarefa". So os que no querem se envol-
         ver e agem de maneira totalmente individualista.
         
            Um segundo grupo faz parte dos ingnuos, os de boa-f.
            Acreditam que  assim que deve ser, cada um no seu lugar,
         com sua tarefa, que esse  o processo absolutamente correto e
         "normal". Sempre haver na natureza, e conseqentemente na
         sociedade e nas empresas, pessoas em locais diferentes, execu-
         tando tarefas diferentes; gente que possui os meios de produo
         e outros que trabalham; os que comandam e os que obedecem:
         
         essas so suas crenas e convices. Nunca foi colocada a
         possibilidade de que as coisas podem ser diferentes.
         
            Um terceiro grupo - os de "m-f", segundo Sartre - so os
         que se do conta da situao, tomam conscincia dos processos
         e mecanismos que produzem diferenas e que constroem rela-
         es de dominao e subordinao. Mas porque esto numa
         situao de vantagens e de privilgios, se calam, justificam,
         racionalizam. A diferena com os anteriores, o segundo grupo,
          que eles no conseguem deixar de ver. Inventam, ento, at
         mesmo atravs de processos no totalmente conscientes, descul-
         pas: fabricam teorias justificativas de sua situao; fogem das
         situaes de conflito, com medo de serem obrigados a tomar uma
         atitude.
            H, finalmente, um grupo que toma conscincia do proble-
         ma, d-se conta da situao estrutural e do papel que desempen-
         ha, e tenta responder a essa realidade dentro de seus valores
#
         





         ticos, polticos, morais. So os que se comprometem diante de
         uma situao concreta. Suas aes, contudo, variam de acordo
         
         
                                                        228
                                                                             229
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         com as estratgias que iro adotar na concretizao de seus

         valores e compromissos.'57
         
         3. Passando do vertical ao horizontal...
         
            Um fato crucal e decisivo, verificado atravs de pesquisas
         empricas participantes. foi a descoberta de como os mecanismos
         descritos acima sofrem uma transformao no dia-a-dia de uma
         empresa, em duas dimenses diferentes: a) passam a ser relaes
         horizontais entre os prprios trabalhadores: b) so reproduzidas
         e reforadas a partir de dentro, a partir dos prprios trabalhado-
         res.
         a) Tanto no que se refere  vigilncia como ao consenso, so os
         prprios trabalhadores que passam a exerc-los. A vigilncia
         agora  mtua: trabalhador vigia trabalhador. O mesmo  com o
         consenso: atravs de presses em direo  aceitao das "regras
         do jogo", trabalhador fora trabalhador a aderir ao jogo estabe-
         lecido.
         
         b) O mais importante, porm, o processo de "reforo mnimo",
         de reproduo desses mecanismos, que passa a se processar no
         local de trabalho.  aqui que se produzem e reproduzem novas
         formas de subjetividade, atravs de competio e do conflito que
         se estabelecem nas prticas cotidianas de trabalho. As situaes
         dirias repetidas, as relaes vividas e sentidas em cada momen-
         to, na organizao das atividades e no desempenho de tarefas,
         vo consumindo o consenso.
         
            O ponto central para que tal consenso seja construdo  a
         existncia de determinado espao de liberdade que  concedido
         aos trabalhadores, principalmente no escolher e decidir determi-
         nadas tarefas em determinadas circunstncias. Eles passam a
         "pensar" que so livres, ou at mesmo donos. Julgam-se autno-
         mos. E nesse espao passam a competir com os demais, trans-
         formando os conflitos em problemas entre eles mesmos, e no
         mais entre capital e trabalho. Os trabalhadores so constitudos
         como indivduos isolados, e no como membros de uma classe.
         O conflito e a contradio so "redistribudos" entre os prprios
         trabalhadores, e os patres so esquecidos.
            Um segundo ponto, pelo qual os trabalhadores so levados
         a trabalhar e a se esforar para produzir mais,  a aparente
         vantagem que  dada a eles no jogo de "dar conta do recado" e
         "produzir mais", aps determinada quantia, passando a ganhar
         "extra". Alguns interesses dostrabalhadores so assim satisfeitos
         (ganhar acima do salrio fixo), e isso os liga aos interesses do
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         capital sem que eles se dem conta do fato:  um exemplo muito
         claro do jogo hegemnico, para o qual os trabalhadores so
         cooptados, conseguindo algumas vantagens, mas dentro da ma-
         triz do jogo capitalista, que  o lucro.
            Recorrendo  analogia do jogo, o que se v  que os trabal-
         hadores se envolvem totalmente no competir, no poder ganhar o
         mais possvel, de um lado, e controlar o seu adversrio para que
         ele no fira as normas do jogo (no roube, no estrague os
         instrumentos que so usados por todos, etc.), de outro lado. E
         aqui que um se torna vigia do outro, um se torna informante do
         outro, um passa a pressionar o outro para que "jogue corretamen-
         te". Pouco se pensa sobre quem est lucrando com isso, como
         eles esto produzindo e para quem. Nenhum questionamento
         sobre a possibilidade de parar o jogo, de se tornarem parceiros
         (solidrios): de passarem a trabalhar juntos para assim poderem
         ter maior proveito e vantagens, mais facilidade no trabalho, at
         mesmo mais bem-estar para todos. Ao contrrio, suas aes so
         dirigidas apenas ao seu prprio bem-estar pessoal, seu lucro
         particular, seu crescimento dentro do jogo.
         
            Tudo isso, porm, no se d gratuitamente.  preciso que o
         operrio, de uma maneira ou outra, se julgue livre, dono at. Por
         isso ele passa a pensar que "esta  a sua empresa, sua fbrica".
         Passa a falar na primeira pessoa. As mquinas so "dele". Ele
         receber seu pagamento a partir de "seu" trabalho. Ele est
         jogando, e o campo  como se fosse dele. E quando algum est
         jogando, no deve parar para discutir as regras. Aqui  gerado o
         consenso, no prprio jogar.
         
             Algum poderia dizer que essas normas e comportamentos
         j teriam sido trazidos da prpria famlia, igreja, escola, atravs
         da socializao, educao, religio.  a hiptese que vimos atrs,
                     158
         de Bowles e Gintis. Mesmo que se admita, porm, que normas
         gerais de conduta e valores sejam apreendidos durante a infncia,
         
         
         
                                                        230
                                                                             231
         
         
         
         
         
         nos diversos aparelhos institucionais o que se constata  que nas
         relaes concretas de trabalho h uma aplicao concreta, uma
         especificao dessas normas gerais.  na situao concreta e no
         caso singular, onde acontece a relao, a escolha,onde se fazem
         as opes do dia-a-dia, que se constri o<&nculo entre uma
#
         





         possvel norma geral e o comportamento individual da ao.
         Essas normas gerais podem at ser re-interpretadas, ou mesmo
         mudadas, numa circunstncia concreta.
         
            Novamente o jogo
            A analogia do jogo nos ensina muitas coisas:
         a)  ele que liga uma pessoa a uma situao j dada, pois o jogo
         j est pronto. Entra aqui uma "histria" de leis j prontas, fora
         de nosso controle e de nossa participao, de nosso alcance. E
         isso  vlido tanto para a competio nas tarefas de uma fbrica
         como no jogo de xadrez, no comprar um cano, eleger um
         presidente, lutar na guerra, etc.
         b) Pelo prprio fato de jogar, ns precisamos consentir, aceitar
         as regras, as normas.
         
         c) Como cada jogo tem um objetivo, assim tambm cada modo
         de produo social tem sua finalidade; no caso do capitalismo, 
         o lucro. Isso  tido e aceito como dado, apesar de suas regras no
         terem sido construdas atravs de um consenso democrtico.
         d) Assim como a possibilidade de ganhar torna o jogo sedutor,
         conseguir nossos prprios interesses, definidos pelo capitalismo,
          o melhor modo de gerar consenso s regras e s relaes
         existentes, apresentando-as como "naturais", "inevitveis". As
         alternativas devem ser eliminadas como "utpicas", "imposs-
         veis".
         
            Mas o jogo tambm pode ser um instrumento de crtica. Ele
         nos ajuda, ento, a detectar e revelar muitos aspectos ocultos que
         denunciam suas arbitrariedades. Ele implica contraditoriamente
         a noo de uma sociedade emancipada, em que o povo poder
         criar seu prprio jogo, fazer sua prpria histria, consciente e
         livremente.
         
         
         
         
         
         
         
                                                        232
                                                XVI- Patriarcalismo
         
         
         
         
            Ao introduzirmos a quarta parte, indicamos que as dimen-
         ses de gnero, na sua prtica econmica, do ocasio  relao
         de explorao domstica, que, na maioria das vezes,  do homem
         sobre a mulher (podendo, contudo, dar-se o oposto): na sua
         prtica poltica, cria a relao de patriarcalismo (subordinao
#
         





         da mulher) ou ao menos em hiptese, de matriarcalismo (subor-
         dinao do homem); e em sua prtica ideolgica, essas relaes
         constroem a identidade de gnero, como parte da subjetividade.
         
            O conceito "gnero" tomou seu nome a partir de discusses
         surgidas principalmente com referncia ao feminismo. O termo
         surgiu para indicar a dimenso ideolgica da questo, sugerindo
         que "gnero"  uma construo social em contraposio a sexo,
         que  uma caracterstica biolgica.
         
            Porm, esse fato "histrico" no  casual. O que o feminismo
         quis e quer denunciar  que, a partir de uma dominao material
         e concreta do homem sobre a mulher, foi necessria uma prtica
         ideolgica que a legitimasse e justificasse. Assim, na "constru-
         o" das relaes diferentes de gnero, as prticas ideolgicas
         ligaram um conjunto de crenas, suposies, normas, valores
         ligados ao gnero, que levavam  subordinao da mulher ao
         homem.
        Exemplos disso so, entre outros: a crena de que a mulher



                             inferior ao homem; que a diviso do trabalho entre homens e



                            mulheres est ligada a diferenas "naturais". Discute-se mesmo,



                            hoje em dia, se os traos de personalidade, traos de carter, por



                            assim dizer empiricamente observveis, entre homens e mulhe-



                            233
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         res - que os homens so competitivos e dures. e as mulheres
         so ternas e afetivas, por ~~mplo - no so, eles tambm,
         resultado dessas ideologias.
            Examinaremos, em nossa discusso, os seguintes pontos:
         
            - Quais as relaes entre gnero e classe?
            - Entre gnero e estado?
            - Entre gnero e ideologia?
         
         1. G@nero e classe
         
            O problema da relao entre gnero e classe, como eixo de
         dominao social,  um dos tpicos mais controvertidos, entre
         os tericos crticos, nos dias de hoje.
            Normalmente, nas discusses de estrutura e formao de
         classe, d-se importncia a pessoas, como ocupantes de uma
         posio de classe. Essas pessoas, contudo, na maioria das vezes,
         vivem em famlias. Ainda mais: na maioria das vezes, tambm
         essas famlias constituem uma unidade de consumo, dentro da
         qual as rendas so somadas e os padres de consumo so partil-
         hados. Assim, poder-se-ia argumentar, com boa dose de razo,
         que as famlias, e no as pessoas, deveriam ser a unidade real de
         anlise dentro de uma perspectiva de classe.
           Embora essa discusso seja importante tanto para homens
         como para mulheres, e entre as mulheres, tanto para donas-de-
         casa, como para as que possuem um trabalho extemo remunera-
         do, ela , contudo, especialmente central para poder definir a
         posio de classe de mulheres que fazem parte da fora ativa de
         trabalho.
         
           A primeira questo que se coloca, pois,  se a posio de
         classe das mulheres, na fora de trabalho, deve ser definida pelos
         seus papis como trabalhadora ou como membro de uma famlia.
         E se  pela famlia, como deve ser definida sua "classe familiar"?
         Essa famlia  definida por uma espcie de mdia ponderada dos
         seus membros ou  definida pelo seu chefe?1W
            H diferentes maneiras de se colocar esse problema:
         a) Gnero como uma forma de relaes de classe - Os homens
         exploram as mulheres diretamente atravs de relaes de gnero.
         Nesse sentido, os homens so os "donos" das mulheres, como de
         
         
         
                                                        234
#
         





         qualquer outro meio de produo, e com isso so capazes de se
         apropriar da mais-valia produzida pelas mulheres. Um exemplo
         crucial, nesse ponto,  o relacionamento na questo do controle
         sobre a fertilidade das mulheres. Vem daqui a idia de que o
         patriarcalismo foi a forma de relaes de classe.
         
         b) Relaes de gnero como exercendo uma influncia causal
         nas relaes de classe - Certas posies de classe existem
         somente porque formas especficas de patriarcalismo esto pre-
         sentes nelas. Exemplo claro disso  a prtica da "secretria
         pessoal". ou a exigncia, para certos executivos, deterem espo-
         sas.
         
         c) Gnero como um mecanismo de localizao das mulheres em
         determinadas posies de classe - A socializao das mulheres
         se processa de tal modo, que elas so quase que fatalmente
         levadas a desempenhar determinados trabalhos, em geral subor-
         dinados aos homens. H casos mais srios que derivam dai: o
         fato, por exemplo, de mulheres terem restries a crditos,
         necessitarem tambm da assinatura do marido (ou de outra
         pessoa) para obter emprstimos, discriminao no mercado de
         trabalho, etc.
         d) Gnero como um elo de mediao para a posio de classe: o
         gnero faz com que certas pessoas consigam determinadas posi-
         es atravs da famlia. Somente atravs desse canal  que seria
         possvel chegar a determinada posio de classe.
            Comentando
            Num exame mais cuidadoso podemos descobrir certa evo-
         luo que se processou e se processa ainda entre determinadas
         formas de relao gnero-classe. Assim, a passagem de a) para
         b) se d quando as mulheres conseguem direitos jurdicos de
         cidadania, que suprimem a subordinao legal das mulheres aos
         homens. Apenas em 1932. por exemplo, as mulheres puderam
         votar, no Brasil. Nos Estados Unidos, somente em 1930 as
         mulheres puderam ter passaporte.
            A passagem de b) para c) est ainda em processo. Medidas
         que faam com que trabalhos iguais tenham a mesma remunera-
         o iro fazer com que relaes de gnero no interfiram na
         criao e desenvolvimento de posies de classe sistematica-
         mente discriminatrias.
         
         
         
                                                        235
         
         
         
         
         
         
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            A passagem de c) para d)  a luta por plena igualdade,
         principalmente na ateno que se comea dar aos mecanismos
         de gnero que, atravs da socializao, vo determinar diferentes
         oportunidades de trabalho e remunerao.
         
            Finalmente, com a dissoluo da situao d), sero supressos
         os elos entre classe, gnero e famlia, como existem hoje, e as
         mulheres tornar-se-o menos dependentes dos homens dentro da
         prpria famlia.
         
           A questo mais delicada, porm, se d quando passamos a
         examinar a situao dentro da famlia. E classe uma caracterstica
         pessoal, ou familiar? E a famlia, como perguntvamos antes,
         que determina a posio de classe, ou so as pessoas: homem,
         mulher, filhos?
             muito conhecida a postura polmica de Goldthorpe}61
         Segundo ele, so as famlias que possuem uma posio de classe,
         por vrias razes:
            - As famlias somam suas rendas como unidades de consu-
         mo. Cada membro da famlia participa, tanto das rendas como
         da explorao de cada um.
         
           - As famlias tm interesses de classe dnicos: lutas de classe
         se do entre famlias, no dentro das famlias.
           - As famlias  que so mobilizadas para uma formao de
         classe, no os indivduos atomizados.
         
            - Devido  diviso do trabalho baseada nas relaes de
         gnero, e devido  dominao machista, a sorte econmica de
         muitas famlias depende do carter de classe do trabalho do
         homem.
         
           - Como concluso, a classe das mulheres casadas deriva da
         posio de classe do marido.
         
            claro que essa posio levantou enormes celeumas. As
         crticas pipocaram de todos os lados. E com razo, pois existem
         muitas contradies irresolvidas nos pontos acima, como, por
         exemplo:
           - H um grande ndmero de separaes, e as mulheres con-
         tinuam com a posio de classe que possuam enquanto casadas.
         
         
         
         
                                                        236
           - Formao de classes tambm mobilizam pessoas indivi-
         dualmente.
           - Os interesses ligados  classe no so apenas os de renda.
         Problemas de autonomia e dominao, polticas de produo e
#
         





         outros, embora ligados  classe, centram-se mais em indivduos
         enquanto empregados.
           - Finalmente, o grau de dependncia da famlia, derivado do
         emprego do marido, varia muito historicamente. Vrios fatores
         institucionais podem intensificar ou enfraquecer essa dependn-
         Aqui so necessrias algumas distines, para se compreen-
         der as implicaes:
         a)   No se pode negar que, sob certas condies, Goldthorpe tem
         razo, principalmente onde no existe divrcio e onde h forte
         dependncia material da mulher (famlia) com relao ao mari-
         do. Mas se h um alto ndice de separaes e baixa dpendncia
         material, as mulheres vo depender muito mais, na sua localiza-
         o de classe, de suas rendas ou trabalhos.
         
         b)   O critrio fundamental para se compreender a estrutura de
         classe  que as pessoas se tomam classe, pois possuem interesses
         especficos, definidos por mecanismos de explorao. Pode-se
         dizer que h trs eixos que unem essas pessoas aos mecanismos
         de explorao:
         ra).
         - Eixo direto - a pessoa  diretamente explorada (ou expIo-
           - Eixo indireto - a pessoa  explorada (ou explora) indireta-
         mente. As famlias dos operrios, ou dos capitalistas, participam,
         por isso, da explorao.
         
           - Eixo histrico (temporal) - depende da estabilidade ou no
         dos eixos direto e indireto. Circunstncias histricas influenciam
         decisivamente numa ou noutra situao.
         
           Esse eixo histrico-temporal  de muita importncia. Em
         muitos estudos sociolgicos, at mesmo marxistas, encontram-
         se explicaes da mudana nas posies de classe em termos de
         recrutamento ou mobilidade, esquecendo a natureza das posies
         como tais. Isso parece insustentvel. A durabilidade de uma
         posio depende da estrutura de classe, pois ela  explicativa
         
         
         
                                                        237
         cia.
         
         
         
         
         
         
         exatamente porque  ela que organiza os interesses e as limita-
         es materiais das aes.
            A durabilidade de uma posio de classe no pode ser
         tomada como um dado objetivo, independente das preferncias
#
         





         histricas subjetivas dos atores. E claro que as probabilidades de
         estabilidade ou mudana podem ser mapeadas inde-
         pendentemente das preferncias de tempo. Mas, para a especifi-
         cao da estrutura de classe como tal,  necessrio que se tomem
         em considerao as preferncias dos atores.
         
            Como concluso, poder-se-ia dizer que, para explicar a
         posio de classe das mulheres,  necessrio definir sua ligao
          estrutura de classe nesses trs eixos. Isso abre a possibilidade
         de mais nuanas no mapa estrutural das prprias posies de
         classe: as pessoas tm posies de classe diretas e indiretas, que
         podero ser diferenciadas. Isso abre um leque para combinaes
         de posies de classe contraditrias dentro das famlias. E todas
         essas combinaes podem ter diferentes graus de estabilidade
         temporal.
         
         2. Gnero e estado
         
            Duas dimenses podem ser distinguidas aqui: a) a dimenso
         da relao entre o estado e a famlia; b) a dimenso mals
         especfica, parao nosso caso, da questo da relao entre o estado
         e as relaes de gnero como tais.
         
         a) Estado e famlia
                                            162
           Muitas discusses j foram feitas a esse respeito. O
         assunto j preocupou Engels, que o discutiu em seu estudo sobre
         a relao entre a famlia, o estado e a propriedade privada. No
         Brasil, temos a obra clssica de Gilberto Freyre, que analisa com
         detalhes a famlia patriarcal, como se constituindo um estado em
         si mesma.
         
            Uma maneira simples de analisar essa situao  ver as
         relaes que se estabelecem entre estado e famlia.
         
            A partir da famlia pode se dar uma situao de "familialis-
         em que as decises nacionais dependem mais de "patriar-
         cas" do que de representantes polticos. Em sociedades onde a
         influncia da famlia patriarcal teve muita importncia, essa
         influncia familiar de sculos perdura at mesmo hoje, como 
         o caso do Brasil. Certas famlias possuem fora poltica consi-
         dervel e se reproduzem no poder. 163
            Se fssemos aplicar a anlise que Therborn faz dos quatro
         tipos de sociedade (feudalismo, capitalismo, capitalismo monop-
         olista e socialismo) a um quinto, que seria, no caso, o estado
         patriarcal, poderamos identificar, para esse tipo de estado, cara-
         tersticas especficas para cada um dos onze pontos que ele
         analisa. Por exemplo: na anlise das tarefas do estado (relao
         entre pblico e privado), poder-se-ia dizer que o estado patriarcal
         estabeleceria uma esfera distinta de relaes pessoais, uma esp-
#
         





         cie de "esfera familiar" fora das regulamentaes do estado. Iria
         se contrapor, assim, ao socialismo, onde o privado sofre sempre
         mals interferncia do estado, e ao capitalismo, onde h uma
         separao ntida entre o pblico e o privado.
            Oposto a esse tipo de "familialismo", poderia existir um tipo
         de estado que viesse a interferir em todas as dimenses sociais,
         no excluindo a familiar: um tipo de "estatismo" ou mesmo
         "totalitarismo estatal". No so raras, mesmo nos dias de hoje.
         tentativas de interferncia totalizante do estado na esfera fami-
         liar, controlando o nmero de filhos, impedindo um tipo nico
         de educao pblica e estatal, controlando as polticas de sade,
         etc. O risco que se corre, em situaes semelhantes,  que em
         nome de uma "eugenia" pode-se chegar a prticas que se apro-
         ximem do genocdio.
         
         b) Estado e gnero
         
            Pode-se ir, contudo, um pouco mais a fundo nessa questo,
         e formular a mesma pergunta que se fez ao discutir o carter de
         classe capitalista do estado: Qual o carter de gnero de estado?
         Ele  controlado por homens (viso instrumentalista)? Ou ele 
         estruturado de tal modo que estejam inseridos nele elementos
         patriarcais (viso estruturalista)?
         
            A questo que se coloca aqui  se o estado. a1~ de tomar
         caractersticas de dominao e alienao polti~3 passaria a
         somar a essa dominao e alienao de gnero.
         
            O desafio que o feminismo est lanando, no campo da teoria
         do estado,  a possibilidade de mostrar que o estado, como tal,
         possui formas de dominao patriarcal. Alguns elementos que
         
         
                                                                             239
                                                        238
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            - A constatao, a partir do exame da legislao e outros
         procedimentos parlamentares, de discriminaes, onde determi-
         nadas tarefas so competncia exclusiva de homens. Isso se
         mostra at mesmo atravs do uso de uma linguagem inclusiva.
         
            Permanecem aqui, contudo, dois grandes desafios:
         *   possvel "isolar" essas influncias do aspecto de classe?
            Como mostrar se elas so distintivamente relaes de gne-
            ro?
         *  No  suficiente apenas documentar os efeitos da dominao
            de gnero produzidos pelo estado; o que se toma necessrio
             uma teoria dos mecanismos que geram e reproduzem esses
            efeitos. E isso  sempre o mais difcil.
         
         
         
             no aspecto da ideologia que a maioria dos debates sobre
         relaes de gnero  colocada. Sabemos que as pessoas possuem
         crenas, valores, normas, e que, de uma maneira ou outra, essas
         crenas se concretizam em padres de comportamento.
            A grande influncia da ideologia, na discusso desse tpico,
          que a prpria definio do conceito gnero, como vimos antes,
         ~  feita a partir de uma construo social em contraposio a
         sexo, que  biolgica.
            O feminismo enfatizou, de maneira bastante igsistente. a
         importncia da construo ideolgica, ou cultural,1 7 das rela-
         es de gnero, e as maneiras como as prticas de dominao e
         opresso, ligadas a essas relaes, so objetivamente compreen-
         didas e reproduzidas. Embora nenhum estudioso das relaes de
         gnero negue a importncia dos fatores ideolgicos, h, contudo,
         diferenas sobre at que ponto a ideologia (cultura)  central e
         decisiva na determinao dessas relaes.
         Examinaremos aqui dois enfoques principals.
         - Cultura patriarcal e relaes de gnero
      168
            A tese de Michele Barret, baseada nos estudos do capitalis-
         mo do sculo XIX, coloca considervel nfase e importncia
         causal decisiva na cultura patriarcal.
         
            Segundo ela, as prticas culturais patriarcais so os proces-
         sos que explicam as relaes de gnero contemporneas. como
         por exemplo:
         *  a forma especfica de famlia composta de um chefe, que era
            o nico trabalhador;
         *  a excluso das mulheres (principalmente as casadas) dos
#
         





            trabalhos remunerados, ou com uma remunerao extrema-
            mente baixa, se por acaso tivessem emprego.
            Essas prticas surgiram de um processo histrico em que
         uma ideologia, que colocava a mulher numa ligao natural 
         vida familiar, foi incorporada nas relaes capitalistas de produ-
         o. A autora coloca aqui a importflncia do papel das ideologias
         em sua relao ao gnero: sem as ideologias pr-capitalistas e
         sua influncia nas prticas sociais do capitalismo primitivo,
         outras alternativas teriam sido possveis. No contexto em que
         isso aconteceu, a opresso das mulheres se tomou necessria para
         uma reproduo do capitalismo. As condies materiais e os
         fatores biolgicos, nessa perspectiva, so inteiramente "constru-
         dos" pela cultura.
         
            - Condies materials, biolgico-culturais, e relaes de
         gnero
         
            Brenner e Ramas comeam fazendo uma crtica  tese de
         Barret. Segundo elas, sua tese no se d conta da necessidade de
         uma base material para que essa opresso das mulheres se
         
         
         
                                 240                                               241
         podem ser trazidos para comprovar o carter distinto de um
         estado patriarcal seriam, entre outros:
         
            - O fato de os governos, e outros parlamentares, serem
         exclusivamente homens. Somente nos ltimos tempos est se
         dando ateno  importncia de legisladoras mulheres que pos-
         sam interferir tanto na instituio de leis que eliminem discrimi-
         naes de gnero como, principalmente, em planejamento e
         polticas que no venham ferir interesses das mulheres, atravs,
                                        ,,166
         principalmente, de estratgias de "seleo negativa
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         3. Gnero e ideologia
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            Apresenta-se aqui, tambm, um campo frtil para muitas
         confuses: a proximidade entre prticas de gnero, relaes e
         subjetividade d  ideologia apenas um poder de explicao
         geral.  preciso, pois, ver o que se quer explicar e identificar os
         mecanismos especficos atravs dos quais trabalha a ideologia.
         
         
         
         
         
         processasse. Os efeitos especficos dos fatores culturais so, eles
         tambm, condicionados pela natureza da estrutura de classe das
         condies materiais em que as prticas de gnero se do. A
         cultura no  um processo causal autnomo. Alm disso, o
         capitalismo no se beneficia em totalidade e com exclusividade
         devido, principalmente, ao salrio-famlia.
         
            Essa segunda tese comea por incorporar a importncia de
         fatores biolgicos, tambm, na compreenso das relaes de
         gnero. Mas eles no agem independentemente: os fatores bio-
         lgicos dependem das condies materiais e dos contextos de
         classes. As autoras procuram mostrar como isso se deu histori-
         camente:
            No capitalismo, uma alta fertilidade era essencial, pois.
         devido  alta mortalidade infantil e ausncia de sade, eram
         poucos os filhos que sobreviviam para garantir proteo aos
         adultos. As mulheres deviam, pois, permanecer em casa, cuidar
         dos filhos. Isso era ainda mais acentuado porque a natureza do
         capitalismo primitivo bloqueava toda possibilidade de outras
         alternativas, como creches, melhores condies de sade, segu-
         ros sociais. O argumento dessa tese no , por isso, reducionista
         ao biolgico, pois depende do nvel de desenvolvimento das
         foras de produo e da natureza das relaes de propriedade.
            Por outro lado, no deixa de ser verdade que as prticas
         materiais, uma vez institucionalizadas e reproduzidas por um
         longo perodo de tempo, geram efeitos culturais, como discuti-
         mos ao tratar da ideologia e cultura. Ideologias patriarcais pr-
         capitalistas e familialistas tornam-se aceitveis, e se incorporam
         e perpetuam na estrutura capitalista atravs da educao e socia-
         lizao, devido  sua relao necessria com as condies mate-
         riais de vida. Assim, as prticas culturais podem ter certa
#
         





         autonomia e tornar-se, em si mesmas, obstculos  mudana
         social. Se no so as que lideram o processo, so contudo uma
         realidade concreta com que se tem de lidar. Como concluso,
         pode-se dizer que tanto os fatores de classe como os fatores de
         gnero podem ter efeitos autnomos. A dinmica das relaes
         de classe, porm, e a transformao das condies materiais
         desempenham um papel bem mais amplo na explicao das
         transformaes dos fatores que determinam as prticas sociais.
                                                   XVII- Racismo
         
         
         
         
            No quadro traado na introduo  quarta parte, foi mostrado
         que a prtica econmica que se d na dimenso racial  a de uma
         opresso material; a prtica poltica, uma subordinao racial; e
         a prtica ideolgica, uma identidade racial que constri um
         determinado tipo de subjetividade.
            A discusso do racismo nos leva a constatar que existem -
         na anlise dessa problemtica - "salincias" espec ficas que no
         podem ser reduzidas a puras relaes de classe. Do mesmo modo
         que nas relaes de gnero. onde no se pode afirmar que elas
         sejam redutveis a puras relaes de classe, nas relaes raciais
         entram elementos diversos, geralmente ligados  ideologia e 
         cultura, que se tornam preponderantes e centrais em vrias
         situaes sociais.
         
            Aps tentar uma noo do que se poderia entender por
         racismo, vamos relacion-lo com a dimenso de classe e a
         dimenso ideolgica.
            No faremos uma discusso especfica da relao racismo e
         estado, pois poucos elementos se fizeram presentes, at hoje, que
         viessem despertar o interesse dos pesquisadores. ou que interes-
         sassem s prticas populares de maneira mais premente. Isso no
         quer dizer, contudo, que tais relaes no existam. Talvez seja
         esse um campo bastante frtil para muitas investigaes, como,
         por exemplo:
         
            - As investigaes referentes s aes, manifestas ou disfar-
         adas, na manuteno de determinadas hierarquias raciais.
         
         
         
         
                                                        243
      242
         1
         1
         1
         
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         1
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             -     As investigaes referentes s estratgias dos partidos,
         para enfraquecer e marginalizar determinados grupos raciais.
         
        1. Conceituando racismo169
         
            H inmeros conceitos que esto intimamente ligados ao que
         se convencionou chamar de racismo. A possvel distino entre
         eles nos ajudar a elaborar melhor nossas discusses. Mas para
         isso necessitamos recordar alguns pontos discutidos no captulo
         da ideologia, principalmente com respeito  formao de nossa
         subjetividade.
            Ao examinar os conflitos raciais, percebe-se que as questes
         que esto em jogo no so redutveis a questes puramente
         econmicas ou materiais. H, nessas lutas, algo de especfico. E
         esse especfico tem a ver com algo existente nas pessoas e
         grupos, que constri e diferencia as vrias identidades. Vamos
         tentar detalhar a questo.
         
            Todos ns temos determinadas "situaes vivenciais", isto
         , situaes comunitrias, sociais e geogrficas, dentro das quais
         nossa identidade  constituda: famlia, comunidade, origem,
         religio, vizinhana, amizades, etc. As prticas que se do nessas
         situaes entram, em doses maiores ou menores, na construo
         de nossa identidade, que  parte de nossa subjetividade.
         
            Ao redor de certos fatores, h formao e transformao de
         nossas identidades, que se baseiam no territrio (ptria, comuni-
         dade, local, regio), em fatores biolgicos (cor e outras caracte-
         rsticas corpreas), na religio, origem (ancestrais), etc.
         Ningum pode prescindir desses fatores em sua constituio
         como ser humano.
            Os fatores mencionados acima, que embasam as prticas que
         formam nossa identidade, tm suas razes e se constroem, a partir
         de uma "experincia primria", dentro de uma comunidade
         personalizada de infncia, bairro, parentesco amizades.
         
            Podemos, com um pouco de cuidado, distinguir alguns con-
         ceitos que tm a ver com essa "experincia primria" presente
         no desenvolvimento social e comunitrio:
         d) Raa -  a identidade que liga essa experincia a ancestrais
         biolgicos comuns; uma espcie de histria "biologizada" (os
         arianos).
            Essas caractersticas no esto isoladas. Elas se relacionam
         intimamente e podem at se sobrepor, como por exemplo quando
         raa e etnia so idnticas.  preciso, pois, ter sempre em mente
         essa freqente relao entre as vrias caractersticas.
#
         





             necessrio, contudo, fazer aqui uma distino importante.
         Podemos fazer uma analogia entre patriarcalismo e racismo:
            Sexo  uma caracterstica biolgica, gnero  uma identidade
         e patriarcalismo (feminismo)  uma ideologia; a ligao entre
         esses elementos  que, a partir das experincias vivenciais rela-
         cionadas ao sexo, cria-se uma identidade que se torna parte de
         nossa subjetividade.
            Tambm  assim quanto  raa (etnia, nacionalidade, cl).
         So caractersticas objetivas, biolgicas, geogrficas ou histri-
         cas. A partir da se formam, semelhantemente, identidades atra-
         vs da prtica ideolgica, que usa a "matria-prima" das
         experincias vivenciais comunitrias, face a face, que vo se
         tornar parte de nossa objetividade. As ideologias que dai se
         constituem so o racismo, o etnocentrismo, o nacionalismo e o
         clnismo. O racismo, como o patriarcalismo (feminismo) j se
         ref~  ideologia como contedo, no mais  prtica ideolgi-
         ca.  o conjunto de crenas, valores, normas, que constitui a
         dimenso valorativa da ideologia, a legitimao-justificao.
         
            Se fosse possvel, ento, identificar uma especificidade para
         o que seja o racismo, diramos que ele representa aquela parte de
         nossa subjetividade (que inclui a identidade e a personalidade)
         que se constitui a partir de experincias vivenciais comunitrias,
         ligadas a uma histria de ancestrais biolgicos comuns.
         
         
         
                                                        244
                                                                              245
         a) Nacionalidade -  a identidade que liga nossa experincia
         primria e comunitria a uma histria poltica. territorialmente
         definida (nossa ptria).
         b) Etnia -  a identidade que liga essa experincia a uma histria
         cultural comum (ser italiano, alemo, brasileiro).
         c)   Cl (tribo) -  a identidade que liga essa experincia a uma
         histria familiar comum (os Oliveira).
         
         
         
         
         
         
            O fato, porm, de pessoas possurem diferentes identidades,
         incluindo a racial, no acarreta, logicamente, a existncia de
         conflitos. Existem pessoas que possuem a mesma identidade
         racial mas se diferenciam muito por outras identidades. Onde,
         pois, se localizaria a origem dos conflitos?
         
            O conflito, como se constata empiricamente, surge da pre-
         sena que causa assimetrias, discriminaes, desequilbrios, in-
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         justias. O simples fato de existir diferenas nada significa. O
         problema surge no momento em que se estabelece uma relao
         entre pessoas ou grupos, que no seja aceita por alguma das
         partes. Inicia-se, nesse momento, o conflito.
         
            A origem de um conflito pode estar muito distante, e sua
         evoluo se d, em geral, atravs de diversos estgios, como
         criao de rtulos ou esteretipos, em geral negativos, de um
         grupo com respeito ao outro. A discriminao pode tomar-se
         jurdica quando o grupo dominante consegue materializar as
         diferenas em leis: ou pode ser apenas social, isto , no existe
         na lei, mas existe na prtica. E se torna atual, manifesta, quando
         a parte oprimida toma conscincia e decide, atravs de lutas e
         confrontaes concretas, restabelecer ou mudar essas situaes
         de injustia.
         
            Com essa noo geral sobre o racismo, vamos passar a
         relacion-lo  questo da classe e da ideologia.
         
         2. Racismo e classe
         
            A questo aqui  tentar esclarecer, enquanto possvel, a
         lgica terica da interconexo entre sistemas de relaes de raa
         e de classe. Vrias perguntas podem ser feitas na tentativa de
         relacionar essas duas dimenses:
         
            - As divises raciais devem ser tomadas como uma forma
         especfica de opresso de aasse?
         
            - As estruturas raciais possuem uma lgica autnoma de
         reproduo e desenvolvimento, ou isso depende das relaes de
         classe existentes?
            - At que ponto os sistemas de dominao so construdos
         e modelados por estratgias instrumentais das classes dominan-
         tes? Ou a opresso racial  reproduzida pelas estratgias da raa
         dominante como tal?
            A hiptese de trabalho que orienta a maioria dos enfoques
         ligados  tradio marxista  a seguinte: a dominao e o conflito
         racial (tnico) surgem da interseco entre estruturas de classe e
         identidades constitudas socioculturalmente (raa). Em outras
         palavras, para que as diferenas, baseadas na raa, faam surgir
         conflitos e relaes de dominao,  de se suspeitar, como
         hiptese inicial, que existem interesses materiais concretos pre-
         sentes nessas relaes (tnicas).
            Esses conflitos, contudo, no podem ser totalmente reduzi-
         dos aos interesses materiais, e eles no implicam a "salincia"
         psicolgica desses conflitos; mas os interesses materiais (de
         classe), essa  a hiptese, so o eixo central para a reproduao de
         tais conflitos atravs do tempo, e so tambm a fora diretora
         que transforma meras diferenas de identidade em lutas concre-
#
         





         tas.
         
            A tarefa importante que se coloca, a partir dessa hiptese, 
         compreender a interseco especfica de raa e classe, e suas
         conseqncias, para estratgias de formao de classe e para a
         reproduo/transformao das prprias formas de desigualdade
         racial.
         
         3. Relembrando uma distino
         
            Para se poder entender melhor as diversas formas de inter-
         seco,  preciso ter presente a distino entre explorao e
         opresso, como as definimos no captulo IV.
         
            Explorao  uma relao entre pessoas, ou grupos, em que
         uma das partes se beneficia s custas da outra. No caso da
         explorao material, sem o trabalho do trabalhador, o capitalista
         no se enriqueceria.
         
            A opresso, no nosso caso a opresso material, refere-se a
         uma situao em que uma pessoa, ou grupo,  sistematicamente
         excluda do acesso a tipos especficos de recursos econmicos,
         como do emprego, da terra.
            A dimenso racial distintiva da prtica econmica, na maio-
         ria das vezes, no  a explorao, mas a opresso. Trabalhadores
         
         
         
                          246                                                247
         
         
         
         
         
         negros so explorados como trabalhadores. Mas eles so oprimi-
         dos pelo fato de lhes ser negado o que, em termos liberais, 
         chamado de "oportunidades iguais", isto , acesso igual a bons
         empregos,  obteno de habilitaes, qualificaes, credenciais,
         principalmente atravs da escola e outras prticas educativas.
         Devido a tais prticas raciais de opresso material, grupos racial-
         mente oprimidos acabam por se situar em posies de classe
         distintas e, conseqentemente, acabam sendo explorados atravs
         de mecanismos de classe. A associao emprica entre raa e
         classe  de importncia crucial para se entender os conflitos
         sociais. Mas o componente racial claramente distinto dessa com-
         posio provm das prticas de opresso material baseadas na
         raa como tal.
         
         4. Interseco de raa e classe
         
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            Vrias formas de interseco entre classe e raa so poss-
         veis, e algumas foram mesmo comprovadas atravs de investi-
         gaes empfricas.
         
         a) Trabalhadores brancos exploram trabalhadores pretos. Existe,
         concretamente, uma transferncia demais-valia dos trabalhado-
         res negros para os brancos: brancos e negros so clara e distin-
         tamente classes diferentes. Esse  ocaso clssico do colonialismo
         interno onde se d uma superexplorao: trabalhadores e capita-
         listas brancos fazem uma aliana pelo fato de partilharem inte-
         resses comuns na explorao dos negros.
         
         b) Trabalhadores brancos oprimem os trabalhadores negros, mas
         no exploram; eles apenas se beneficiam de prticas segregacio-
         nistas, mas no recebem uma transferncia direta de mais-valia.
         Isso se d, concretamente, onde h mercados de trabalho exclu-
         sivos, e os negros so excluidos de trabalhos de maior gratifica-
         o.  a legtima tcnica de "dividir para dominar". Os
         capitalistas, no fato de estabelecer mercados de trabalho diferen-
         ciados, jogam brancos contra ne~,rps. beneficiando-se de suas
         divises. O trabalho de Bonacich  muito interessante a esse
         respeito.
         
         c) Os trabalhadores brancos nem oprimem nem exploram os
         trabalhadores negros: os capitalistas exploram diferencialmente
         ambas as categorias de trabalhadores. Todos os trabalhadores,
         porm. so sujeitos a diferentes exploraes. Nesse sentido,19~
         capitalistas se beneficiam do racismo. Os estudos de Reich,
         atravs das tabelas de remunerao, mostram que os trabalhado-
         res brancos esto em situao pior quando os trabalhadores
         negros so oprimidos ao mximo; os salrios dos trabalhadores
         brancos so maiores, contudo, quando as desigualdades entre
         trabalhadores brancos e negros so menores.
         d) Teoria da subclasse. Alguns estudos esto mostrando uma
         importncia sempre menor da explorao diferenciada entre
         trabalhadores brancos e negros, pois vrios segmentos da popu-
         lao negra esto sendo marginalizados, por completo, do siste-
         ma de explorao, passando a formar uma subclasse. Essa
         marginalizao se d principalmente atravs da negao, aos
         negros, de possibilidades educativas que lhes oportunizariam
         condies concretas de melhores trabalhos e maior remunerao.
         
            O conflito racial, em tais circunstncias, muda de endereo:
         dirige-se agora contra o estado, para exigir a soluo desses
         problemas, e no mais em direo a situaes de antagonismos
         ou competio de classe entre trabalhadores brancos e negros.
         e) Evoluo das diferentes relaes. Wilson173 mostra em suas
         pesquisas referentes aos Estados Unidos uma transio histrica
         que parte de relaes de escravido pr-industriais, onde uma
         classe branca dominante explorava os escravos negros. Essas
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         relaes, no perodo industrial, sofrem uma mudana, passando
         os trabalhadores brancos a oprimirem os negros atravs da
         competio e excluso do mercado de trabalho. Finalmente,
         chegam  situao atual, onde a explorao diferenciada entre
         raas desaparece, e onde as desigualdades de classe entre os
         prprios negros se toma mais sria e crtica do que entre negros
         e brancos.
         
         5. Racismo e formao de classe
         
            Pelo que se viu das discusses acima, as relaes entre raa
         e classe, apesar de estarem ligadas, apresentam-se de diferentes
         maneiras. Apesar de trabalhadores negros serem explorados, s
         vezes, tanto por patres como por companheiros brancos, trans-
         parecem, em diversas situaes, certas contradies, rachaduras,
         
         
         
                          24R                                                 249
         
         
         
         
         por onde seria possvel, talvez, abrir possibilidades de mudana
         ou ao menos de melhoria das condies dos trabalhadores.
         
            Por exemplo: na maioria das vezes, tanto brancos como
         negros so explorados igualmente. Mais: h exemplos em que a
         melhoria de condies salariais dos negros beneficia automat-
         icamente os brancos.
            A questo que se poderia colocar  esta: Lima aliana ou
         solidariedade entre todos os trabalhadores no ofereceria opor-
         tunidades de melhoria para ambos? Em outras palavras: O que
         impede a construo de uma solidariedade entre trabalhadores
         brancos e negros?
         
            No exame dessa situao percebemos, contudo, que as difi-
         culdades so bem maiores do que as possveis chances de mu-
         dana.
         
            Ao discutirmos o problema da solidariedade, no captulo V,
         vimos que a essncia da solidariedade o altrusmo condicional.
         O altrusmo tem a ver com a ordem das preferncias, e o condi-
         cional se refere s condies de informao e comunicao.
         
            Assinalamos l trs fatores sociais que podem aumentar (ou
         diminuir) essas condies: a concentrao e interdependncia
         dos trabalhadores, a existncia de uma comunidade local e a
         presena de uma autentica liderana, junto com um grupo de
         ativistas e boa organizao.
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            Cabe  investigao emprica mostrar o quanto essas condi-
         oes se realizam em circunstncias especficas. Numa viso
         superficial, porm, podemos constatar, na maioria de nossas
         sociedades, a existncia de estratificaes raciais, at mesmo
         geogrficas. Isso, somado  diferenciao no local de trabalho,
         vai constituir grande impedimento para a possibilidade de for-
         mao de classe entre grupos raciais diferentes.
         
            As diferenas nas identidades culturais dificultam, em gran-
         de parte, a criao de simbolos, bandeiras de luta comuns, que
         favoreceriam a organizao da classe trabalhadora. Isso  mais
         srio se existir, da parte da classe dominante, interesse explcito
         em dividir os trabalhadores, dificultando ainda mais a criao de
         solidariedade. Ainda mais, os esteretipos raciais inconsciente-
         
         
         
         
                                                        250
         mente afastam trabalhadores de raas diferentes, criando oca-
         sies de desconfiana e suspeita entre eles.
         
            Soma-se a isso ainda outro fator, comum a muitas sociedades
         de hoje: dificuldades econmicas e incertezas quanto ao futuro
         fazem com que trabalhadores negros aceitem um trabalho com
         remunerao bem menor que a dos brancos. Trabalhadores bran-
         cos tentam, ainda mais, diminuirde todos os modos uma possvel
         competio por parte de outras pessoas, usando todo tipo de
         prticas para excluir os negros.
         
            O resultado final de tudo isso  que heranas histricas de
         desigualdade estruturadas racialmente vo influir no momento
         de se conseguir um trabalho, favorecendo os brancos. Esse fato,
         por sua vez, refora o esteretipo racial de que os pretos no
         querem ou no sabem trabalhar. E tudo somado, leva  dificul-
         dade de se poder construir condies de solidariedade entre
         trabalhadores.
            Ainda cabe aqui uma constatao importante, mencionada
         rapidamente acima, com respeito a novas maneiras de perpetuar
         a diferenciao entre trabalhadores de diferentes raas. Na maio-
         ria das sociedades modernas, a discriminao jurdica foi aboli-
         da. Oficialmente, todos so iguais perante a lei, tm as mesmas
         oportunidades. Acontece, porm, que, na maioria dessas socie-
         dades, a condio social para se conseguir um emprego vai
         depender de determinadas qualificaes, ou credenciais, o assim
         chamado "capital cultural", conseguido, em geral, atravs da
         educao. A educao se torna, ento, o canal para se chegar a
         bons empregos e salrios correspondentes. Ora, no so todos os
         que conseguem uma educao tal que lhes garanta, como conse-
         qncia, trabalho e salrios bons. E entre os mais excludos
#
         





         dessas condies de educao esto novamente os discriminados
         racialmente.  a teoria da subclasse. A luta se trava, ento, ao
         redor das possibilidades de educao para todos, de tal modo que
         todos tenham oportunidades semelhantes de promoo.
         
         
         
            Ao definirmos o racismo, vimos que ele  uma ideologia que
         se constri a partir de experincias vivenciais comunais, que
         formam nossa identidade racial. Vimos tambm que temos vrias
         
         
         
                                                        251
         6. Racismo e ideologia
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         identidades: somos sujeitos mltiplos. O grau de integrao e
         complementao entre nossas muitas identidades varia em gran-
         de escala.
           O racismo, como toda ideologia, possui tambm dois aspec-
         tos. De um lado, ele  uma prtica social, atravs da qual os
         sujeitos raciais se constituem. Essas prticas usam determinada
         "matria-prima", que transformam em subjetividade. De outro
         lado, ideologia  um contedo, isto , um conjunto de idias,
         normas, crenas que, no caso do racismo, possui uma forte
         dimenso valorativa (dimenso da legitimao-justificao).
           Dois pontos merecem, aqui, nossa ateno: a) a matria-pri-
         ma com a qual se forma a identidade; b) os possveis mecanismos
         de transformao.
         
         a) A matria-prima - J identificamos, em parte, qual a matria-
         prima que constitui nossa identidade racial, ao discutirmos a
         definio de racismo. Ela  a experincia vivencial, presente em
         comunidades primrias (famlias, bairro, raa) atravs de rela-
         es afetivas, face a face.
         
           Essas experincias e interaes primrias tm uma dimenso
         histrica: so transformadas em identidades que se ligam a uma
         trajetria continuada, onde entram as dimenses polticas, cultu-
         rais, religiosas, sociais. Nessa perspectiva, h sempre certa im-
         portncia dos fatos passados na determinao de aes futuras.
         
            A questo que se coloca aqui poderia ser: O que faz com que
         determinadas identidades - no caso, a racial - se tomem salien-
         tes, adquirindo um poder motivacional maior e mais decisivo?
           Vimos que em conflitos raciais no esto presentes unica-
         mente interesses materiais. Nem  suficiente mostrar apenas que
         na identidade racial esto presentes fatores, atributos herdados
         biolgica ou geneticamente.
                                                        174
           Albert e Hahnel dizem que o poder e a salincia dessas
         identidades provm de elas terem suas razes na experincia
         vivencial da comunidade primria, e  isso que toma possvel a
         construo de identidades mais fortes e intensas.
         
         
         
         
         
         
         
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         face a face, como a religiosa, a familiar, etc., que no chegam a
         se tomar salientes ou intensas como a racial.
           Cremos que a razo disso deve ser buscada em causas
         externas. E essas causas externas seriam as ameaas que deter-
         minados grupos sofrem a partir de diferentes razes. O grupo
         opressor. por exemplo, pode ver no oprimido uma ameaa a seus
         privilgios, principalmente materiais; reage, pois, tentando con-
         t-lo, usando, para isso, armas e argumentos inicialmente basea-
         dos na ideologia, mas que podem se transformar em represso
         jurdica e mesmo armada.
           Da parte do oprimido, a razo  a explorao ou a opresso
         material e cultural. Muitas vezes  a prpria sobrevivncia de um
         grupo, como raa, que est ameaada; nessas circunstncias, o
         racismo pode tomar caractersticas de messianismo.
         
         b) Mecanismos de transformao -  possvel uma mudana nas
         relaes raciais?
         
           Na discusso dessa questo teremos sempre em mente os
         dois aspectos da ideologia como prtica e como contedo. Eles
         esto sempre interligados, pois  atravs das prticas que as
         experincias vivenciais vo se cristalizando em crenas, valores,
         normas.
         
           No caso da pura identidade racial, poder-se-ia dizer que a
         sua transformao pode dar-se no momento em que se mudem
         as prticas relacionadas  "matria-prima" da identidade racial.
         Claro que  impossvel mudar o fato de algum ser negro ou
         branco, judeu ou americano. Mas podem ser mudadas as prticas
         que fazem com que determinadas "salincias" se tomem opres-
         sivas.
         
            O racismo pode ter sua origem, em parte, no processo de
         socializao, quando determinadas crenas, valores, normas so
         ensinados, acompanhados de juzos de valores negativos ou
         positivos, a respeito do prprio grupo racial ou de outros grupos.
         Desenvolve-se, assim, uma ideologia que poder se atualizar
         quando as circunstncias histricas se tornarem favorveis. Mas
         no recesso da conscincia, no inconsciente, esto presentes as
         condies para o surgimento e desenvolvimento de prticas e
         aes correspondentes s ideologias interiorizadas.
         
         
         
         
                                                        253
            Acontece, porm, que existem outras identidades que tam-
         bm se fundamentam nessas experincias vivenciais comunais,
         
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           Poder-se-iam mencionar aqui tambm ?tmec~smos de
         benefcios ou sanes, de que fala Therborn, como mecanis-
         mos de transformao da ideologia. Uma identidade racial pode
         mudar no momento em que as pessoas se do conta das vantagens
         ou desvantagens de continuarem com tais ideologias, principal-
         mente quando essas vantagens trouxerem benefcios consider-
         veis.
            Mais:  no momento em que mudam as prticas de interao
         primria, face a face, e se estabelecem prticas diversas das que
         sustentam a identidade atual, pode muito bem processar-se uma
         mudana dos contedos valorativos e normativos presentes no
         nosso consciente ou inconsciente, e com isso podem acontecer
         mudanas nas prticas racistas.
         
         7. Identidade racial e dominao
         
            Constatamos que os conflitos raciais somente surgem quan-
         do existe uma situao ou qualquer tipo de "desigualdade". A
         identidade, porm, surge somente a partir de relaes de desi-
         gualdade (opresso, dominao)?
         
            H opinies diversas a respeito desse assunto. Wright'76
         afirma que sim, argumentando que nas prticas de construo de
         identidade esto presentes relaes antagnicas. Ao menos,
         constatamos que o "problema" racial est ligado a situaes
         desse tipo. Para outros tipos de relaes se reservaria o termo
         "tnico", ou "cultural".
            Nosso entendimento, porm,  que isso no precisa ser
         logicamente assim. A raa, como qualquer outro atributo (italia-
         no,judeu, brasileiro, ariano), no necessita, por si mesma, de uma
         relao de dominao. Podem existir diferentes relaes raciais
         sem serem antagnicas. Pode-se, assim, ter uma identidade "ra-
         cial", sem que isso implique em dominar ou ser dominado.
         
           Atravs da constatao emprica verificamos que toda vez
         em que h "conflito" racial, esto em jogo interesses contradit-
         rios. E  devido a esses interesses que surgem as lutas. A
         superao dos conflitos implicaria, pois, na resoluo das rela-
         es discriminatrias. Mas isso no significa que toda a relao
         racial seja conflitante e conseqentemente baseada em relaes
         de dominao/opresso.
         
           Tentando uma sntese, poder-se-ia dizer que toda identidade
         se forma a partir de uma diferena: isso nos d a caracterstica
         de sermos sujeitos singulares. Nisso no precisam estar presen-
         tes, logicamente, prticas de dominao.
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           Ao constatar, porm, essas diferenas, eu posso perceber
         nelas a presena de dominao. A partir da, duas possibilidades
         existem:
         
           - Eu posso aceitar essa relao de dominao, incorporando
         (s vezes o processo  inconsciente) em minha identidadelsub-
         jetividade esse contedo opressivo-dominativo, como por exem-
         plo: achar que sou menos inteligente, menos bonito, que tenho
         menos valor interiorizado; como diz Paulo Freire, "a imagem do
         opressor".
            - Ou posso, tambm, questionar essas diferenas que in-
         cluem relaes discriminatrias, lutando contra elas; e se houver
         reao da parte contrria, estabelece-se assim o conflito.
            Num contexto racial onde se do relaes de dominao, 
         importante tomar sempre em considerao tanto a identidade do
         oprimido como do grupo racial opressor. Os mecanismos pre-
         sentes na formao de uma e de outra identidade podem variar,
         como tambm podem ser bem distintos os processos de mudan-
         as, num e noutro caso.
            Ainda uma palavra deve ser dita sobre a relao de identida-
         des raciais com o inconsciente e com a estrutura de nossa
         personalidade, nossos estados afetivos. Ao discutirmos a defini-
         o de ideologia, a relao entre ideologia e cultura (captulo XI),
         mencionamos a possibilidade de ideologias (crenas, valores,
         normas) serem sustentadas por disposies de carter e virem a
         corj~ponder  estrutura de determinado tipo de personalida-
         de. Poderiam existir, dessa maneira, racistas que fossem
         "organicamente" racistas, devido a sua personalidade; e racistas
         que fossem "convencionalmente" racistas, por ser isso norma,
         costume. Evidentemente, seria muito mais fcil aos segundos, do
         que aos primeiros, mudarem suas prticas.
         
         
         
         
         
                          254                                                255
         
         
         
         
         
           Um campo vasto e fascinante abre-se aqui para o exame do
         papel que pode desempenhar a cultura (como definida no cap-
         talo XI: a materializao social dos contedos da personalidade,
         dimenso inconsciente de nossa subjetividade) em circunstn-
         cias ligadas ao racismo, como tambm ao nacionalismo ou
         etnocentrismo. Entramos aqui no reino dos smbolos, que apelam
         para emoes, disposies afetivas, persuases, presses morais,
         percepes subliminares, etc. O uso da arte, da msica, das
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         representaes teatrais, marchas, faz despertar motivaes in-
         conscientes, facilmente manipulveis e dificilmente control-
         veis. No estariam aqui muitas das explicaes "inexplicveis"
         de aes e de fatos, ligados ao racismo, dificilmente inteligveis
         a partir de uma anlise racional?
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
                                                        256
                                                     Concluso
         
         
         
         
            Chegamos, assim, ao final de nossas discusses. Um longo
         caminho foi percorrido. Cheio de sombras, desvios, curvas,
         obstculos. Alguma coisa foi possvel entrever. Muita coisa
         permaneceu na ambigidade. na incerteza. Mas esse  o prprio
         caminho de nossa trajetria social, do jogo em que estamos
         envolvidos.
           A magia ou a necessidade do jogo podem nos distrair, no
         nos deixar ver todas as dimenses e as diferentes possibilidades
         de ao. As vezes, os detalhes das jogadas nos escondem os
         objetivos ltimos, as conseqncias mais amplas e fundamentais
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         do empreendimento global.
         
           Duas coisas so, contudo, imprescindveis nesse nosso jogo
         social:
         
           Primeira -  decisivamente importante ver o quadro inteiro
         do jogo e o quanto  possvel perceber suas razes, suas origens,
         quem o criou, as razes de sua criao.  medida que consegui-
         mos descobrir os mecanismos geradores das relaes que se
         estabeleceram e se estabelecem e como elas se concretizaram
         atravs da histria, mais possibilidades teremos de compreender
         o funcionamento da mquina inteira.
         
            Segunda - Precisamos nos dar conta de que esse no  o
         nico jogo possvel. H um sem-nmero de jogos diferentes de
         se jogar. Assim, se no pudermos trocar de jogo, podemos, ao
         menos, trocar as regras do jogo. E tudo isso depende de como
         nos organizarmos. No mbito do social, a organizao  o nosso
         "meio de produo". Esse  o nosso segredo.
         
         
         
                                                        257
           Muitas perguntas permanecem ainda sem resposta nessa
         tentativa de compreenso dos mecanismos que levam grupos
         raciais a se digladiarem mutuamente. H ainda um largo caminho
         a percorrer. E esse  o desafio que permanece, e a todos os que
         querem compreender mais a fundo os secretos mecanismos da
         vida social.
         
         
         
            No deixemos que nos digam que esse jogo sempre existiu
         ou que o nico Possvel. E nem que, nesse jogo, essa  a nica
         maneira de se jogar. Nossa realizao, como seres humanos
         livres e so]id&ios depende da Possibilidade de sermos Sujeitos
         de nossa histria, COnstrutores da Sociedade em que queremos
         vi ver.
FIM DO LIVRO.
